Confissões de uma cadeira empoeirada | Por Henrique Morrone

Última edição em maio 21, 2026, 06:26

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Não fui sempre assim.

Houve um tempo em que me ocupavam com frequência.

Não por conforto, nunca fui a mais confortável, mas por envergadura.

Poucos estavam à altura.

Daqui, via-se melhor.

Os primeiros a sentar falavam pouco.

Observavam.

Aguardavam o momento certo de intervir.

Havia hesitação.

E, por isso, alguma responsabilidade.

Com o tempo, isso mudou.

As falas tornaram-se mais seguras.

Corriqueiras.

Às vezes, pueris.

As decisões, mais rápidas.

As dúvidas, menos visíveis.

Não sei dizer quando deixei de ser necessária.

Não houve aviso.

Apenas passei a ser evitada.

A mesa continuou sendo usada.

Os papéis continuaram circulando.


As vozes seguiram firmes.

Mas já não havia peso sobre mim.

Foi então que a poeira começou.

No início, era quase nada.

Um sinal leve de intervalo.

Depois, acumulou.

Ninguém a limpou.

Não por descuido.

Mas porque não fazia falta.

Ainda assim, tudo prosseguiu.

As decisões foram tomadas.

Registradas.

Divulgadas com clareza.

A ata do Comitê de Política Monetária, o COPOM, como de hábito, sairia em breve.

Nada, ao que consta, saiu do previsto.

Não me cabe julgar.

Tampouco confessar.

Fui feita para sustentar, não para decidir.

Mas aprendi a reconhecer ausência.

E posso dizer:

há decisões que continuam sendo tomadas mesmo quando já não há altura.


Foto de capa: Dreamstime

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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