A Copa da Vergonha | Por Benedito Tadeu César

Restrições impostas à seleção iraniana, silêncio da FIFA e ausência de reação dos governos democráticos expõem a seletividade política que marca a Copa do Mundo de 2026.
Última edição em junho 8, 2026, 12:11

translate

Copa do Mundo de 2026 disputada nos EUA, Canadá e México - Divulgação / Fifa

Acompanho o futebol há toda a minha vida. Não apenas como torcedor, mas também como pesquisador. Em 1981, defendi no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UNICAMP a dissertação “Os Gaviões da Fiel e a Águia do Capitalismo ou O Duelo”, considerada o primeiro mestrado acadêmico realizado no Brasil sobre uma torcida organizada. Naquele trabalho, procurei compreender o futebol como fenômeno social, cultural e político, muito além das quatro linhas do campo.

Naquela época, o futebol e o esporte em geral ainda não eram considerados temas “sérios” por boa parte da academia brasileira. Muitos viam essas manifestações como assuntos menores, indignos da atenção das ciências sociais. A consolidação da sociologia e da antropologia do esporte no Brasil só ocorreria anos mais tarde, graças ao trabalho de diversos pesquisadores que demonstraram como o futebol expressa conflitos sociais, identidades coletivas, disputas políticas, interesses econômicos e visões de mundo. Hoje isso parece evidente. Há quarenta e cinco anos, não era.

Talvez por isso seja impossível assistir aos acontecimentos que cercam a Copa do Mundo de 2026 sem uma profunda sensação de desconforto. Ao longo de décadas estudando política e sociedade, aprendi que o futebol nunca esteve isolado das disputas de poder. Governos, interesses econômicos, conflitos internacionais e projetos ideológicos sempre encontraram no esporte um espaço privilegiado de projeção e influência. O que muda são as circunstâncias históricas e o grau de visibilidade dessas interferências.

Futebol, poder e política

A história do esporte internacional oferece inúmeros exemplos dessa relação entre competição esportiva e poder político. As grandes competições foram frequentemente utilizadas como instrumentos de projeção de prestígio nacional, afirmação ideológica e disputa simbólica entre Estados. As Olimpíadas de Berlim, em 1936, realizadas sob o regime nazista, permanecem como um dos exemplos mais conhecidos dessa instrumentalização política do esporte. Décadas depois, os Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, ofereceriam outro exemplo dramático e doloroso da profunda imbricação entre esporte e política. O sequestro e assassinato de onze atletas israelenses por integrantes da organização palestina Setembro Negro chocou o mundo e transformou uma celebração esportiva em palco de uma tragédia geopolítica de repercussão global. O episódio demonstrou de forma brutal que os conflitos internacionais não ficam necessariamente do lado de fora dos estádios e das vilas olímpicas. Eles podem atravessar seus portões e ocupar o centro da cena mundial.

Essa relação é ainda mais intensa no futebol. Nenhuma outra modalidade mobiliza simultaneamente tantos sentimentos, tantas identidades coletivas, tantos recursos econômicos e tantos interesses políticos. O futebol movimenta bilhões de espectadores e bilhões de dólares em todos os continentes. Chefes de Estado, governos, corporações globais, organismos internacionais e grupos econômicos disputam permanentemente sua influência sobre esse gigantesco espetáculo planetário. Justamente por isso, exige das entidades esportivas, dos governos e das organizações internacionais um compromisso ainda maior com critérios transparentes, universais e coerentes. O peso político do futebol pode explicar muitas decisões. Não pode justificá-las quando são marcadas pela discricionariedade. Tampouco pode servir de desculpa para a omissão de governos democráticos e de federações nacionais que, diante de situações semelhantes, adotam posições radicalmente diferentes conforme os interesses estratégicos dos atores envolvidos.

Por essa razão, a Copa de 2026 corre o risco de entrar para a história como a Copa da Vergonha.

O Irã diante das portas fechadas

Realizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, a competição acontece sob a sombra da escalada militar no Oriente Médio. Os Estados Unidos participaram de ações militares contra o Irã e continuam oferecendo apoio político, diplomático e militar às operações de Israel em Gaza e no Líbano. Nesse contexto, uma das seleções classificadas para o Mundial passou a enfrentar obstáculos impostos justamente por um dos países-sede da competição.

Os fatos são conhecidos. Integrantes da delegação iraniana tiveram dificuldades para obter autorização de entrada nos Estados Unidos. Dirigentes da Federação Iraniana de Futebol foram impedidos de ingressar no país e precisaram retornar ao Irã, desfalcando a estrutura administrativa e técnica da seleção. As autoridades norte-americanas também impuseram restrições especiais à permanência da delegação iraniana em território estadunidense.

Não se trata de uma questão burocrática qualquer. Trata-se de uma situação que compromete o princípio da igualdade de condições entre os participantes de uma competição internacional.

Outras delegações também foram atingidas por procedimentos incomuns. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi submetido a cerca de sete horas de interrogatório ao desembarcar nos Estados Unidos para participar do torneio. Um fotógrafo da delegação iraquiana teve sua entrada negada após longo período de questionamentos. Episódios como esses demonstram que a política externa e as tensões geopolíticas estão interferindo diretamente no ambiente esportivo da competição.

O silêncio da FIFA

Até agora, a FIFA não apresentou uma resposta pública compatível com a gravidade desses acontecimentos. A entidade que frequentemente se apresenta como guardiã da universalidade do futebol parece aceitar passivamente situações que afetam o tratamento isonômico das seleções participantes.

O silêncio da FIFA torna inevitável uma comparação com o tratamento dispensado à Rússia após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Naquele momento, FIFA e UEFA suspenderam rapidamente as seleções e os clubes russos de suas competições. A Rússia foi excluída da Copa do Mundo do Catar e de diversos torneios internacionais. O Comitê Olímpico Internacional recomendou o afastamento de atletas e dirigentes russos das competições esportivas internacionais, desencadeando uma ampla rede de sanções esportivas.

As justificativas eram conhecidas: a defesa dos valores do esporte, da paz internacional e dos direitos humanos.

Dois pesos e duas medidas

A questão que se coloca hoje não é a defesa da Rússia nem a reivindicação de novas punições. A questão é a coerência.

Se a comunidade esportiva internacional considera legítimo adotar sanções em determinados conflitos, por que critérios semelhantes não são sequer discutidos quando os Estados Unidos e Israel estão envolvidos em ações militares que provocam milhares de mortes, destruição de cidades inteiras e forte condenação por parte de organismos internacionais e de amplos setores da opinião pública mundial?

A resposta parece desconfortável. Há agressões que despertam imediata indignação internacional. E há massacres — alguns deles denunciados por amplos setores da comunidade internacional como práticas genocidas — que continuam sendo tratados com complacência, silêncio ou justificativas diplomáticas.

A omissão das democracias

O problema não está apenas nas decisões das entidades esportivas. Está também no silêncio dos governos e das federações nacionais. Até o momento, nenhum movimento relevante de boicote foi organizado. Nenhuma pressão significativa foi exercida sobre a FIFA. Nenhuma mobilização coletiva surgiu para questionar as restrições impostas à seleção iraniana.

A história do esporte oferece exemplos distintos. Durante décadas, o regime do apartheid na África do Sul foi alvo de isolamento esportivo internacional. Naquele caso, compreendeu-se que a neutralidade era impossível diante de uma injustiça tão evidente.

Hoje, porém, a neutralidade parece ter sido substituída pela seletividade.

Uma questão moral

A Copa segue seu curso. Os patrocinadores continuam seus negócios. As transmissões alcançam bilhões de espectadores. Os dirigentes fazem discursos sobre integração entre os povos. Mas a realidade insiste em invadir os gramados.

Por isso, esta pode ser chamada de Copa da Vergonha.

Vergonha pela normalização da guerra.

Vergonha pelo silêncio das instituições esportivas.

Vergonha pela aplicação desigual dos critérios políticos.

Vergonha pela omissão dos governos democráticos diante de situações que, em outros contextos, seriam objeto de indignação e sanções.

Vergonha pela ausência de solidariedade internacional.

Vergonha porque uma seleção participante enfrenta restrições impostas por um país-sede sem que isso provoque uma reação à altura por parte das autoridades do futebol mundial.

O futebol continua sendo uma das mais importantes expressões culturais do planeta. Justamente por isso, não pode servir de cortina para ocultar injustiças nem para naturalizar práticas que seriam condenadas em outras circunstâncias. Quando a política invade os gramados para restringir direitos de alguns e preservar privilégios de outros, a questão deixa de ser apenas esportiva.

Passa a ser moral.


Ilustração da capa: Copa do Mundo de 2026 será disputada nos EUA, Canadá e México – Divulgação / Fifa

Sobre o autor

Benedito Tadeu César - ChatGPT Image 14_02_2026, 18_08_34
Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático