O debate contemporâneo sobre os rumos políticos do Brasil ganhou contornos fundamentais a partir das análises de Juliane Furno, economista inserida no campo petista, que buscou decifrar o aparente paradoxo do terceiro governo Lula: a coexistência de indicadores macroeconômicos robustos, como a menor taxa de desemprego da série histórica, o crescimento do PIB acima do esperado, a elevação da massa salarial e o controle inflacionário, com uma persistente e crescente insatisfação popular (captada por pesquisas como o Datafolha, que indicou que grande parte da população sente que a economia piorou).
Ao detalhar esse cenário, Furno joga luz sobre elementos materiais imediatos que asfixiam a classe trabalhadora. Ela demonstra que os números macroeconômicos não refletem o cotidiano das famílias, que estão estranguladas pelo alto endividamento e pela inadimplência crônica. Mais do que isso, a autora sublinha um fator crucial: a profunda frustração e a falta de perspectiva que atingem a juventude brasileira, visto que o descontentamento social se expressa de maneira mais aguda e preocupante nessa faixa etária, onde se concentra a maior taxa de desaprovação do governo. Essa juventude herda as consequências de um processo de reprimarização da economia, que destrói a base industrial e tecnológica do país, reduzindo drasticamente a oferta de empregos qualificados. Sem espaço para aplicar sua formação, os jovens se veem fadados a ocupações precárias, o que gera um profundo pessimismo em relação ao futuro.
Na mesma esteira de formulação, a Laura Barbosa de Carvalho2 (em parceria com Guilherme Klein) expande essa leitura ao demonstrar que o desempenho econômico atual, embora sólido, não tem sido capaz de mimetizar a experiência subjetiva de mobilidade social ascendente vivida nos anos 2000. Carvalho e Klein apontam que o eleitorado não apenas compara o presente com o “milagrinho” dos primeiros mandatos de Lula — quando houve uma rápida inclusão pelo consumo e expansão de direitos sociais mínimos —, mas está hoje inserido em um novo padrão de aspiração.
Trata-se de um desejo de consumo globalizado, intensamente moldado e acelerado pelas redes sociais, o que tensiona a percepção de bem-estar. Para os autores, o desafio atual não é apenas crescer, mas “traduzir” os bons resultados macroeconômicos em experiências cotidianas reais de segurança e prosperidade, o que exigiria atacar o crédito caro, promover progressividade tributária, expandir serviços públicos e criar empregos compatíveis com uma sociedade que, hoje, é muito mais escolarizada do que há vinte anos.
Essas contribuições de Furno e Carvalho são absolutamente necessárias; sem elas, tateamos no escuro material. Contudo, quando tomadas de forma isolada, revelam-se insuficientes. Elas flertam com os limites de um certo “economicismo”. A limitação dessa ótica estritamente econômica fica evidente na realidade das ruas, como no caso emblemático com o qual me deparei recentemente ao rolar o feed do Instagram: um vídeo no qual um repórter questiona um jovem garçom de um pequeno restaurante. Submetido a um trabalho claramente precário e extenuante, ao ser questionado sobre seu voto, ele afirma escolher Flávio Bolsonaro porque o candidato “é contra o casamento gay” e, pasmem, “a favor da família e dos bons costumes”. A questão é: como entender que a exploração diária no trabalho seja escanteada em prol de uma pauta puramente moral (reacionária, no mínimo)?
Para responder a essa aparente contradição, é preciso afastar as lentes do “economicismo vulgar” e recorrer à densa análise de Luiz Filgueiras e Graça Druck (2020) sobre a gênese e a ascensão do neofascismo no Brasil. Filgueiras nos lembra que o neofascismo não surge em um vácuo político ou por mera excentricidade ideológica; ele exige circunstâncias históricas singulares, marcadas por mudanças estruturais radicais na base econômica que são sucedidas por profundas crises sociais.
No caso brasileiro, a instauração de um neoliberalismo periférico e o avanço avassalador da reestruturação produtiva e da financeirização desorganizaram por completo o mundo do trabalho. Esse arranjo econômico radicalizou a competição intercapitalista e centralizou o capital, deixando como rastro um cenário crônico de alargamento do desemprego estrutural, da brutal concentração de renda e miséria. O resultado subjetivo desse processo nas massas trabalhadoras é o desenraizamento social, a perda completa de perspectivas de futuro, o medo e um estado permanente de ansiedade e raiva.
O neofascismo brasileiro opera de forma “cirúrgica” sobre esse tecido social esgarçado, mobilizando e capturando o profundo ressentimento gerado por essas transformações na base econômica. Contudo, a dinâmica do capital financeiro, globalizado e desregulamentado é intrinsecamente “abstrata, opaca e invisível” para o trabalhador em seu cotidiano. O garçom da periferia não consegue enxergar a olho nu os fluxos especulativos ou os algoritmos que determinam sua superexploração. É nessa brecha que a extrema-direita atua: ela sequestra esse rancor materialmente fundamentado e, por meio de um nacionalismo retórico (e aparente) e de milícias digitais, redireciona-o para um alvo concreto e palpável.
