Aqueles dias em Havana. Ainda Milton Santos (1926-2001) | Por Daniel Afonso da Silva

Preso sem acusação formal nos primeiros meses da ditadura, Milton Santos transformou a perseguição política em uma obra intelectual que projetou o pensamento brasileiro para o mundo.
Última edição em junho 13, 2026, 11:37

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O geógrafo Milton Santos em 1994, em frente aos Departamentos de Geografia e de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Caiu numa sexta-feira aquele 8 de maio de 1964. Heinrich Luebke, presidente da Alemanha Federal, estava no Brasil, em visita de estado, desde a véspera. O cerimonial do Itamaraty preparara todas as honras devidas. O diplomata João Gracie Lampreia e o ministro Milton Campos coordenaram os preparativos e orientaram os protocolos. O marechal Humberto Castelo Branco havia um mês de plenos poderes. João Goulart e Lionel Brizola singravam por Montevidéu, e especulava-se que trocariam o Uruguai pela Espanha a qualquer momento. Celso Furtado – malgrado o mal-estar e a ausência de direitos políticos – seguia representante do Brasil, do Equador e do Haiti no Comitê Interamericano para o Progresso. Clay Hardmann de Araújo e Floriano Maia D’Ávila, deputados federais pelo PTB do Rio Grande do Sul, acabavam de ser cassados. José Laniaison Porto, João Caruso Scuder, Wilson Vargas da Silveira, Justino Costa Quintana, Antônio Simão Visintainer, Breno Orlando Burman e Ruben Dário Porciúncula, deputados estaduais petebistas, também. Prefeitos e vereadores simpáticos a regimes anteriores figuravam em listas municipais, estaduais e nacionais de cassação. Funcionários de todas as repartições e estaturas continuavam sendo exonerados e suprimidos em seus direitos políticos. Mauro Borges, governador de Goiás, tinha seu futuro incerto. Cleyde Yáconis – atriz de renome e irmã de Cacilda Becker – acabara de ser presa em São Paulo no dia anterior. Celso Ibsen de Sylos, pároco do bairro operário de Villa Seixas em Ribeirão Preto, com histórico de agitador popular e líder de mais de quinze mil colonos em torno de oito sindicatos para exigir direitos de fazendeiros locais, também havia sido detido. O jornalista Leite Paiva fora preso e solto “para averiguações” em Brasília e seguia indignado com a situação.

O general Costa e Silva conduzia e acompanhava tudo com olhos atentos e amplo campo de visão. Mais que o próprio presidente. Mais que os ministros, militares ou civis. Considerava-se o guardião genuíno do movimento de 31 de março. Via-se como sua reserva moral. Queria ser a consciência, a alma e o coração do processo. Que, agora, acumulava longa e longuíssima duração. Que remetia à Guerra do Paraguai. Ao sucessivo e tortuoso empilhamento de crises e conspirações desde então. Às recorrentes deformações sociais, culturais, econômicas e políticas subjacentes. Aos golpes velados e declarados de 1889, 1922, 1924, 1930, 1945 e 1954. À aberta, franca e contumaz conspiração militar e civil contra a presidência de João Goulart desde o fim do parlamentarismo. Ao, enfim, golpe do 31 de março.

Quem lia a imprensa daqueles dias e anos atinha essa sensação como verdade histórica. As notícias todas eram fartas dessa convicção. Que forjava o espírito do tempo e justificava aquele estado de coisas. Com eventos robustos e dramáticos. De variada demanda e perigosa travessia. Dispersa em muitas escalas e níveis. De estruturas, circunstâncias e dramas pessoais. Como aquele que acometia de Milton de Almeida Santos (1926-2001), vindo a público naquele 8 de maio de 1964.

Deu no Correio da Manhã, depois da portada, em espaço nobre e com destaque, que o professor universitário, presidente da Comissão de Planejamento do Estado da Bahia, diretor do Gabinete de Geomorfologia da Universidade da Bahia, catedrático na mesma instituição e jornalista no vespertino A Tarde encontrava-se preso havia 28 dias em Salvador. “Detenção suscita surpresa na Bahia”, indicava o headline que avançava para a matéria que dizia que

O professor baiano apresentou-se ao comandante da 6ª Região Militar, General Mendes Pereira, logo que tomou conhecimento de que seu nome constava de uma das listas de detenção. Desde aquele dia, 4 do mês passado, está recolhido no Quartel do Cascão, sede do 19º Batalhão de Caçadores, onde sua incomunicabilidade só cessou quando, há pouco, lhe foi permitido receber uma visita por semana.

