Bixa Preta & Amefricana

De ADELI SELL*

Lançado em 2022 pela Appris Editora, este lido é anotado como “Ciências Sociais”, o que é inegável, mas tem largos elementos de psicologia humana e social, bem como um livro (quase) depoimento. Zeca Amaral, seu autor, é estreante. Mestre em Psicologia Social e Institucional na UFRGS, além de outros cursos, e é também ilustrador.

Zeca coloca como subtítulo Contação de Histórias dos Becus à Ancestralidades. Heloísa Araújo, na orelha da contracapa, fala da escrita do autor. Nos agradecimentos já se tem um norte sobre o que vai ser encontrado, pois pessoas que tem contribuído para a obra são lembradas. No Prefácio de Dóris Soares, ela assina que é mulher preta, mãe, psicóloga, Atinuké, escritora. Na Apresentação, já se trata da chamada “colonialidade”, um termo ainda pouco usual, mas que na forma e conteúdo é o que ainda vivemos e que Zeca quer desconstituir com um Outro Mundo Possível.

É interessante a questão da linguagem, já aqui ao falar da “escrevivência” de Conceição Araújo, termo este que vai utilizar muito… Nada é por acaso ou gratuito ou para agradar. E é claro quanto ao seu desejo. Desiderato seu é levantar reflexões, diálogos e questionamentos; assim como pistas a “hackear” heranças do colonialismo e suas tecnologias, os mitos que nos contaram da escravização e do Brasil.

É honesto quando se pergunta: quando lágrimas e gritos de gente preta surgem, quem nos escuta? Quem se sensibiliza?

“Gente preta”, porque ele trata da sua negritude, dos pretos do Brasil, em especial. Mas, neste momento, poderia ser o Said na Europa, ou não. Ou o caso da Escravidão Contemporânea na Serra Gaúcha, quando mesmo sindicatos e setores da esquerda se calaram?

Quando cita Lende Onawale –

“Não importa o tempo de afiar a lâmina
O que conta
É que ela cumpra o seu papel”

E a sua escrita é esta escrevivência, é o uso desta lâmina, para saber o que é o convívio e pertencimento para o corpo negro? É importante que este livro cumpra o seu papel. E está cumprindo.

Agradeço a Taiasmin Ohnmacht pelo contato com o Zeca. Assim pude conhecer um novo e ousado escritor negro, assumindo sua ancestralidade de povo negro, de sua condição sexual, seus desejos e seus objetivos.

É lendo as 150 páginas do livro, anotando novos conceitos, questões importunadoras que vamos conhecer não só o autor, mas o contexto do racismo estrutural, dos preconceitos, dos dogmas de nossa sociedade. Façam vossa leitura e me contem depois.

Esperando mais coisas do simpático autor Zeca Amaral!


*Escritor, professor e bacharel em Direito.

Imagem: reprodução da capa do livro.

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