2026: eleição dos governantes e de quem poderá impedi-los de governar | Por Benedito Tadeu César

Última edição em maio 13, 2026, 05:41

translate

Foto montagem - Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva; senador Flávio Bolsonaro; governador de Goiás, Ronaldo Caiado e governador de Minas Gerais, Romeu Zema.

Depois de tratar da economia, desigualdade, medo, valores e mídia, chega-se ao centro da disputa: a Presidência importa, mas o controle do Congresso, principalmente do Senado, e dos governos estaduais pode definir o futuro da democracia brasileira.

Este é o sétimo e último artigo da série Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas — como se decide o voto em um país sob tensão.

A eleição de 2026 não será apenas a disputa pela Presidência da República. Será uma disputa pela configuração do poder no Brasil. O país escolherá quem ocupará o Executivo, se esse Executivo terá condições políticas de governar, se o Congresso continuará ampliando sua capacidade de veto e de captura orçamentária, se o Senado terá maioria capaz de bloquear ou redesenhar instituições e se os governos estaduais funcionarão como polos democráticos ou como bases territoriais da direita e da extrema direita.

Os artigos desta série procuraram mostrar que o Brasil chega a 2026 atravessado por tensões estruturais profundas. O país registrou crescimento econômico, queda do desemprego e recuperação parcial da renda, mas isso não se traduziu em uma sensação generalizada de estabilidade e bem-estar. O aumento do custo de vida, o elevado endividamento das famílias, os juros altos, a precarização do trabalho e a insegurança cotidiana produziram um ambiente de frustração social difusa.

O desemprego atingiu um dos menores níveis históricos, mas milhões de brasileiros continuam inseridos em formas precárias de ocupação, informalidade e trabalho por aplicativos. A renda cresceu, porém parte importante dessa melhora foi absorvida pela inflação observada nos alimentos, nos serviços e nas despesas do cotidiano. A disseminação das apostas on-line e o avanço do crédito caro ampliaram a vulnerabilidade econômica entre setores populares e segmentos da classe média.

A desigualdade estrutural permaneceu como um elemento organizador histórico da sociedade brasileira. Ainda que indicadores sociais tenham melhorado em comparação com os anos imediatamente posteriores à pandemia, consolidou-se em amplos setores da população a percepção de interrupção da mobilidade social vivida nos primeiros governos Lula e Dilma. Muitos brasileiros sentem que trabalham mais, mas continuam incapazes de alcançar uma estabilidade material duradoura.

Ao mesmo tempo, o medo da violência consolidou-se como força política permanente. Mesmo em estados que registraram redução da taxa de homicídios, a percepção de insegurança segue elevada. O medo passou a organizar comportamentos eleitorais, fortalecer discursos autoritários e ampliar o peso político das pautas ligadas à segurança pública.

O conservadorismo religioso e moral também se expandiu como eixo estruturante da disputa política. Redes evangélicas, setores católicos conservadores, lideranças comunitárias e influenciadores digitais conservadores passaram a exercer forte influência sobre parcelas importantes do eleitorado, sobretudo nas periferias urbanas e em regiões do interior.

Por fim, o ambiente informacional brasileiro tornou-se profundamente fragmentado. Redes sociais, mídia tradicional, plataformas digitais, influenciadores políticos, rádios regionais e grupos de WhatsApp expõem o eleitor a narrativas opostas que circulam com exclusividade em bolhas de comunicação, sem diálogo. O país passou a conviver com múltiplas interpretações da realidade social, econômica e política circulando de forma segmentada e incomunicáveis entre si.

É nesse contexto que se realizará a eleição de 2026.

As pesquisas mostram um país territorialmente dividido

As pesquisas eleitorais divulgadas entre o fim de abril e o início de maio de 2026 mostram um Brasil profundamente polarizado.

No cenário nacional, Lula continua competitivo e mantém forte apoio no Nordeste e entre setores populares. A direita e a extrema direita, porém, preservam elevada capacidade de mobilização no Sul, no Centro-Oeste, em São Paulo e em parcelas importantes do eleitorado urbano conservador do país.

A pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada no início de maio mostra Lula com 46,6% das intenções de voto no primeiro turno, contra 39,7% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o cenário aparece praticamente empatado: Flávio Bolsonaro registra 47,8% e Lula 47,5%.

Outro dado relevante das pesquisas recentes é que praticamente todos os candidatos competitivos do campo anti-Lula testados em cenários de segundo turno aparecem em situação de empate técnico com o atual presidente. Isso indica que a disputa de 2026 não dependerá apenas da capacidade de superar adversários no primeiro turno, mas também da construção de maiorias políticas e sociais capazes de ampliar apoio na etapa decisiva da eleição.

Mais do que uma polarização ideológica, os levantamentos revelam uma fragmentação territorial, cultural e social do eleitorado. Nordeste e parte do Norte interiorano continuam funcionando como principal base do lulismo. Já Sul, Centro-Oeste e regiões fortemente vinculadas ao agronegócio seguem mais alinhadas à direita.

As pesquisas mostram forte influência da renda, da religião, da percepção econômica do país e do ambiente informacional sobre o comportamento eleitoral. Entre os eleitores de menor renda, Lula preserva vantagem significativa. Já entre os segmentos de renda mais elevada, o eleitorado conservador mantém predominância.

O eleitorado evangélico continua majoritariamente inclinado à direita, impulsionado pela centralidade dos temas ligados à família, religião, costumes e segurança pública. Entre católicos, o cenário é dividido. Já entre eleitores sem religião, Lula e o campo progressista aparecem mais fortes.

A mudança demográfica e a inversão geracional do eleitorado

Um dos fenômenos mais importantes — e menos debatidos — da eleição de 2026 é a mudança do perfil demográfico do eleitorado brasileiro.

O Brasil envelheceu rapidamente nas últimas décadas, e isso começou a alterar profundamente a dinâmica política nacional. O número de eleitores com mais de 60 anos cresceu fortemente desde 2010 e atingiu nível recorde nesta eleição. Hoje, mais de 36 milhões de brasileiros possuem mais de 60 anos, dos quais cerca de 16,6 milhões têm mais de 70 anos e, portanto, não são obrigados a votar.

No movimento inverso, o eleitorado jovem perdeu peso relativo. A queda da natalidade e o envelhecimento populacional reduziram proporcionalmente a participação dos eleitores entre 16 e 24 anos no conjunto do eleitorado brasileiro, os quais totalizam hoje 28,9 milhões.

Essa transformação demográfica veio acompanhada de uma importante inversão política. Historicamente, eleitores jovens tendiam a posições mais progressistas, enquanto os mais velhos apareciam associados ao conservadorismo político. As pesquisas recentes indicam que esse padrão mudou significativamente no Brasil contemporâneo.

Lula aparece hoje com desempenho mais forte justamente entre os eleitores mais velhos, especialmente acima dos 60 anos, enquanto a direita e a extrema direita ampliaram sua influência entre parcelas importantes do eleitorado jovem.

Entre os fatores que ajudam a explicar essa mudança estão a memória social positiva dos primeiros governos Lula entre os mais velhos — associados à melhora de renda, emprego e políticas sociais — e, no caso dos mais jovens, a forte influência das redes sociais, dos influenciadores digitais e do ambiente de hiperfragmentação informacional em que a direita atua fortemente.

Grande parte da juventude brasileira atual foi socializada politicamente já dentro do universo das plataformas digitais e da ascensão da nova direita global. Ao mesmo tempo, parcelas importantes dos eleitores mais velhos preservam referências políticas anteriores à explosão das redes sociais e mantêm maior vínculo com experiências históricas ligadas à democratização do país e à memória dos ciclos autoritários brasileiros.

Esse deslocamento geracional pode produzir impactos decisivos em 2026. Embora o voto deixe de ser obrigatório após os 70 anos, o eleitorado idoso costuma apresentar taxas relativamente elevadas de comparecimento eleitoral e poderá desempenhar papel importante para a preservação do equilíbrio democrático brasileiro.

O envelhecimento do eleitorado, portanto, não representa apenas uma mudança demográfica. Trata-se também de uma transformação política estrutural que começa a reorganizar o sistema eleitoral brasileiro.

O voto dissociado tornou-se estrutural

Um dos fenômenos mais importantes da política brasileira contemporânea é o chamado voto dissociado. Trata-se da situação em que o eleitor apoia um candidato à Presidência da República, mas escolhe nomes de orientação ideológica diferente para governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados ou Assembleias Legislativas.