Dessa forma, o neofascismo constrói e elege metodicamente um “outro3” para atuar como o grande bode expiatório de todas as mazelas nacionais. No arranjo bolsonarista, esse “outro” é personificado pela esquerda (os “petistas”), pelos movimentos sociais, pela população LGBT+, por negros e por mulheres feministas. Assim, o ódio gerado pela violência do capital é alienado, canalizado e descarregado na forma de pânico moral. A oposição violenta ao “casamento gay” externada pelo jovem trabalhador funciona, portanto, como uma válvula de escape psíquica e uma falsa promessa de reordenação social. Diante do caos de um mercado de trabalho desregulamentado que destrói sua vida material, o jovem busca abrigo em uma suposta “ordem moral” rígida e autoritária oferecida pela extrema-direita.
Mas quem é, sociologicamente, esse jovem capturado pelo fascismo? Graça Druck nos fornece a chave para essa compreensão ao analisar a metamorfose das classes sociais no capitalismo contemporâneo. Na parte de sua obra em que analisa o fenômeno do “precariado”, Druck invoca dois autores centrais para debater o tema: de um lado, o britânico Guy Standing, que formula a tese de que o precariado constituiria uma “nova classe social” em formação, autônoma, perigosa e essencialmente distinta do proletariado tradicional, marcada por uma anomia e alienação política particulares; do outro lado, sociólogos brasileiros como Ruy Braga, que refutam essa separação e interpretam o fenômeno sob a chave interpretativa do “proletariado precário”, demonstrando que a precariedade é uma constante histórica e intrínseca à formação da classe trabalhadora, especialmente na periferia do capitalismo.
Ao sintetizar esse embate, a conclusão de Graça Druck é contundente e afasta-se firmemente das premissas de Standing. Ela conclui que o precariado não é uma nova classe social à parte. Trata-se, na verdade, de uma nova morfologia da própria classe trabalhadora sob a égide do neoliberalismo. Na atual fase do capitalismo, a precarização do trabalho e das condições de vida deixou de ser uma disfunção marginal ou uma etapa transitória; ela tornou-se a regra geral, o nexo estruturante e o padrão hegemônico das relações laborais.
O jovem garçom do restaurante não pertence a uma categoria social inédita. Ele é a encarnação viva dessa nova morfologia operária: um trabalhador violentamente superexplorado, desprovido de direitos sociais mínimos, destituído de estabilidade material e, fundamentalmente, privado da sociabilidade e da identidade coletiva (de classe trabalhadora) que o antigo chão de fábrica fordista e o sindicalismo de base ofereciam. Diante do desmonte de suas organizações de classe e do esvaziamento dos partidos políticos tradicionais (substituídos pela mediação algorítmica das redes sociais e pelo acolhimento territorial das igrejas neopentecostais), esse trabalhador fragmentado acaba assimilando os valores individualistas do par “empreendedorismo-meritocracia”.
Desconectado de uma solidariedade horizontal de classe, ele se torna o terreno fértil ideal para a captura ideológica promovida pela reação neoconservadora que assombra o Brasil desde da ruptura democrática que permitiu a ascensão de forças declaradamente neoliberais no poder, ou seja, o golpe-parlamentar que permitiu a ascensão de Michel Temer e “Ponte para o Futuro”.
Em suma, as análises estruturais de Filgueiras e Druck revelam nos quanto o economicismo é míope ao tentar decifrar as oscilações de popularidade do governo com base apenas em índices macroeconômicos. Gráficos de crescimento do PIB ou deflação temporária de alimentos não possuem o condão de costurar automaticamente os laços de identidade construídos historicamente enquanto classe trabalhadora, dilacerados pela flexibilização neoliberal, nem conseguem preencher o vazio de identidade de uma classe trabalhadora pulverizada.
Enquanto a política institucional “progressista” limitar-se a gerenciar a liquidez do mercado e a expandir o crédito de consumo, sem enfrentar frontalmente a precarização estrutural da vida e do trabalho, a extrema-direita continuará canalizando politicamente a desesperança e o desamparo das massas. Vencer o neofascismo exige ir muito além da gestão
macroeconômica eficiente: exige disputar o ressentimento social na base, desmascarar a falsa culpabilização do “outro” e reconstruir as ferramentas de luta, de sociabilidade e de pertencimento histórico do precariado brasileiro.
Foto de capa: Marcelo Camargo/Agência Brasil




