Devemos nos lembrar dos eventuais benefícios da “financeirização”. Entre outros, evitar a dolarização/hiperinflação, financiar a política social ativa compensatória da pobreza diante da falta dos empregos necessários, providenciar a previdência complementar para a classe média acima do teto do INSS etc.
Essa ressalva impede uma interpretação simplista ou moralista do arranjo socioeconômico brasileiro como mera “captura rentista”. O sistema financeiro nacional possui funções estabilizadoras e integradoras reais, especialmente, quando comparado a experiências latino-americanas de hiperinflação, dolarização informal ou colapso previdenciário.
O circuito financeirizado brasileiro não é apenas um mecanismo de concentração patrimonial. Ele também funciona como um arranjo de estabilização monetária, integração social e preservação institucional.
O papel histórico da dívida pública interna em moeda nacional foi ter cumprido funções decisivas desde o pós-Plano Real. Evitou dolarização generalizada, diferentemente de países como Argentina e Venezuela. Panamá, Equador e El Salvador adotaram a dolarização oficial e total de suas economias.
O Brasil preservou demanda por ativos em reais, mercado financeiro doméstico profundo e capacidade estatal de financiamento em moeda própria. Desse modo, lançou uma “âncora patrimonial” doméstica.
Os títulos públicos passaram a funcionar como reserva de valor, ativo seguro e mecanismo de preservação da riqueza financeira em moeda nacional. Isso fortaleceu a confiança monetária relativa e a confiança no sistema bancário brasileiro, possibilitando grande volume de aplicações em depósitos a prazo.
A dimensão social do arranjo é um ponto frequentemente ignorado. Com a política social compensatória o Estado brasileiro consegue sustentar a Previdência Pública, SUS (Saúde Pública), Educação Pública, Bolsa Família e BPC, mesmo com baixa capacidade de geração dinâmica de empregos industriais. Por exemplo, o Brasil atingiu a marca de 29,3 milhões de pessoas recebendo aposentadorias e pensões em 2025, representando 13,8% da população, segundo dados da Pnad Contínua (IBGE), divulgados em maio de 2026.
O gasto social evita ruptura social. Reduz a pobreza extrema, ameniza a instabilidade social e impede o colapso da demanda popular. A política social ativa torna-se um componente funcional do próprio circuito monetário.
Outro ponto crucial da observação diz respeito à Previdência Complementar da classe média. O teto do INSS de R$ 8.475,55 (pouco atingido pelos aposentados) cria demanda por capitalização.
Classes médias e altas aderem à Previdência Complementar, tipo PGBL/VGBL, e acumulam patrimônio financeiro. São exemplos os fundos de pensão patrocinados pelas grandes empresas, a previdência privada, os fundos DI e de renda fixa. Eles encarteiram títulos de dívida pública.
A consequência sistêmica é a dívida pública alimentar o rendimento desses fundos, a estabilidade atuarial e a preservação patrimonial da classe média. O rentismo não beneficia apenas multimilionários e os poucos bilionários. O Brasil possui cerca de 433 mil milionários (indivíduos com patrimônio superior a US$ 1 milhão ou aproximadamente R$ 5 milhões), liderando o ranking na América Latina e ocupando a 19ª posição mundial em 2025.
O circuito ampliado do capitalismo brasileiro apresenta um quadro analítico mais complexo. É necessário analisar as interações entre circuito produtivo (produção → salários → consumo), circuito social-estatal (tributos → gasto social → consumo popular) e circuito financeiro-patrimonial (dívida pública → juros → acumulação financeira). Esses três circuitos coexistem e compensam fragilidades financeiras uns dos outros.
O “equilíbrio brasileiro”, ou melhor, a “acomodação social brasileira”, é o sistema financeiro nacional produzir, simultaneamente, várias relações de causas e efeitos: estabilidade monetária evita hiperinflação; profundidade financeira evita dolarização; política social reduz pobreza extrema; previdência complementar sustenta aposentadoria da classe média; rentismo concentra riqueza.
O aspecto paradoxal da “doença brasileira” é o mesmo mecanismo preservar estabilidade, proteger patrimônio em moeda nacional e financiar políticas sociais. Mas ele é também capaz de reduzir dinamismo produtivo, estimular financeirização parasitária e concentrar riqueza financeira.
Em comparação implícita com outros países periféricos, o Brasil evitou extremos típicos da periferia. Não teve dolarização plena, colapso bancário recorrente e tampouco um regime de alta inflação persistente após 1994. Isto porque construiu dívida pública doméstica com um baixíssimo risco soberano, sistema bancário sofisticado e seguro, mercado financeiro com operações em moeda nacional.
Em consequência, é necessário um refinamento teórico da hipótese dos eternos “denunciantes do capitalismo”, porque essa formulação da “doença brasileira” permite substituir a ideia de “doença holandesa” por algo mais sofisticado. Trata-se de um regime de estabilização financeirizada com inclusão social compensatória.
A síntese teórico-analítica apontada foi organizada com as seguintes contribuições. Hyman Minsky alerta a estabilidade depender do financiamento e o risco de a fragilidade financeira crescer endogenamente. Na Teoria do Circuito, o crédito antecede a produção e esta gera valor adicionado e cria renda. A abordagem estruturalista demonstra como a periferia latino-americana possui restrições históricas e a heterogeneidade produtiva limita desenvolvimento.
A crítica obtusa da financeirização só aponta como a valorização patrimonial subordina a produção, mas não como possibilita o acesso à riqueza financeira por um número maior de brasileiros.
No intervalo das últimas cinco edições do Raio X do Investidor pela Anbima, a população capaz de economizar algum dinheiro, durante o ano de 2025, subiu de 27% para 33%. O percentual de pessoas consideradas investidoras avançou de 31% para 36%.
O arranjo brasileiro talvez seja melhor entendido não como fracasso simples do desenvolvimento, mas como uma forma histórica de compatibilizar estabilidade monetária, política social, preservação patrimonial e governabilidade. Isto tudo apesar de estarmos em uma economia periférica de baixo dinamismo produtivo.
O circuito financeiro brasileiro não apenas desvia recursos da produção. Ele também sustenta a estabilidade monetária em moeda nacional, financia políticas sociais compensatórias e preserva mecanismos de acumulação patrimonial da classe média e das elites, funcionando como um arranjo de estabilização social e financeira típico de um capitalismo periférico financeirizado.
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