Esse comportamento ajuda a explicar a crescente fragmentação política observada no país. Muitos eleitores aprovam políticas econômicas ou sociais do governo federal sem aderir integralmente ao campo progressista.

A fragmentação do ambiente informacional aprofundou esse processo. Um mesmo eleitor pode apoiar políticas econômicas federais e, simultaneamente, consumir conteúdos conservadores sobre segurança, religião e costumes nas redes sociais, em rádios regionais ou em grupos digitais segmentados.

O resultado é um sistema político mais complexo, regionalizado e difícil de governar. Presidentes podem vencer nacionalmente sem construir uma maioria sólida na Câmara dos Deputados ou no Senado. E governadores e bancadas parlamentares ganham maior autonomia política e institucional.

 

Congresso tornou-se centro estratégico do poder

A principal transformação institucional brasileira dos últimos anos ocorreu fora do Executivo. O Congresso Nacional ampliou fortemente seu poder político e orçamentário por meio de emendas parlamentares e de mecanismos de distribuição de recursos, que fortaleceram lideranças regionais e estruturas eleitorais locais.

Deputados e senadores passaram a controlar parcelas crescentes do orçamento federal, ampliando sua autonomia em relação ao Executivo e fortalecendo máquinas políticas territorializadas. O resultado foi a consolidação de um sistema político cada vez mais fragmentado, que atende interesses corporativos de parlamentares, sem controle público suficiente, e menos dependente da Presidência da República.

Acontecimentos políticos recentes expressam essa tendência. A rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal representou uma derrota política e simbólica importante para o governo Lula. Mais do que a derrota de um nome, o episódio revelou a crescente capacidade do Senado de restringir direitos legais do Executivo e sinalizou uma correlação de forças mais desfavorável ao governo dentro do Congresso.

A aprovação da chamada Lei da Dosimetria pelo Congresso e a derrubada do veto presidencial a ela também produziram forte impacto político. O episódio evidenciou o fortalecimento de uma maioria conservadora no Parlamento, capaz de impor derrotas ao governo, mesmo em temas de elevada sensibilidade institucional e jurídica. A posterior suspensão da lei pelo ministro Alexandre de Moraes aprofundou ainda mais a tensão entre Congresso, Executivo e Supremo Tribunal Federal.

Esses episódios são sinais de um processo mais amplo: o deslocamento gradual do centro de gravidade do sistema político brasileiro para o Congresso Nacional. A eleição de 2026, portanto, não definirá apenas quem comandará o Executivo Federal, mas também se haverá capacidade de reconstrução de algum equilíbrio institucional entre os Poderes da República, permitindo que o presidente eleito leve à frente o programa pelo qual foi eleito.

O presidente Lula foi eleito para seu terceiro mandato com um programa que incluiu especial atenção aos setores populares, em diferentes áreas de atuação governamental, e teve maiores dificuldades do que nos anteriores para encaminhar políticas públicas nesta perspectiva, em função das restrições do orçamento público federal, que foi em grande parte absorvido pelo chamado teto de gastos e pelas emendas parlamentares ao orçamento, as quais garantiram a manutenção das bases eleitorais dos parlamentares e, em muitos casos, viabilizaram corrupção, em função da ausência de transparência e controle público da origem e da execução dessas emendas.

Além disto, o governo Lula em seu terceiro mandato sofreu fortes resistências do Congresso diante de iniciativas prioritárias, como a isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos, a taxação e regulação das bets, o aumento de impostos da reduzida parcela mais rica da população, a redução da jornada de trabalho, a eliminação da jornada 6×1 e a política de aumento real do salário mínimo. O resultado é um presidente eleito com um programa, que fica limitado na sua execução por um Congresso de maioria conservadora e com seus poderes aumentados.     

No Poder Legislativo Federal, o Senado adquiriu papel ainda mais estratégico. É nele que se concentram decisões fundamentais relacionadas ao equilíbrio institucional do país: aprovação de ministros de tribunais superiores, de autoridades regulatórias, do presidente e dos diretores do Banco Central e aprovação de eventuais processos de impeachment.

