Banheiro ou terra? O que a Bolívia ensina sobre o suicídio da esquerda brasileira | Por Mara Telles

Enquanto o debate político brasileiro se dispersa em guerras culturais, a Bolívia mergulha numa crise explosiva em torno de combustível, terra e sobrevivência social.
Última edição em maio 21, 2026, 12:01

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Texto do seu parágrafo (1)

No Brasil, a guerra é por banheiro unissex. Na Bolívia, é por terra, diesel e comida — e está sendo travada com dinamite.

Essa frase resume a tragédia política do nosso tempo. Enquanto a esquerda brasileira se especializou em disputas simbólicas e identitárias, a direita boliviana de Rodrigo Paz aplicou em seis meses um choque neoliberal que fez o país explodir. A comparação não é retórica. É um alerta.

Paz assumiu em 8 de novembro de 2025, prometendo enterrar quase 20 anos de governos de esquerda. Cumpriu. Em meio à pior crise em 40 anos, com inflação de 14% e sem dólares no mercado, seu governo impôs três medidas de guerra:

☑️Cortou o subsídio dos combustíveis. O diesel e a gasolina dispararam da noite pro dia.

☑️Aprovou a Lei de Terras 1720. Uma bomba-relógio: permite que bancos tomem terras comunais e pequenas propriedades como garantia de dívida.

É a financeirização da enxada. Se o camponês não paga, perde a terra pro latifúndio e pro sistema financeiro.

☑️Abriu o país para privatizações, sob o velho argumento do “Estado falido”.

O que aconteceu depois era previsível. O povo foi pra rua não pra defender pronome, mas pra defender o prato de comida. Centrais sindicais falam em 6 milhões de mobilizados. La Paz está cercada por bloqueios há duas semanas. Mineiros marcharam 600 km até a capital.

No dia 18 de maio, o Brasil simbólico encontrou a Bolívia material. Enquanto discutíamos linguagem neutra no Twitter, a tropa de choque boliviana jogava gás lacrimogêneo em mineiros na Praça de Armas. A resposta veio com pedra e explosivo. A fumaça cobriu o Palácio de Governo.

E aqui está o ponto: a esquerda brasileira não teria como responder a um Rodrigo Paz. Por quê? Porque ela desistiu da pauta material. Abandonou a briga por salário, por custo de vida, por subsídio, por terra. Terceirizou a questão econômica e se refugiou no identitarismo. Virou uma esquerda de campus, não de fábrica. De símbolo, não de estômago.

O resultado é um vácuo de representação.

Quando a crise bate — e ela vai bater — quem vai barrar a nossa Lei 1720? Quem vai organizar a greve geral contra o fim do subsídio ao diesel? A esquerda que hoje mobiliza ato por causa de banheiro?

A Bolívia é nosso espelho invertido. Mostra o que acontece quando a direita aplica neoliberalismo raiz sem uma esquerda que fale de pão e terra. Mostra também o preço do nosso desvio: sem pauta material, sobra só a ação direta desesperada. Ou pior, sobra o silêncio.

A escalada já tem contornos de guerra civil. Há denúncias de que Milei cedeu material bélico e de que EUA e Israel negociam nos bastidores com Paz. Seis meses de governo e o país está em chamas.

Minha tese é simples: a Lei 1720 é o futuro que nos espera. E a esquerda brasileira, do jeito que está, vai assistir a ele pela TV, postando nota de repúdio enquanto o campo é confiscado.

Ou a gente volta a falar de terra, crédito e preço do arroz, ou seremos irrelevantes na próxima crise.

A Bolívia já escolheu seu lado da história. E nós?


Foto de capa: Reproduçção

Sobre o autor

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Mara Telles
Mara Telles é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFMG e presidente da ABRAPEL - Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais

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