De BENEDITO TADEU CÉSAR*
Atingido pelos disparos de fuzil e pelos estilhaços das granadas de seu aliado Bob Jeff e
abalado pelas caneladas desferidas nos trabalhadores de salário-mínimo e nos aposentados pelo seu antigo “Posto Ipiranga” (agora vítima de ataques oriundos das próprias hostes bolsonaristas), o “mito” lança mão das suas táticas favoritas: as cortinas de fumaça, a pose de vítima e o chamamento para o golpe.
Táticas que se sucederam durante todo o período governamental e que se intensificaram nas últimas semanas.
Depois do “pintou um clima” entre o presidente e meninas, que ele classificou como possíveis prostitutas, e do vazamento da intenção de desvincular os reajustes do salário-mínimo e das aposentadorias da taxa de inflação, ocorreu uma reversão da tendência que se esboçava anteriormente de diminuição da vantagem de votos em Lula frente a Bolsonaro.
Preocupados com a iminência da derrota, os estrategistas da campanha presidencial do “mito” começaram a tirar do paiol o armamento e a munição que acreditaram conter as “balas de prata” capazes de reverter o desgaste e de lhes garantir a vitória. Engatilhadas as armas, retomaram os disparos contra a democracia e o processo eleitoral. O tiroteio será mantido e intensificado até o dia das eleições e, se necessário, durante e até depois de encerrada a apuração dos votos.
Até aqui, as evidências são de que as balas têm falhado, mas as senhas para o golpe continuam a ser proferidas.
A primeira bala, e que foi também uma senha golpista, foi disparada por Bob Jeff, o ex-deputado e ex-candidato à Presidência da República que se encontrava em prisão domiciliar e se recusava a usar a tornozeleira que lhe fora imposta. O eterno aliado de Bolsonaro excedeu a dose já que, além da pretensa “bala de prata”, disparou mais de 50 tiros de fuzil e explodiu três granadas contra os policiais que foram cumprir um mandado de prisão emanado pelo STF.
Deu errado. O plano de transformar um transgressor em “herói da liberdade e da resistência à ditadura da toga” tornou-se um fiasco e um ato que o próprio “mito” se viu obrigado a definir como “criminoso”.
A segunda bala, que é nova senha para o golpe, foi disparada inicialmente pelo ministro das comunicações do “mito”, em clara utilização ilegal do seu cargo de governo e de recursos do Estado, para denunciar, numa ação nitidamente de campanha, a veiculação desigual de inserções da propaganda eleitoral gratuita em rádios no Nordeste, nas quais teriam ocorrido enorme vantagem para a campanha de Lula da Silva.
O disparo e a senha foram retomados, em tom mais forte, na noite de 26 de outubro, a apenas quatro dias do pleito. O próprio presidente da República, depois de se reunir com os ministros das três armas, cercado por outros ministros de Estado – encontro que configurou nova utilização ilegal de cargos de governo e de bens do Estado – anunciou sua condição de “vítima” de uma armação que teria sido deflagrada pela campanha adversária e coonestada pelo TSE.
A tentativa é nitidamente intimidatória e serve como um chamamento às milícias bolsonaristas, para que tumultuem o pleito e deflagrem a baderna que justificaria a anulação dos resultados e a manutenção do “mito” na Presidência da República.
Tal como as tentativas anteriores, precedidas de senhas e chamamentos e que terminaram em vexames nas comemorações dos dois últimos 7 de Setembro, a atual ameaça de golpe tem tudo para dar errado. As Forças Armadas, amplos setores do empresariado, políticos de diferentes correntes e as maiores redes de comunicação social, elementos imprescindíveis para a deflagração e a manutenção de qualquer golpe de Estado, até agora dão sinais de que não respaldarão os atos desvairados do “messias”.
Nestas condições, ainda que o “mito” acredite que continua a intimidar, seus atos não passam de chororô de derrotado.
*Cientista político, professor aposentado da UFRGS e integrante da coordenação da RED.
Imagem em Jornal Estado de Minas – Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press.
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