As disputas senatoriais de 2026 ganharam, portanto, importância nacional inédita. E, consciente disso, a extrema-direita tem concentrado esforços para a eleição do maior número possível de senadores, visando controlar a ação do STF.

Lula, Trump e a dimensão internacional da eleição brasileira

O recente encontro entre Lula e Donald Trump introduziu um novo elemento na disputa política brasileira. O gesto teve forte impacto simbólico e geopolítico, tanto no Brasil quanto internacionalmente.

Para setores do governo e do campo progressista, a reunião reforçou a imagem de Lula como liderança internacional experiente, capaz de dialogar em um cenário global marcado por instabilidade, disputa entre potências e reconfiguração da ordem internacional.

Ao mesmo tempo, parte da direita procurou utilizar o episódio para reforçar a ideia de aproximação pragmática entre líderes fortes e nacionalistas, enquanto setores mais ideológicos do bolsonarismo buscaram minimizar politicamente a importância do gesto.

No que se refere à dimensão internacional da eleição, cresce a preocupação com possíveis formas de influência da extrema-direita estrangeira sobre processos eleitorais nacionais por meio de plataformas digitais, redes sociais, big techs, ecossistemas de desinformação e articulações políticas transnacionais. O alinhamento ideológico entre setores da extrema direita brasileira e redes políticas associadas ao trumpismo alimenta hipótese de eventual apoio externo — político, comunicacional e/ou digital — à direita radical brasileira durante a campanha de 2026. Embora ainda não existam elementos concretos que permitam dimensionar esse risco, o tema passou a integrar as preocupações de analistas, pesquisadores e instituições ligadas à defesa da democracia, especialmente diante do histórico recente de interferências digitais em campanhas observadas em processos eleitorais de diferentes países.

Por outro lado, o desenrolar da guerra comercial entre Estados Unidos e China poderá influenciar fortemente o cenário eleitoral brasileiro. Oscilações cambiais, impactos sobre inflação, juros, commodities e crescimento econômico podem alterar significativamente a percepção do eleitorado até as eleições de 2026.

Em um país altamente sensível às condições econômicas, mudanças no cenário internacional frequentemente produzem efeitos rápidos sobre popularidade presidencial, percepção de estabilidade e comportamento eleitoral.

A disputa na direita pode redefinir a eleição

O cenário atual da extrema direita brasileira ainda está longe de ter se consolidado. Embora Flávio Bolsonaro apareça como competitivo nas pesquisas nacionais e mantenha forte apoio do núcleo duro bolsonarista, sua candidatura apresenta fragilidades políticas importantes que podem alterar significativamente a dinâmica eleitoral nos próximos meses.

Flávio carrega parte importante do desgaste acumulado pelo bolsonarismo após os acontecimentos posteriores às eleições de 2022, incluindo as investigações envolvendo o entorno político da família Bolsonaro, os impactos institucionais da tentativa de ruptura democrática e a persistência de denúncias relacionadas ao caso das “rachadinhas” e ao funcionamento de antigos gabinetes parlamentares ligados ao clã.

Além disso, existem resistências relevantes dentro da própria direita à sua candidatura. Governadores conservadores, setores do mercado financeiro, lideranças regionais e parcelas da direita liberal enxergam limitações em sua capacidade de ampliar alianças para além do núcleo ideológico bolsonarista.

Essa situação abre brechas para ataques de adversários tanto à esquerda quanto dentro do próprio campo conservador. O avanço das investigações relacionadas ao chamado caso Master ampliou ainda mais esse ambiente de instabilidade política. O envolvimento do presidente nacional do PP e líder da federação União Progressista, senador Ciro Nogueira, aumentou a preocupação em setores da direita e do Centrão diante da possibilidade de novos desdobramentos atingirem outras lideranças parlamentares, operadores políticos e estruturas partidárias ligadas ao campo conservador.

Embora ainda seja cedo para medir os impactos eleitorais concretos do caso, o aprofundamento das investigações pode produzir desgaste relevante sobre candidaturas identificadas com o bolsonarismo e com partidos centrais da futura coalizão conservadora de 2026. Dependendo de sua evolução, o caso Master pode afetar tanto a capacidade de articulação política da direita quanto sua narrativa de combate à corrupção e defesa da moralidade pública.

