Leneide Duarte‑Plon viveu em Paris durante 24 anos, período em que trabalhou como jornalista e colaborou com diversos jornais e revistas brasileiros. Foi nesse contexto que escreveu, entre outros livros, “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, publicado no Brasil em 2014, em coautoria com Clarisse Meireles, e “A tortura como arma de guerra”, ambos dedicados à análise da tortura como instrumento de repressão estatal. A autora retornou ao Brasil no ano passado.
Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo. Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende.
Em entrevista à RFI, Leneide fala sobre essa circulação da violência, seus encontros com o general Aussaresses e a atualidade do tema no Brasil de hoje.
RFI – No seu livro, você demonstra que a tortura não foi um desvio, mas uma doutrina de Estado, aplicada primeiro na Indochina, depois na Guerra da Argélia, e mais tarde exportada para a América do Sul. Como essa transferência de métodos se deu concretamente?

Leneide Duarte-Plon – Foi um pacote completo. Tudo se baseia nos trabalhos do general francês Roger Trinquier, autor de “La Guerre moderne”. Na Indochina, os franceses viram que enfrentavam uma guerra totalmente diferente: não era uma guerra convencional, com homens armados e um exército, mas uma guerra conduzida por guerrilheiros sem uniforme, disseminados na população civil, treinados na teoria da guerra revolucionária de Mao Tsé‑Tung.
Em “A tortura como arma de guerra”, Leneide Duarte‑Plon reúne, entre outras entrevistas, aquelas realizadas com o general francês Paul Aussaresses, figura central desse sistema repressivo.
Então coronel, ele foi chefe da repressão francesa na Argélia e um dos principais teóricos e executores da tortura, das execuções sumárias e dos desaparecimentos forçados. Defensor da ocultação dos corpos após interrogatórios e assassinatos, Aussaresses reconheceu à autora o papel pioneiro da França na institucionalização dessas práticas e confirmou, entre outros pontos, a participação do governo brasileiro no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende.
RFI – No Brasil, após o golpe de 1964, essa doutrina foi apropriada em nome da luta anticomunista. Na prática, isso significou treinar as Forças Armadas para combater a própria população civil. Como essa lógica do “inimigo interno” se estruturou?
O inimigo deixou de ser um invasor estrangeiro e passou a ser o “subversivo”. Um general que cito no livro define claramente quem era esse inimigo interno: padres progressistas, professores universitários, estudantes, militantes políticos e guerrilheiros urbanos. Mesmo pessoas que não usavam armas, como padres que acolhiam perseguidos políticos ou ajudavam feridos, passaram a ser tratadas como inimigas.
Quando entrevistei o general Paul Aussaresses, ele foi direto: o que houve no Brasil foi uma guerra civil, brasileiros combatendo e reprimindo brasileiros. Essa definição era uma novidade para mim, porque eu nunca tinha ouvido ninguém dizer ou escrever que, na realidade, o que houve nas ditaduras do Chile, da Argentina e do Brasil foi, no fundo, uma guerra civil.
RFI – Você foi a única jornalista brasileira a entrevistar longamente Paul Aussaresses, um dos principais teóricos e executores dessa doutrina, já no fim da vida. Como surgiu essa oportunidade e qual foi o peso desse testemunho para o livro?
A primeira entrevista longa com ele foi publicada em 2008, na Folha de S.Paulo. Naquele momento, perguntei se estava disposto a continuar a dar entrevistas para um livro sobre a ditadura brasileira, a Guerra da Argélia e a influência da escola francesa na América do Sul. Ele aceitou.
Fui várias vezes à Alsácia para entrevistá‑lo. Ele assinou uma autorização para transformar aquelas entrevistas em livro e nunca pediu para reler ou controlar nada do que eu escreveria. O testemunho dele foi central para compreender como a tortura se tornou uma política de Estado institucionalizada.
RFI – E ele falava sem arrependimento. Pelo contrário, defendia o que fez.
Exatamente. Ele assumia tudo, inclusive a tortura, e dizia que tudo foi feito pela França. Mesmo reconhecendo que todo aquele massacre foi inútil, porque a Argélia se tornou independente, não demonstrava nenhum arrependimento. Ele queria deixar registrada a versão dele dos fatos.
RFI – Seu livro saiu no Brasil em 2016, foi traduzido e publicado na Argélia antes de chegar à França. O que explica essa demora francesa?
Em um primeiro momento, apresentei o livro a dois ou três editores que me disseram que o público francês não tinha interesse em reabrir a ferida da Guerra da Argélia.
Mas a França avançou muito nesse debate. Em 2018, o presidente Emmanuel Macron reconheceu, em entrevista a um jornalista argelino, que a colonização foi um crime contra a humanidade. Reconheceu também que a tortura, a morte e o desaparecimento do professor de matemática Maurice Audin, de 24 anos, na Argélia, foram crimes de Estado. Em setembro de 2018, Macron pediu perdão à viúva de Audin. Foi um ato de grande coragem política, uma evolução formidável na maneira como a França passou a olhar para o seu passado colonial. Macron teve a coragem que François Hollande não teve, nem Nicolas Sarkozy, nem mesmo François Mitterrand [ex‑presidentes franceses]. Os historiadores cobram isso: que a França encare o seu passado colonial com coragem e faça uma revisão histórica, reconhecendo que esse passado é uma vergonha, uma mancha na história francesa.
RFI – Seu livro é mais um tijolo na construção dessa consciência e também permite aos franceses saber o que aconteceu durante a ditadura brasileira.
O que mais me surpreendeu foi que os franceses mantiveram na capa do livro o mesmo título e subtítulo da edição brasileira, o que é bastante forte: “Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado”. É um ato de coragem da editora L’Harmattan.
RFI – No Brasil de hoje, em ano eleitoral, o papel político dos militares voltou ao centro do debate. Que riscos essas histórias não resolvidas ainda representam para a democracia?
A anistia perdoou crimes e criminosos, e isso nunca foi revisto. Isso faz com que os militares queiram sempre voltar a comandar ou a dar as cartas na história do Brasil, o que é inaceitável. Tivemos uma tentativa de golpe em 2022 e já se fala novamente em anistia.
Ao mesmo tempo, há uma evolução na sociedade brasileira. Cresce a compreensão de que a interferência militar no poder civil é inaceitável.
Publicado originalmente em RFI.
Foto de capa: Arquivo do general Paul Aussaresses, então com 84 anos, ao lado da esposa, no restaurante Les Deux Palais, em Paris, pouco antes de chegar ao Palácio da Justiça da capital para o julgamento de um recurso relativo ao seu livro, no qual justificou o uso da tortura pelo exército francês na Argélia. 20 de março de 2003 AFP – JOEL ROBINE.





