Filme, versões e detergente | Por Edelberto Behs

O detergente virou palanque, o filme virou escândalo e a pré-campanha bolsonarista afunda em versões contraditórias, disputas internas e guerra de narrativas.
Última edição em maio 19, 2026, 09:42

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Com a revelação da “doação” (ou dinheiro pra campanha) de Daniel Vorcaro ao senador Flávio Bolsonaro para a produção do “Dark Horse”, filme que trata da biografia do ex-presidente Jair Messias, e o abalo que isso provocou em sua pré-candidatura, o nome de Michelle Bolsonaro voltou à condição de candidatável à presidência da República pelo PL, embora o capitão já tenha definido que ela não é candidata. Mas ela se manifesta em determinados momentos, como o seu engajamento na defesa do detergente Ypê. Na casa dela, informou, o produto é usado. 

Ypê é aquela marca de detergente, desinfetante e sabão líquido que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tirou de circulação alguns lotes do produto, pois constatou que ele estava contaminado pela bactéria Pseudomonas aeruginosa. Essa bactéria de nome complicado pode causar infecções graves em ambientes hospitalares e pessoas com doenças crônicas, além de pneumonia, infeções urinárias, infeções na pele e na corrente sanguínea. A Anvisa é do Lula, mas a própria empresa admitiu a falha.

A tropa bolsonarista veio em defesa do detergente Ypê. Afinal, os proprietários da Química Amparo, dona da marca, doaram um milhão de reais para a campanha de Jair Messias em 2022. Agora, virou bandeira política. Interessante seria ter a Michelle num debate entre presidenciáveis e ela indagar, afinal, qual o sabão líquido que os concorrentes usam e indicam, já que se trata de um tema de importância nacional.

Mentiroso de carteirinha, para não fugir ao DNA da família, Flávio primeiro negou, ao ser indagado por repórter do Intercept Brasil se ele tinha pedido dinheiro a Vorcaro para financiar o Dark Horse. “É mentira, de onde você tirou isso?” Mais tarde, o senador lançou nota oficial e achou melhor falar dos 134 milhões de reais para bancar essa película que, é a expectativa do filhote, será um sucesso nacional. Como foi o filme de Sérgio Moro?

A produtora do filme disse que não recebeu grana alguma do Vorcaro. O Intercept revelou, um dia depois, outro detalhe: o produtor do filme é o Eduardo Bolsonaro. Que já disse, em rede social, que apenas emprestou o seu nome para a realização do filme. Típico da famiglicia, hoje é uma coisa, amanhã já muda tudo, as versões se multiplicam.

Para início de conversa, a divulgação do filme teria que começar informando o título para a maioria da rede bolsonarista: Dark Horse. Claro, filme que se preza tem que vir embalado em língua estrangeira. O título pode ser traduzido literalmente como “cavalo negro” ou “azarão”. No exército, Jair Messias tinha o apelido de “cavalão”. Parecem adequados.

Não, não se verá na película a grosseria do ex-presidente junto a jornalistas no cercadinho em Brasília, de modo especial a mulheres repórteres de “dar o furo”. Nem a decisão de deixar de comprar vacinas para combater a covid-19. Nem o isolamento dele em encontro internacional. Nem o contrabando de colar de diamantes.

A manifestação oficial do senador sobre o dinheiro solicitado a Vorcaro, para não fugir à regra, primeiro é um ataque. “Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes dos bandidos. “No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”, justificou Flávio. Está bem, sem qualquer contrapartida! O seu aliado, senador Ciro Nogueira, vai aplaudir a sugestão da CPI do Banco Master. E claro, Flávio está entre os inocentes. Os bandidos em questão são os do outro lado. Como expressou a camiseta que Flávio usou ao lado do governador de Santa Catarina: “O pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”.

Essa história ainda terá outros desdobramentos! Aliás, Eduardo já deu outra informação: ele adiantou 50 mil dólares para a contratação de um diretor de Hollywood na fase inicial do projeto, e que ele foi reembolsado.


Foto de capa: Divulgação | IA

Sobre o autor

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Edelberto Behs
Jornalista, Coordenador do Curso de Jornalismo da Unisinos durante o período de 2003 a 2020. Foi editor assistente de Geral no Diário do Sul, de Porto Alegre, assessor de imprensa da IECLB, assessor de imprensa do Consulado Geral da República Federal da Alemanha, em Porto Alegre, e editor do serviço em português da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC).

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