CORRESPONDENTE POLÍTICO |  Messias sucumbe na guerra de vaidades de Lula e Alcolumbre

Última edição em abril 30, 2026, 01:39

translate

1_hynkel_e_napaloni-588256

Entre as diversas sequências antológicas de O Grande Ditador, o clássico de Charles Chaplin, há uma que resume de forma demolidora o quanto são ridículas e infantis as disputas de poder entre líderes políticos. Adenoyd Hynkel, a paródia de Adolf Hitler interpretada por Chaplin, recebeu em seu país, a Tomânia, o ditador de Bactéria, Benzino Napaloni, a caricatura de Benito Mussolini , papel de Jack Oakie. Nas demonstrações de superioridade de um sobre o outro, eles vão até o salão de barbeiro do palácio de Hynkel. E produzem ali uma hilária corrida de cadeiras de barbeiro, um tentando colocar mais alto a sua cadeira para rebaixar o outro. O Senado assistiu ontem a uma repetição da disputa de cadeiras.

Messias no papel do barbeiro

A versão política foi protagonizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). E deixou no papel do humilde barbeiro – no filme, ele é confundido com o ditador – o advogado-geral da União, Jorge Messias, na sua busca fracassada para ser aprovado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Alcolumbre derrotou Messias. Só tinha acontecido antes em 1894.

Por que Alcolumbre era contra?

Messias e Lula: um “não” ao personalismo | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Messias teve 16 votos na Comissão de Constituição e Justiça quando o mínimo seria 14. E somente 34 no plenário do Senado, quando pelo menos teria que ter 41. A história provavelmente passará o resto da vida tentando compreender a razão. Alcolumbre resistia a Messias porque queria na vaga no STF o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG). Mas Lula já tinha se entendido com Pacheco, a quem queria como candidato a governador em Minas Gerais. Pacheco aceitou, mudou de partido, será candidato. Posou para foto ao lado de Messias na véspera.

Modo de indicação em xeque

Parece haver mesmo algo de muito errado quando a escolha de um dos chefes do poder Judiciário depende unicamente da guerra de vaidades entre os chefes dos outros dois poderes. Eles, pelo menos, foram eleitos pelo voto popular. Enquanto Messias era sabatinado na quarta-feira (29), muito se discutia no Congresso quanto ao atual modelo de indicação dos ministros do STF.

PECs

Há nada menos que 35 Propostas de Emendas à Constituição (PECs) sugerindo mudanças na forma de indicação dos ministros do STF. Eles também tomados por grande vaidade pela forma como são escolhidos. Se essa já era uma discussão que crescia, o capítulo de quarta-feira pode tê-la amadurecido.

Damares

Somente a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) tem três PECs. No início da quarta-feira, ela era tida como um voto a favor da indicação de Messias. Não se sabe se mudou de ideia, mas ela votou contra. Segundo ela, como recado para a necessidade de mudança no modelo de escolha.

Solitária

“A escolha de um ministro STF não pode depender unicamente da vontade solitária de uma pessoa para atuar lá como seu representante”, critica Damares. Mas assim não fez Jair Bolsonaro com André Mendonça e Kassio Nunes Marques? “É diferente”, rebate. “Eles não tinham história de militância”.

Evangélica

A posição de Damares indicava ter se reduzido a pressão que era feita por alguns segmentos evangélicos para que Messias fosse aprovado. Pressão que foi feita inclusive por André Mendonça. “O fato de ser cristão não altera a situação de Messias”, diz Damares. “Não altera o fato de que ele atua politicamente por um lado que não é o meu”.

Pecado

Voltando a Jorge Messias, no seu papel de barbeiro humilde na versão política do filme de Chaplin, talvez não tenha sido ele o pecado original de Lula. Antes, Lula resolvera indicar para o Supremo Tribunal seu próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin. Ali teria sido o ápice do personalismo da escolha.

Entornou

Antes de deixar a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, a deputada Gleisi Hoffmann (PT-PR) já fazia uma defesa forte da necessidade de reforma do Judiciário. Para ela, esse tema deverá ser um dos principais debates do país após as eleições deste ano. O caldo entornou. A reforma do Judiciário começou.


Publicado originalmente no Correio da Manhã.

Foto de capa: Lula e Alcolumbre… Perdão! Hynkel e Napaloni | Reprodução

Sobre o autor

rudolfo_lago_300px-172138
Rudolfo Lago
Ex-diretor do Congresso em Foco Análise, é chefe da sucursal do Correio da Manhã em Brasília. Formado pela UnB, passou pelas principais redações do país. Responsável por furos como o dos anões do orçamento e o que levou à cassação de Luiz Estevão. Ganhador do Prêmio Esso.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático