Não fui sempre assim.
Houve um tempo em que me ocupavam com frequência.
Não por conforto, nunca fui a mais confortável, mas por envergadura.
Poucos estavam à altura.
Daqui, via-se melhor.
Os primeiros a sentar falavam pouco.
Observavam.
Aguardavam o momento certo de intervir.
Havia hesitação.
E, por isso, alguma responsabilidade.
Com o tempo, isso mudou.
As falas tornaram-se mais seguras.
Corriqueiras.
Às vezes, pueris.
As decisões, mais rápidas.
As dúvidas, menos visíveis.
Não sei dizer quando deixei de ser necessária.
Não houve aviso.
Apenas passei a ser evitada.
A mesa continuou sendo usada.
Os papéis continuaram circulando.
As vozes seguiram firmes.
Mas já não havia peso sobre mim.
Foi então que a poeira começou.
No início, era quase nada.
Um sinal leve de intervalo.
Depois, acumulou.
Ninguém a limpou.
Não por descuido.
Mas porque não fazia falta.
Ainda assim, tudo prosseguiu.
As decisões foram tomadas.
Registradas.
Divulgadas com clareza.
A ata do Comitê de Política Monetária, o COPOM, como de hábito, sairia em breve.
Nada, ao que consta, saiu do previsto.
Não me cabe julgar.
Tampouco confessar.
Fui feita para sustentar, não para decidir.
Mas aprendi a reconhecer ausência.
E posso dizer:
há decisões que continuam sendo tomadas mesmo quando já não há altura.
Foto de capa: Dreamstime