Os meios culturais da Bahia foram surpreendidos com a prisão do prof. Milton Santos. Alguns atribuem-na ao fato de ter sido jornalista presidente, na Bahia, da Associação Brasileira de Escritos e de viajar constantemente para o exterior, nunca para a Cortina de Ferro – mas para a França, onde se doutorou em Letras pela Universidade de Estrasburgo, e para a África, em cuja Universidade de Ibadá, pronunciou conferências, depois reunidas no livro “Marlanne em preto e branco”.

Apolítico, jamais foi candidato a qualquer cargo eletivo, a não ser no período universitário, quando, segundo depoimento aos seus contemporâneos de estudo, foi líder estudantil nacional contra a infiltração comunista na UNE, chefiando a campanha do então universitário José Bonifácio Coutinho Nogueira para a presidência daquela entidade. No governo do sr. Jânio Quadros, o prof. Milton Santos foi chefe do Sub Gabinete Civil da Presidência, na Bahia, o que alguns alegam ter sido o motivo da sua prisão, não obstante ter sido seu colega, nessa função, no Sub Gabinete Militar, o próprio atual chefe de Polícia da Bahia, coronel Francisco Cabral.

Escritores, jornalistas e universitários baianos têm se movimentado no sentido de esclarecer os motivos da prisão do sr. Milton Santos. Nesse sentido, parlamentares do estado vão procurar, amanhã, o ministro Milton Campos.

Drama pessoal, constrangimento nacional, comoção geral.

Nascido a 3 de maio de 1926, no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, na cidade de Brotas de Macaúbas, Milton Santos cresceu Itapira, alfabetizou-se em Alcobaça, mudou-se para Salvador aos 10 anos, cursou o Instituto Baiano de Ensino, passou pelo Curso Complementar e foi admitido na Faculdade de Direito da Bahia em 1944.

Seu pendor de início era pela Engenharia. Desde menino a sua imaginação frequentava a Matemática. Onde fez-se forte e capaz. A sua vocação, assim, movia-o para a Escola Politécnica. Aquela das mais tradicionais da Bahia e do Brasil. Mas naqueles e de outros tempos aquela nobre escola tinha conhecida reputação de não admitir negros.

Ciente do empecilho, aos quinze anos, Milton Santos passou, então, da Matemática à Geografia. Primeiro por pragmatismo. Depois pelo movimento. Por fim, virou paixão.

Uma paixão realizável na Faculdade de Direito. Um lugar, à época, de verdadeira formação abrangente e humanística. Lugar de cultura. Templo de saber. Espaço de valor. Técnica e tempo. Razão e emoção.

Formado em 1948, ele recusou a vida de bacharel, burocrata, funcionário público ou operador do Direito. Preferiu ser professor e jornalista. Profissões liberais. Funções de liberdade. Motor de seu condicionamento e argamassa de seu espírito.

Foi, então, pra Ilhéus. Tornou-se professor de colégio e editor do jornal A Tarde. Vivia-se o ano de 1949. Quando essas funções tinham muito prestígio. E mais. Davam acesso à sociedade, às pessoas e ao poder. Um poder nada brando e nada usual. Um poder opulento. Visível e muito concreto. Forjado em séculos naquela Bahia congelado num passado quase colonial soterrada mental e moralmente entre o Setecentos e o Oitocentos. Tempos de fartíssima nobreza. Forte aristocrática. Mas, agora, anacrônica e resistindo a dissipar-se.

Milton Santos transitava e transpirava esses tempos. Era jovem, promissor e agregava o melhor que aquela e qualquer sociedade poderia ofertar: prestígio, acesso e poder.

De volta a Salvador em 1952-1953, a sua autoridade só fez aumentar. Tornando-se professor na Universidade Católica em 1954, doutor pela Universidade de Estrasburgo em 1958, fundador do Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais da Universidade Federal da Bahia em 1959 e diretor da Imprensa Oficial do Estado.

Tudo ia bem. Ele deixara de ser promessa e potencial. Era realização e verdade. Homem de ação. Um dos intelectuais mais ativos e influentes de sua geração. Augúrio em Salvador e na Bahia.

Depois no Brasil todo e mundo afora.

