O declínio do Parlamento: como o avanço do baixo clero ameaça a democracia brasileira | Por Jairo Bolter

A degradação do debate público, o oportunismo eleitoral e o avanço do baixo clero transformaram parte do Congresso Nacional em palco de interesses vazios, corroendo a confiança popular na política e nas instituições democráticas.
Última edição em maio 28, 2026, 08:43

translate

constituicao-1988

O Congresso Nacional, por definição constitucional e histórica, deveria ser o espelho da maturidade democrática de uma nação. A essência do Poder Legislativo fundamenta-se em três pilares vitais: legislar sobre as necessidades reais do povo, fiscalizar as ações do Poder Executivo e representar a pluralidade da sociedade através do debate qualificado. Historicamente, o Parlamento brasileiro, mesmo em momentos de profunda crise, conseguiu se guiar por princípios, coerência e debates programáticos que, no fim das contas, fortaleceram as nossas instituições. Hoje, porém, assistimos a um verdadeiro show de horrores que subverte essa lógica, trocando o projeto de país pelo espetáculo do vazio.

​A grande engrenagem dessa engorda da mediocridade política é a expansão desenfreada do chamado “baixo clero”. Termo cunhado para definir parlamentares de pouca expressão e influência nas grandes decisões, o baixo clero historicamente se caracterizou por focar em clientelismo e fisiologismo, sem qualquer compromisso com debates ideológicos ou macroeconômicos. O passado nos lembra de figuras como Severino Cavalcanti, que saltou do anonimato dessa bancada invisível para uma meteórica e polêmica presidência da Câmara, sustentada pelo corporativismo. Outro exemplo emblemático foi Jair Bolsonaro, que passou quase três décadas habitando os porões do baixo clero antes de emergir do caos político e alcançar a Presidência da República.

​Se outrora o baixo clero era uma franja isolada e contida pelas lideranças expressivas da República, hoje ele se expandiu e tomou o controle da narrativa. Sinceramente, muitos de nós achamos que havíamos chegado ao fundo do poço quando o país viu aquela liderança do caos migrar do Legislativo para o Planalto. Mas o diagnóstico atual é ainda mais alarmante: aquele fenômeno não foi um ponto fora da curva, mas sim um plantio. O baixo clero não apenas emergiu, como deixou sementes espalhadas que hoje semeiam o caos político permanente para garantir a própria sobrevivência. São seres infelizes, sem proposta, sem projeto e sem ação concreta, que desmoralizam a política, os partidos e os políticos sérios por seu nível rasteiro.

​A face mais recente dessa decadência ficou escancarada durante as discussões sobre o fim da escala de trabalho 6×1. O que se viu na tribuna foi um festival de discursos furados por parte dos defensores da derrota da proposta. No desfecho do processo, as vozes contrárias acabaram massacradas pelo restante do plenário. Contudo, essa aparente vitória esconde uma hipocrisia estrutural. Muitos dos que votaram a favor da mudança também integram as fileiras do baixo clero e alteraram o posicionamento de última hora por puro medo da pressão popular nas redes sociais. Defendiam uma coisa nos bastidores e votaram em outra no painel. Essa contradição escancara uma baixa qualidade na atuação do parlamentar. Um agente público que não sustenta a própria palavra jamais deveria exercer a função de representar o cidadão em um Parlamento.

​Diante desse cenário de terra arrasada, acende-se um alerta vermelho para o futuro do país. É urgente e imperioso que os verdadeiros defensores da política, das instituições, da democracia e dos partidos se reergam. Se o centro de gravidade do Congresso continuar nas mãos de quem vive do barulho e da ausência de ideias, o colapso será inevitável. Em um curto espaço de tempo, poderemos ver menos de 50% da população comparecendo às urnas, simplesmente por total desacredito no sistema representativo. Pelo bem de todos nós, o baixo clero não pode continuar ditando o ritmo da nação. A política séria precisa, urgentemente, retomar o seu lugar.

​Para reverter essa engrenagem do atraso, a mudança estrutural precisa começar de fora para dentro, a partir das escolhas de cada cidadão. É fundamental resgatar a importância do voto e da participação ativa na vida pública, trazendo de volta o diálogo saudável e crítico sobre a política e sobre quem nos representa para, finalmente, mudarmos a cara do atual Congresso para melhor. Se falharmos em convencer as pessoas sobre a seriedade e o poder transformador do voto, o caos continuará instaurado. Afinal, a decadência atual também se alimenta da apatia eleitoral e da falsa premissa de que “votar ou não tanto faz” ou de que “os partidos e políticos são todos iguais”. É justamente sob o manto dessa indiferença e do discurso generalista que os políticos do baixo clero prosperam e se perpetuam no poder, desmoralizando as instituições, pois sabem que o caos e a alienação do povo garantem suas reeleições. O eleitorado precisa acordar e compreender que o voto consciente e a cobrança contínua sobre os representantes são as únicas ferramentas capazes de devolver a esperança em dias melhores para todos nós.


Foto de capa: Arquivo Agência Brasil

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-05-08 at 14.09.05
Jairo Bolter
Professor universitário e sindicalista.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático