No Brasil, a guerra é por banheiro unissex. Na Bolívia, é por terra, diesel e comida — e está sendo travada com dinamite.
Essa frase resume a tragédia política do nosso tempo. Enquanto a esquerda brasileira se especializou em disputas simbólicas e identitárias, a direita boliviana de Rodrigo Paz aplicou em seis meses um choque neoliberal que fez o país explodir. A comparação não é retórica. É um alerta.
Paz assumiu em 8 de novembro de 2025, prometendo enterrar quase 20 anos de governos de esquerda. Cumpriu. Em meio à pior crise em 40 anos, com inflação de 14% e sem dólares no mercado, seu governo impôs três medidas de guerra:
☑️Cortou o subsídio dos combustíveis. O diesel e a gasolina dispararam da noite pro dia.
☑️Aprovou a Lei de Terras 1720. Uma bomba-relógio: permite que bancos tomem terras comunais e pequenas propriedades como garantia de dívida.
É a financeirização da enxada. Se o camponês não paga, perde a terra pro latifúndio e pro sistema financeiro.
☑️Abriu o país para privatizações, sob o velho argumento do “Estado falido”.
O que aconteceu depois era previsível. O povo foi pra rua não pra defender pronome, mas pra defender o prato de comida. Centrais sindicais falam em 6 milhões de mobilizados. La Paz está cercada por bloqueios há duas semanas. Mineiros marcharam 600 km até a capital.
No dia 18 de maio, o Brasil simbólico encontrou a Bolívia material. Enquanto discutíamos linguagem neutra no Twitter, a tropa de choque boliviana jogava gás lacrimogêneo em mineiros na Praça de Armas. A resposta veio com pedra e explosivo. A fumaça cobriu o Palácio de Governo.
E aqui está o ponto: a esquerda brasileira não teria como responder a um Rodrigo Paz. Por quê? Porque ela desistiu da pauta material. Abandonou a briga por salário, por custo de vida, por subsídio, por terra. Terceirizou a questão econômica e se refugiou no identitarismo. Virou uma esquerda de campus, não de fábrica. De símbolo, não de estômago.
O resultado é um vácuo de representação.
Quando a crise bate — e ela vai bater — quem vai barrar a nossa Lei 1720? Quem vai organizar a greve geral contra o fim do subsídio ao diesel? A esquerda que hoje mobiliza ato por causa de banheiro?
A Bolívia é nosso espelho invertido. Mostra o que acontece quando a direita aplica neoliberalismo raiz sem uma esquerda que fale de pão e terra. Mostra também o preço do nosso desvio: sem pauta material, sobra só a ação direta desesperada. Ou pior, sobra o silêncio.
A escalada já tem contornos de guerra civil. Há denúncias de que Milei cedeu material bélico e de que EUA e Israel negociam nos bastidores com Paz. Seis meses de governo e o país está em chamas.
Minha tese é simples: a Lei 1720 é o futuro que nos espera. E a esquerda brasileira, do jeito que está, vai assistir a ele pela TV, postando nota de repúdio enquanto o campo é confiscado.
Ou a gente volta a falar de terra, crédito e preço do arroz, ou seremos irrelevantes na próxima crise.
A Bolívia já escolheu seu lado da história. E nós?
Foto de capa: Reproduçção






Respostas de 2
Por que uma luta precisa eliminar a outra? Será que a autora acha também que a luta por direitos das mulheres pode ser deixada de lado como menos importante que a discussão sobre terra?
Será q podemos substituir “banheiro” por “igualdade de gênero” no título? Minha resposta: não… pq uma coisa não elimina a outra e não há hierarquia entre opressões…
Esse artigo parte de uma premissa muito equivocada. Esquece que, no Brasil, as formas de organização coletivas dos trabalhadores foram desmontadas. Tem nada a ver com o fato de que no Brasil as pautas são simbólicas. Lá na Bolívia, antes pelo contrário, as lutas são feitas pelas organizações coletivas, sejam as trabalhadoras, sejam as comunitárias. É um equívoco e ate desrespeitoso pensar que , no Brasil, a população não luta pelas condições materiais. Os trabalhadores lutam diariamente, mas lutas individuais e coletivas em um contexto de desmonte dos direitos sociais. Aa formas de lutas coletivas no Brasil foram sendo esvaziadas para permitir a captura dos sentidos das lutas pelas condições materiais. Esse esvaziamento foi construção histórica que teve a aliança de capital nacional e estrangeiro, da classe política e econômica.