Quem acompanha, mesmo que à distância, o cenário das universidades públicas brasileiras notou um fenômeno relativamente atípico nos últimos dias: um vigoroso debate sobre pluralismo e liberdade de expressão no ambiente acadêmico. A discussão ganhou força em meados de abril, após um grupo de docentes se reunir na Universidade de São Paulo (USP) para debater o tema. Desse encontro resultou um manifesto amplamente divulgado pela grande imprensa, que em poucos dias angariou o apoio de mais de mil signatários, entre professores, pesquisadores, estudantes e membros da sociedade civil. A lista de adesões reúne nomes consagrados da academia. As reações foram igualmente imediatas, com críticos questionando as premissas do documento. Alguns elevaram o tom, direcionando ataques aos idealizadores do que venho chamando de ‘Movimento Nacional Pelo Pluralismo Acadêmico.
Evidentemente, não acompanho essa disputa como um observador desinteressado, e nem poderia. Afinal, estive entre os docentes reunidos na USP e colaborei na redação do manifesto. Em setembro de 2024, publiquei na Folha de S.Paulo o artigo ‘Professores universitários odiados à direita e à esquerda’, que obteve expressiva repercussão e alertou para a radicalização da guerra cultural nas universidades públicas. Em seguida, ainda em 2024, Richard Miskolci (UNIFESP), Mara Telles (UFMG) e eu idealizamos um observatório nacional docente. O objetivo era dialogar com os sindicatos para monitorar casos de perseguição ideológica a professores. Embora a iniciativa não tenha angariado o apoio necessário para se consolidar institucionalmente, gerou um acúmulo político e aproximou acadêmicos alinhados pelas mesmas inquietações. Esse histórico pavimentou o caminho para o atual movimento, que hoje mobiliza a comunidade acadêmica brasileira entre apoiadores e detratores.
Meu objetivo neste texto é responder às principais críticas que foram dirigidas ao movimento do qual faço parte. Começo por aquilo que julgo ser, digamos assim, as críticas menos honestas e chego onde vejo o cerne da discussão, do bom debate, exatamente o aspecto que será aprofundado nas próximas ações do Movimento Nacional Pelo Pluralismo Acadêmico.
- A acusação de que os idealizadores do movimento fazem parte da “extrema-direita”, ou que são “neoliberais”.
Não adotamos filtro ideológico para a construção do movimento. Somos um grupo plural, com professores de diferentes inclinações ideológicas, mas desconheço entre os signatários alguém que possa ser identificado como “extrema-direita”, categoria que vem sendo bastante utilizada pelos estudos políticos contemporâneos para definir os grupos e partidos políticos reacionários que ganham força na maioria das democracias ocidentais. Esses grupos se caracterizam pela rejeição às instituições mediadoras da democracia liberal, pelo negacionismo histórico e científico, pela defesa de golpes militares e pelos ataques às minorias raciais, sexuais e de gênero. No contexto específico da política acadêmica, “extrema-direita” está entre os conceitos que são alargados a tal ponto que caiba tudo aquilo que não está completamente alinhado aos ativismos progressistas que são tão influentes nos campi. Basta passar os olhos nos signatários do manifesto para perceber que não existe “extrema-direita” entre os seus apoiadores. Por outro lado, há pesquisadores de referência sobre o tema. Alguém com um mínimo de honestidade intelectual conseguiria dizer que Jairo Nicolau, Leonardo Avritzer e Silvana Krause são “extrema-direita”?”
Sobre os “neoliberais”, certamente há entre nós aqueles que na década de 1990 apoiaram a agenda das privatizações levada a cabo durante os governos de Fernando Henrique Cardoso. Não é a minha postura política, mas trata-se de uma leitura de país legítima e que precisa ter seu espaço de enunciação resguardado, ainda que seja para derrotá-la no embate de ideias. Portanto, sim, talvez existam neoliberais entre os signatários do manifesto, e isso não é um problema. Afinal, estamos defendendo o pluralismo.
2) A acusação de que os idealizadores do movimento pretendem perseguir a “esquerda identitária”.
Aqui, percebemos uma bela de uma vestida de carapuça. Em nenhum momento do manifesto acontece a nomeação de grupos ou correntes políticas, tampouco a defesa da perseguição a quem quer que seja. O texto fala em “pluralismo”, “neutralidade institucional” e “liberdade acadêmica”, defendendo que a universidade seja o lugar do dissenso, do confronto de ideias. Ao ver no movimento um ataque à “esquerda identitária” ou à “esquerda radical”, os críticos estão admitindo que são esses grupos que, hoje, protagonizam casos de cancelamento, impedimento de palestras e outras atividades acadêmicas, além de cometerem violência ideológica contra seus adversários. E isso é uma realidade, pois os dados que estamos organizando e catalogando para futura publicação, sob a coordenação de pesquisadores vinculados à USP, à UFF e à UFPR, mostram que nos últimos quatro anos multiplicaram-se em escala preocupante os eventos de violência política nos campi perpetrados por ativistas de esquerda. Mas nem sempre foi assim. Basta lembrar que, no governo Temer, o Ministério da Educação tentou censurar disciplinas que definiam o impeachment de Dilma Rousseff como um golpe, o que gerou uma mobilização nacional. Defender o pluralismo significa afirmar que atividades acadêmicas dessa natureza são legítimas e não devem ser censuradas. O Movimento Nacional Pelo Pluralismo Acadêmico enfrenta o autoritarismo ideológico e o cerceamento do amplo debate, venha de onde vier.
- A acusação de que o manifesto é contra as cotas e demais políticas afirmativas.
Li em algum lugar que o Manifesto pelo Pluralismo Acadêmico seria uma “versão 2.0” do “manifesto anticota” publicado na imprensa no final da década de 1990. Parece que alguém jogou os signatários dos dois manifestos em uma inteligência artificial e identificou a recorrência de três nomes, o que já seria o suficiente para colocar as iniciativas no mesmo lugar: o dos racistas que são contra as políticas afirmativas para a população negra. A acusação não cabe para nenhum dos dois manifestos, que, fora o fato de terem sido escritos em prosa, não possuem mais nenhuma semelhança entre si. Além disso, é possível, sim, ser contra as cotas, e certamente há aqueles que o são entre as mais de mil pessoas que assinaram o nosso texto. Eu, por exemplo, sou um defensor entusiasmado das cotas raciais e sociais no acesso aos cursos de graduação e pós-graduação, mas sou um adversário declarado das cotas trans e da reserva de vagas em concursos e seleções que envolvem profissionais já formados. Pessoas que já foram contempladas por políticas afirmativas deveriam estar prontas para disputar as posições de maior prestígio social e econômico. Penso que defender a aplicação de cotas em favor de quem já foi beneficiado por elas significa admitir que a própria política de cotas não está funcionando bem. Mas essa é a minha opinião pessoal, e o Manifesto sequer toca no assunto. Definitivamente, não se trata de um movimento necessariamente contrário às cotas, até porque entre os signatários está o professor Paulo Baía, figura histórica na implementação das cotas raciais no Rio de Janeiro. Alguém conseguiria dizer que Paulo Baía é contra as cotas? Precisamos ser honestos no debate. O que a defesa do Pluralismo Acadêmico afirma é a necessidade de todos os temas serem discutidos, incluindo esse.
- As críticas de que o Manifesto seria demasiadamente vago, não esclarecendo o que seria “pluralismo”.
Pronto, aqui chegamos ao cerne da discussão. O manifesto é um tipo de texto que tem propósitos específicos, como apresentar as ideias e valores que unem um determinado grupo. Mas, sim, é fundamental que toda essa discussão não se limite ao plano abstrato, como se o que estivesse em questão fossem apenas conceitos diferentes de “pluralismo”. É necessário trazer o debate para o plano das violências concretas direcionadas a pessoas com nome e sobrenome que estão tendo suas vidas acadêmicas transformadas em um verdadeiro inferno. E desde o início, já no encontro realizado na USP, o Movimento Nacional Pelo Pluralismo Acadêmico está trabalhando com esses dados, como eu já disse antes. Antecipo aqui dois casos, amplamente cobertos pela imprensa e que acompanhei muito de perto, em constante contato com as vítimas. Trata-se da professora Jan Alyne Prado e da estudante Beatriz Bueno.
Em 2023, Jan Alyne foi atacada por ativistas trans por ter incorrido no suposto crime de misgendering, ao usar o pronome masculino para se referir a alguém que visualmente aparentava ser homem. O suposto erro aconteceu apenas uma vez, o bastante para que a professora se tornasse alvo de uma verdadeira caçada movida por militantes de gênero. Jan se desligou do cargo que exercia, teve problemas de saúde e precisou mudar de cidade e de instituição. Abordei o caso de Jan Alyne no já mencionado artigo publicado na Folha de S.Paulo em setembro de 2024.
Em 2025, Beatriz foi expulsa do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense (PPCUT/UFF), onde cursava o mestrado. Ela estava no primeiro ano do curso, sem as notas consolidadas das disciplinas e sem ter estourado nenhum prazo. Quem conhece o funcionamento de um programa de pós-graduação sabe quão demorado e complexo é o processo de jubilamento de um estudante. No caso de Beatriz, a expulsão indica práticas de lawfare administrativo, somadas à constante perseguição de que era vítima por causa de suas posições como intelectual pública relativas às questões raciais e de gênero, que colidem com os consensos cristalizados por grupos vinculados à esquerda identitária. Analisei a expulsão de Beatriz em um texto também publicado em fevereiro deste ano, também na Folha de S. Paulo, intitulado “No Brasil, não é a extrema-direita que rejeita a mestiçagem”.
Jan e Beatriz: duas mulheres que foram alvo de violência política dentro do campus, justamente em um momento em que os debates sobre prevenção ao assédio e combate à violência de gênero estão muito fortalecidos nas universidades brasileiras. Mas parece que apenas as mulheres completamente alinhadas com determinados movimentos sociais são dignas de serem protegidas e respeitadas. Para aqueles que demandam que o debate sobre o pluralismo seja encarnado, temos aqui as carnes, os ossos e o sangue de Jan Alyne Prado e Beatriz Bueno. Querem mais? Basta acompanhar as cenas dos próximos capítulos. São centenas de casos semelhantes, que serão organizados, catalogados e publicados. Não estamos falando de um problema isolado, mas sim de um dilema estrutural que está corroendo a convivência democrática nas universidades e comprometendo o prestígio social das instituições, que há até pouco tempo eram motivo de orgulho nacional.
O Movimento Nacional Pelo Pluralismo Acadêmico está apenas começando, mas já é vitorioso e um marco na história recente da universidade pública brasileira. O debate que até então era silencioso e desorganizado agora está estampado nas páginas dos principais jornais do país, com o apoio declarado de centenas de pessoas. Apoie nossa causa e assine o nosso manifesto.
Foto docapa: aco Bovi / Foto: Rudi Silva / UOON Plataforma Digital