Entre os geógrafos, professores de Geografia e burocratas do Conselho Nacional de Geografia, da Associação dos Geógrafos Brasileiros e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ele, desde o início, guardava destaque. Manuel Correia de Andrade, José Ribeiro de Araújo Filho e Brás Berlanga Martines, seus contemporâneos, amigos da vida, grandes humanistas e locatários em comum daquela suíte do Hotel Itajubá, à rua Álvaro Alvin, quando de passagem em estudos pelo Rio de Janeiro, viam nele um expoente. Arquétipo de sucesso. Resiliente e devotado. Gênio em construção.

Primeiro na presença. Depois na frequência. Por fim, no portar. Era um polímata. Espécime peculiar. Grande sedutor.

Diferente de muitos baianos, não era fleumático. Bem ao contrário. Era antes de tudo um sorriso. Depois uma capacidade muar de trabalho conjugada a uma curiosidade que tendia ao infinito.

Tudo isso reforçado pela sua convicção de homem público, homem lento, intelectual multidimensional e artífice da história de seu tempo. Qualidades que levaram o deputado federal Jânio Quadros – anteriormente amanuense no Mato Grosso, professor do Dante Alighieri em São Paulo, vereador em São Paulo em 1947, deputado estadual em 1950, prefeito da capital paulista em 1953, governador do estado em 1954 e deputado federal pelo Paraná em 1958 – a inseri-lo em sua comitiva de personalidades brasileiras que visitariam Cuba em 1960.

A revolução cubana não completara um ano naquele momento. Os irmãos Castro e Ernesto Che Guevara eram monumentos planetários da resistência ao Mundo Livre nas Américas. Jânio Quadros vinha de ser indicado pelo PTN à sucessão do presidente Juscelino Kubitschek. A UDN dava-lhe chancela. Carlos Lacerda também.

A sua campanha estava a plenos pulmões. Visitar Havana era um gesto forte e ousado. Político e simbólico. Carregado em significação. Que ganharia destaque com a presença de Milton Santos.

Milton Santos era a quintessência daquela intelligentsia que passou a guiar os rumos da política brasileira, na Bahia e no Brasil, a partir dos anos de 1950. A sua presença junto a Jânio Quadros simulava a referência de Aliomar Baleeiro, Aloisio de Carvalho Filho, Orlando Gomes, Luiz Viana Filho e Simões Filho. Baianos de valor e poder na capital federal e no país. Milton Santos representava-os em prudência e estilo. Jânio Quadros sabia bem disso. E, justo por isso, convidou-o. Juntamente com gente da qualidade e influência de jornalistas como Carlos Castello Branco, Márcio Moreira Alves, Hélio Fernandes, Rubem Braga, Fernando Sabino e Murilo Mendes Filho e assim como de tribunos do porte de Afonso Arinos de Melo Franco.

Não foram nada triviais aqueles dias em Havana. Foram, antes, muito marcantes e penetrantes. Capazes de marcar fundo – e, talvez, fundo demais – a feição, a retina, o cotidiano e o destino de Milton Santos.

No regresso de Cuba, a comitiva passou pela Venezuela. Na chegada ao Brasil, o candidato Jânio Quadros retomou o corpo a corpo da campanha eleitoral. No correr dos meses, correu para a vitória. Angariou apoios, ampliou a presença e acelerou os seus passos rumo ao galardão.

Como presidente eleito, na composição da transição, sondou Milton Santos para ser embaixador brasileiro na África, na Europa ou na Ásia. Após assumir, no 31 de janeiro de 1961, nomeou o intelectual baiano para Subchefe da Casa Civil em Brasília e seu representante pessoal na Bahia. Após renunciar, meses depois, no 25 de agosto de 1961, lançou-o francamente ao desconhecido.

Um lugar inóspito e vazio. Eivado de apreensão e indecisão. Sem nenhum sol por testemunha. Que só viria revelado em 1964. Após aquele 31 de março. Naquelas listas de cassação e mandados de prisão. Quando Milton Santos descobriu o mau-agouro da pior maneira: no silêncio do cárcere.


Publicado originalmente em Jornal da USP.

Foto de capa: O geógrafo Milton Santos em 1994, em frente aos Departamentos de Geografia e de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP – Foto: Jorge Maruta/USP Imagens

Sobre o autor

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Daniel Afonso da Silva
Pesquisador no Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais da Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal da Grande Dourados.

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