Caso a candidatura de Flávio Bolsonaro perca competitividade ao longo do processo eleitoral, abre-se espaço para o crescimento de outras candidaturas conservadoras.

Ronaldo Caiado aparece como possível alternativa mais vinculada ao conservadorismo tradicional, ao agronegócio e ao discurso de segurança pública. Romeu Zema tenta ocupar um espaço liberal-conservador associado à gestão econômica, ao empresariado e a um perfil institucional menos radicalizado.

Há também setores da direita buscando uma candidatura capaz de combinar conservadorismo, moderação institucional e maior capacidade de diálogo com o centro político e setores econômicos, sobretudo se o desgaste do núcleo bolsonarista aumentar ao longo da campanha.

Até mesmo uma candidatura de Ciro Gomes — embora hoje menos provável — poderia produzir impactos importantes no cenário eleitoral, sobretudo se conseguisse atrair parcelas do eleitorado antipetista não alinhadas organicamente ao bolsonarismo e setores cansados da polarização entre Lula e a extrema direita.

O histórico recente brasileiro recomenda cautela diante das pesquisas atuais. As eleições presidenciais brasileiras frequentemente passam por mudanças bruscas ao longo da campanha, influenciadas por crises econômicas, redes sociais, escândalos, alianças regionais e acontecimentos inesperados.

Mais do que um cenário estabilizado, o que as pesquisas atuais revelam é um país ainda profundamente em disputa ideológica, institucional e política.

Rio Grande do Sul: cenário típico  da polarização brasileira

O Rio Grande do Sul consolidou-se como um dos estados mais representativos da reorganização conservadora brasileira. Historicamente associado ao trabalhismo, ao brizolismo e à forte presença da esquerda, o estado passou por intensa transformação política e ideológica nas últimas décadas.

As pesquisas mais recentes mostram ampla vantagem da direita na disputa presidencial. Segundo levantamento Quaest divulgado em maio, Flávio Bolsonaro aparece com 57% das intenções de voto no segundo turno no estado, contra 31% de Lula — a maior vantagem regional do bolsonarismo no país.

A direita mantém predominância especialmente na Serra, no Norte, em regiões do agronegócio e em parte significativa do interior gaúcho. Já a Região Metropolitana de Porto Alegre e a Fronteira Oeste continuam sendo as áreas mais competitivas para o campo progressista.

Na disputa pelo governo estadual, o cenário permanece em aberto. A pesquisa Genial/Quaest de abril mostrou Juliana Brizola liderando com 24%, seguida por Luciano Zucco com 21%. Gabriel Souza apareceu com 6%, enquanto Marcelo Maranata registrou 2%. O número de indecisos segue elevado, alcançando 34%, o que indica forte volatilidade eleitoral.

Nas simulações de segundo turno, Juliana Brizola aparece numericamente à frente tanto de Luciano Zucco quanto de Gabriel Souza, mas os cenários ainda permanecem altamente competitivos.

A disputa para o Senado apresenta fragmentação ainda maior. Manuela d’Ávila apareceu com 14%, seguida por Germano Rigotto com 12%. Paulo Pimenta e Marcel van Hattem registraram 9%, enquanto Ubiratan Sanderson apareceu com 7%. O cenário é de empate técnico e elevada indefinição.

O cenário eleitoral permanece aberto no país

Apesar da polarização política já consolidada, ainda faltam muitos meses para a eleição presidencial de 2026e o cenário atual não pode ser tratado como definitivo.

Mudanças na economia, novos fatos políticos, crises institucionais, evolução das guerras comerciais internacionais, decisões judiciais, alianças partidárias, escândalos de corrupção, conflitos militares internacionais e alterações no ambiente digital podem modificar profundamente o quadro eleitoral.

O próprio histórico brasileiro recente mostra que campanhas presidenciais podem passar por mudanças bruscas ao longo do processo eleitoral. A elevada fragmentação social, territorial e informacional do país amplia ainda mais a imprevisibilidade.

As pesquisas atuais revelam tendências importantes, mas não determinam resultados inevitáveis.

A disputa de 2026 é uma disputa sobre democracia

Os artigos anteriores mostraram que a eleição de 2026 não pode ser compreendida apenas a partir de indicadores econômicos tradicionais.

