Dívida histórica com escravizados e alerta sobre IA: sinalizações importantes pelo Papa| Por Arlindo Villaschi

A encíclica Magnifica Humanitas alerta que tecnologia sem controle democrático e sem compromisso com a dignidade humana pode reproduzir novas formas de desumanização no século XXI.
Última edição em maio 28, 2026, 02:28

translate

Em encíclica, Papa Leão XIV fala de ‘escravidão’ ao abordar inteligência artificial

A recém anunciada encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, é importante documento político e moral nesta conturbada etapa do século XXI. Para além de colocar o peso de sua estatura política no debate sobre os riscos da inteligência artificial, o Papa também realizou algo raro na longa história da Igreja Católica Romana: reconhecer explicitamente sua responsabilidade na legitimação da escravidão de milhões de africanos.

A Magnifica Humanitas recorda que progresso técnico como o incorporado nos processos de automação chamado Inteligência Artificial (IA) está longe de equivaler a progresso moral. A humanidade já produziu ciência sofisticada para organizar navios negreiros, campos de concentração e bombas nucleares. Agora produz algoritmos capazes de vigiar populações inteiras, manipular consciências e automatizar guerras.

Ao pedir perdão pela escravidão e alertar contra uma inteligência artificial sem limites éticos e políticos, Leão XIV indaga ao Ocidente: seremos capazes de controlar nossas próprias criações antes que elas passem a controlar a própria ideia de humanidade?

Mais do que apenas indagar, ele se soma a outras lideranças políticas, científicas e tecnológicas ao defender marcos jurídicos internacionais, vigilância pública independente e controle democrático sobre a IA.

Em contraste com o discurso predominante no Vale do Silício e seus satélites em outros países — que frequentemente trata qualquer regulação como obstáculo ao progresso —, o Papa explicita uma verdade elementar: tecnologia sem controle social serve majoritariamente aos poucos mais fortes e detentores de poderes políticos, econômicos e tecnológicos. A história da escravidão ilustra bem isso. O avanço técnico das navegações, das armas e das finanças globais não produziu humanismo; produziu impérios coloniais que trataram seres humanos como se mercadoria fossem.

A analogia está longe de ser um exagero. Assim como a modernidade europeia usou corpos africanos como meros insumos de produção, o capitalismo digital ameaça converter experiências humanas em dados exploráveis. A pessoa deixa de ser sujeito para tornar-se ativo informacional. Assim, a advertência do Vaticano dialoga e se soma a alertas já explicitados em várias instâncias por filósofos, juristas, educadores e formuladores de políticas públicas.

É desejável que a encíclica de Leão XIV seja promissora nas consequências pastorais e políticas que podem ser desencadeadas em territórios concretos onde a Igreja ainda mantém forte presença social. No caso brasileiro, por exemplo, é esperado que as palavras do Papa estimulem dioceses, paróquias, toda uma rede de escolas católicas e pastorais sociais a promover amplas conversas públicas. Compartilhamento público de debates sobre os dois grandes temas abordados pelo documento: a herança histórica da escravidão e os riscos contemporâneos da inteligência artificial sem controle democrático.

O Brasil possui condições particularmente favoráveis para esse protagonismo. Nenhum país das Américas recebeu tantos africanos escravizados. Nenhum convive até hoje com desigualdades raciais tão profundas e naturalizadas. Ao mesmo tempo, poucas instituições possuem capilaridade territorial comparável à da Igreja Católica Romana que se faz presente, e pode ser mais atuante, nas periferias urbanas, pequenas cidades, comunidades tradicionais e grandes centros econômicos.

A Magnifica Humanitas é uma oportunidade histórica para que dioceses brasileiras assumam papel ativo na reconstrução da memória nacional. Elas podem apoiar e estimular iniciativas concretas de educação histórica, valorização da cultura afro-brasileira e enfrentamento das desigualdades estruturais herdadas da escravidão.

Apoio e estímulo de dioceses a iniciativas concretas, por um lado, através do fomento a fóruns públicos, seminários e ciclos de debates. Por outro, através da construção de pactos territoriais envolvendo governos locais, universidades, movimentos negros e indígenas, sindicatos, setor empresarial e organizações da sociedade civil. A questão central não seria apenas revisitar o passado, mas perguntar quais políticas públicas ainda são necessárias para reparar séculos de exclusão e violência.

Para tanto, há que ampliar ações já existentes de valorização da contribuição africana para a formação sócio-econômica-cultural-espiritual do Brasil. Há também que acelerar e ampliar medidas práticas de inclusão econômica, preservação de patrimônios históricos afro-brasileiros, fortalecimento da educação antirracista e combate à violência que continua atingindo desproporcionalmente a população negra.

Lógica semelhante precisa ser adotada no debate sobre IA. A sensibilidade sobre riscos apontados pelo Papa precisa ir muito além de alertas por especialistas em tecnologia ou círculos acadêmicos. Trata-se de tema profundamente humano e social e por isso precisa ganhar relevância na agenda política da sociedade e das instituições.

Nesse ponto, as dioceses devem passar a ser espaços de mediação ética e política. Em vez de aceitar passivamente a narrativa de inevitabilidade tecnológica difundida pelos senhores feudais tecnológicos e seus asseclas no Ocidente, elas podem, inspiradas na Magnifica Humanitas, ajudar a construir uma cultura pública de questionamento. Questionamentos legitimamente democráticos sobre quem controla os dados, quais interesses orientam os algoritmos e quais limites devem ser impostos ao poder tecnológico concentrado em poucas poucas empresas concentradas nos Estados Unidos.

Mais importante ainda é estimular processos permanentes de diálogo territorial entre poder público, universidades, empreendedores, trabalhadores e movimentos sociais. O desafio colocado pela inteligência artificial não será resolvido apenas por governos ou empresas. Ele exigirá pactos sociais amplos sobre trabalho, educação, privacidade, soberania nacional e direitos humanos.

Há uma coerência profunda entre os dois temas abordados pela encíclica. O reconhecimento da escravidão recorda o que acontece quando estruturas econômicas desumanizam pessoas em nome do lucro imediato e do crescimento a curto prazo. O alerta sobre inteligência artificial busca impedir que novas formas de desumanização, agora sustentadas por acelerados avanços tecnológicos, se consolidem sob aparência de inovação inevitável.

Difícil identificar contribuição mais relevante que a Igreja Católica Romana no Brasil possa oferecer ao país neste momento histórico: ajudar a transformar memória em responsabilidade pública e tecnologia em objeto de deliberação democrática. Não como dona da verdade, mas como instituição capaz de reunir atores diversos em torno de perguntas fundamentais sobre dignidade humana, justiça histórica e futuro coletivo.


Foto de capa: Divulgação / Vaticano media / AFP.

Sobre o autor

2973e65c-905f-4225-a967-d0c3fdb5fbb8-md
Arlindo Villaschi
Professor de Economia.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático