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Opinião

Líquido e certo

Líquido e certo

Artigo por RED
23/01/2023 22:09 • Atualizado em 25/01/2023 10:16
Líquido e certo

De RICARDO KADÃO CHAVES*

Sou muito grato à fotografia. Como repórter fotográfico e editor de fotografia, por mais de meio século, ela me proporcionou muito. Experiências vividas e sustento. Talvez por isso, tenho sido provocado por alguns amigos a dar a minha opinião sobre a foto e sobre a primeira página da Folha de São Paulo, do dia 19 de janeiro, que estampou a foto, de autoria de Gabriela Biló, onde Lula aparece sorrindo, de cabeça baixa, atrás de uma vidraça estilhaçada, cujas linhas convergentes se encontram na altura do coração do presidente.

Diante de tantas manifestações lacradoras, algumas totalmente descabidas, que promovem o ‘linchamento’ da colega sobre a qual pouco sei, mas, que, pelo que li, é reconhecida também como um jovem e promissor talento, confesso que vacilo em opinar e ser mal interpretado. Aliás, interpretação talvez seja a palavra chave, pois significa ‘determinar o significado preciso’ de um texto, uma lei, uma foto…

É aí que as coisas se complicam. Não é possível questionar apenas a imagem (que deve e pode ser questionada) sem levar em conta a intenção ou a responsabilidade de quem decidiu aproveitá-la na capa do jornal na edição daquele dia e momento histórico.

Ao identificar na legenda como ‘múltipla exposição’, o diário assume que sabe se tratar de uma montagem. No jargão profissional, um sanduíche, duas imagens colhidas em momentos distintos sobre um mesmo suporte, frame ou fotograma. Nada novo; é usado como recurso há muito tempo. Mesmo no fotojornalismo, que pressupõe um vínculo, mais que desejável, essencial, à realidade fática, é eventualmente utilizado para mostrar a evolução de um acontecimento astronômico (como um eclipse) ou esportivo, como o movimento de um ginasta, por exemplo.

Nesses novos tempos de ‘modernidade líquida’, conceito do filósofo Zygmunt Bauman, tudo parece ser mais relativo do que nunca e a tal ‘realidade’ pode assumir a visão pessoal de cada indivíduo sobre os fatos. Isso não quer dizer que o relógio tenha sido abolido e que não exista mais uma cronologia precisa ou geográfica do que ocorre, ou seja, o do que é fato! Os líquidos, como sabemos, se adaptam aos vasilhames que os contêm e se não levarmos isso em conta é provável que escorram pelo meio dos dedos. Uma notícia publicada aqui e não ali, já traz, pelo menos, alguns indícios. Um post, um texto, uma foto, um jornal é sempre a interpretação (baseada em fatos ou não) de um ou alguns autores.

Certamente, diante de tanta informação, visual ou não, está mais difícil identificar o “real”, já que, agora, todos parecem saber o que está ocorrendo e não se tem mais, ao que tudo indica, o menor pudor em externar a própria ‘opinião, por mais idiota e desqualificada que seja, como se a realidade fosse uma questão exclusiva de interpretação pessoal.

Li que certa feita Woddy Allen disse: “a realidade continua sendo o melhor lugar para se comer um bom bife…” Embora eu ache que ele tem razão, como tudo é relativo, um horrorizado vegano poderia contestá-lo e, no mínimo, o acusaria de insensível.

Não é só a fotografia (sempre tão comprometida com a realidade) que vive uma crise de credibilidade. A imprensa como um todo está sob suspeita. Um pouco porque merece, mas, mais que tudo, porque, se feita com liberdade, de forma correta e tecnicamente imparcial, é uma das armas mais poderosas para que o cidadão possa formar uma opinião independente e consciente.

Até a invenção da fotografia, não havia uma maneira de retratar, com fidelidade única, as pessoas, as coisas, as paisagens. Isso atirou no colo da fotografia uma grande responsabilidade e, durante muito tempo, levou quase todos a uma conclusão equivocada. Aquela de que “se é uma foto, é uma verdade”. Depois, pensando melhor, passamos a levar em conta que uma fotografia é, também, a interpretação da realidade feita por alguém, o autor da imagem. Portanto, uma visão seletiva da vida. Passamos a prestar mais atenção em como ela estava sendo usada, por quem e com que intenção.

Assim que os artistas se apropriaram da fotografia como meio de expressão, as coisas ficaram ainda mais complexas. Montagens, colagens, interferências, manipulações diversas subverteram a confiança irrestrita na fotografia.

Ainda bem. Isso expandiu o meio e nos trouxe novas experiências visuais. Os fotógrafos não eram mais necessariamente apenas técnicos competentes, mas criativos artistas. O aproveitamento da fotografia na imprensa também foi se sofisticando, assim como o perfil e o comportamento dos fotojornalistas. O talento individual passou a ser cada vez mais reconhecido. Fiéis ao real, mas compondo, associando ideias, propondo novos pontos de vista, levando informação visual de qualidade, conquistaram espaço nas páginas de jornais e revistas, especialmente, na era pré-televisão.

Além do fotojornalismo clássico, outro tipo de fotografia passou a fazer parte do conteúdo das publicações. Fotos construídas, como as de moda, ou fotos ilustrativas, oníricas (sem preocupação com a realidade) contribuíam para projetos gráficos melhores.

Então, passou a ser necessário um balizamento que definisse melhor nossa atividade e desse confiança ao leitor.

A Folha de S. Paulo, por exemplo, em seu Manual de Redação (pág. 106) afirma: “são proibidas adulterações da realidade retratada, tais como apagar pessoas, ou alterar as suas características físicas, eliminar ou inserir objetos e mudar cenários”. Montagens só são permitidas em “imagens de cunho essencialmente ilustrativo”

A publicação, pela Folha, da foto do Lula com a vidraça quebrada teve grande repercussão, com notas de repúdio e até manifestações oficiais. Houve quem interpretasse como incitação à violência ou atentado, Lula mortalmente atingido. Os mais tolerantes viram a imagem como resistência. A autora, Gabriela Biló, em sua defesa, disse que “fotojornalismo é arte”. É, pode ser. Mas nem sempre arte é fotojornalismo. Segundo o ombudsman da Folha, a Secretaria de Redação disse que o jornal está “modernizando o registro imagético tradicional do poder em Brasília” e que “preferimos correr os riscos da renovação a reforçar a pasmaceira”. Um qualificado crítico, fotógrafo e editor Edu Simões, afirma: “O uso da fotografia mudou, ao ponto de um jornal colocar uma montagem como essa na capa. Mas as imagens (dentro do contexto em que são publicadas) significam o que significam. A mim me parece mais um desejo… Freud explica”.

Lennon e Lula: a volta ao passado.

O professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) Rubens Fernandes Junior, nome inescapável quando se fala de fotografia no Brasil, resgatou em seus implacáveis arquivos a capa de uma publicação da década de 1980, em que John Lennon aparece exatamente como Lula na capa da Folha de S. Paulo, o que me parece contribuir definitivamente para sepultar a polêmica. Se estamos falando de fotografia como arte, nesse exato momento, e da capa de um dos principais jornais brasileiros, acho que, mais do que revolucionando, estamos voltando ao passado. Arte significa também originalidade.

Se o vínculo da fotografia com o real é o maior patrimônio dessa forma de expressão, especialmente no que se refere (e interessa) ao fotojornalismo, é uma pena desperdiçar de forma infantil essa excepcional virtude. E, já que falamos em líquido, cabe o ditado: “Pretensão e água benta, o pessoal pode se servir à vontade…”


*Fotojornalista e editor de fotos há mais de cinco décadas em diversas publicações.

Imagem com capas de publicações curadas pelo autor.

As opiniões emitidas nos artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da Rede Estação Democracia.

 

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