A melhora parcial da economia não eliminou o sentimento de vulnerabilidade social. O medo da violência reorganizou comportamentos políticos. O conservadorismo religioso consolidou novas identidades coletivas. A desigualdade permaneceu estrutural. E o ambiente digital ampliou a fragmentação da percepção da realidade em bolhas de comunicação que não dialogam.

A direita e a extrema direita compreenderam com grande eficiência essa reorganização social e emocional do país. Construíram uma narrativa contínua baseada na associação entre insegurança, conservadorismo moral, identidade religiosa e crítica às instituições políticas tradicionais.

A esquerda e a centro-esquerda continuam fortes eleitoralmente em parcelas importantes da população do país, especialmente entre os mais pobres e entre parte relevante do eleitorado mais velho, mas ainda enfrentam dificuldades para reconstruir vínculos culturais permanentes com setores populares urbanos, segmentos religiosos conservadores e parte importante da juventude socializada politicamente no ambiente digital da nova direita.

Neste contexto, a eleição de 2026 definirá mais do que programas de governo. Ela poderá redefinir os limites concretos do Estado democrático brasileiro.

O fortalecimento do Congresso, inclusive exorbitando sua esfera constitucional de ação, a expansão territorial da extrema direita, a fragmentação do ambiente informacional, a inversão geracional do eleitorado e a maior autonomia de lideranças regionais compuseram um novo cenário institucional no país.

A questão central já não é apenas quem vencerá a eleição para a Presidência da República. A questão decisiva é quem terá condições reais de governar — e sob quais limites políticos e institucionais.

O Brasil chega a 2026 dividido economicamente, socialmente, culturalmente e territorialmente. E dividido enfrentará uma disputa histórica sobre a própria configuração do poder político nacional.

Mais do que uma eleição presidencial, 2026 será uma eleição sobre o futuro do equilíbrio ou desequilíbrio entre os poderes da República, portanto sobre o futuro da democracia brasileira.

Colaborou: Maria da Graça Pinto Bulhões

Ilustração da capa: Foto montagem – Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva; senador Flávio Bolsonaro; governador de Goiás, Ronaldo Caiado e governador de Minas Gerais, Romeu Zema.


Nota editorial e fontes

Este artigo integra o dossiê especial da Rede Estação Democracia sobre as eleições de 2026 e a reorganização política, econômica e social do Brasil. O texto foi elaborado com base em pesquisas eleitorais nacionais e estaduais, estudos acadêmicos, dados públicos e análises produzidas ao longo da série.

Fontes consultadas: AtlasIntel/Bloomberg; Genial/Quaest; Datafolha; IBGE/PNAD Contínua; Banco Central do Brasil; Fórum Brasileiro de Segurança Pública; Latinobarómetro; Ipsos; Reuters Institute; DataReportal; World Values Survey; Tribunal Superior Eleitoral; Poder360; CNN Brasil; institutos regionais.


Leia também os artigos anteriores da série:

Artigo 1: Brasil 2026: entre dados, percepções e narrativas — como se decide o voto em um país sob tensão

Economia

Artigo 2: Renda, custo de vida e dívida: quando o dinheiro não chega ao final do mês

Artigo 3: Crescimento sem distribuição: a desigualdade como estrutura do país

Artigo 4O medo como força política: violência, percepção de insegurança e voto no Brasil

Artigo 5Valores e identidade: o conservadorismo como força estruturante do voto

Artigo 6: Mídia, desinformação e poder: quem define o que é a realidade no Brasil de 2026

Sobre o autor

Benedito Tadeu César - ChatGPT Image 14_02_2026, 18_08_34
Benedito Tadeu César
Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e direitor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED - Rede Estação Democracia.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Uma resposta

  1. A avaliação de Benedito Tadeu César é precisa ao diagnosticar que o Brasil não opera mais sob um presidencialismo puro, mas sim em uma simbiose institucional que mescla traços do presidencialismo com uma dinâmica parlamentarista de fato.
    ​Embora a Constituição de 1988 defina o regime presidencialista, a realidade política de 2026 consolidou o que muitos analistas chamam de “Parlamentarismo Orçamentário” ou “Semipresidencialismo Informal”.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático