O imperativo da vida é amadurecer. Assim ocorre com a semente que vira muda, árvore, flor e fruto. Conosco, humanoides, de meros bebês frágeis e vulneráveis a adultos produtivos, com pensamentos complexos. Em algum ponto da trajetória, somos impelidos a ingressar no mercado de trabalho e não demora muito para compreendermos que todas as empresas, governos, organizações buscam o crescimento – embora nem todas estejam dispostas ao amadurecimento.
A ambição nos leva a querer ser pessoas melhores, mas o sistema nos faz crer que precisamos ter coisas melhores. Essa inversão de valores tem nos custado o colapso dos nossos ecossistemas, inclusive do nosso sistema de crenças. No que acreditamos enquanto coletividade? Até quando seguiremos aceitando um modelo econômico que exige crescimento permanente, mesmo quando o preço é a própria continuidade da vida na Terra? Onde entra o limite nessa farsa de um modelo político-econômico injusto que te faz acreditar que só é possível reduzir desigualdades arrecadando mais impostos? E não se mexe nos lucros dos bilionários. E não se distribui o que já há de riqueza na Terra – a flor, o fruto de tanto trabalho.
O desafio, além de ser estrutural e estruturante, é matemático. Um cálculo cujas variáveis subjetivas jamais podem ser ignoradas – e talvez os pragmáticos aqui discordem, mas o que há de sonho dentro do peito é fundamental! Agora, vejam, como resolver uma equação na qual suas partes tendem ao crescimento enquanto seu contexto e habitat possuem nítidas limitações diante das quais essa ampliação faria colapsar a vida?
Chegamos a um ponto em que a emergência climática deixou de ser alarmismo de ambientalista. Não são mais dados projetados de um futuro incerto. Esse futuro chegou, é agora. A quantidade de afetados pelas enchentes no Rio Grande do Sul, dois anos atrás, em Pernambuco, semana passada. As secas dos rios amazônicos, a crise hídrica que nos priva do acesso ao bem comum mais precioso e indispensável para que a vida prospere: a água. Ainda assim, diante de todas as evidências materiais e históricas, estamos às vésperas de uma eleição no Brasil na qual uma minoria ínfima parece estar com os pés na Terra e consciente do momento que vivemos.
Onde estão os projetos de mitigação, cidades resilientes diante da emergência climática, agroecologia, compostagem, reciclagem, recuperação de mata ciliar, planos de recursos hídricos em alinhamento total com (e pautando) os planos diretores? Onde estão os atingidos pelas enchentes, cujas vozes só foram escutadas e amplificadas durante a tragédia? Onde estão os quilombolas e indígenas, cujos modos de vida nos fazem recordar que somos filhos, e não donos da Terra?
Silêncio. A chuva rega os pensamentos ainda obstruídos pelo excesso de informação. Emociona ver nosso povo colorir as universidades e acessar políticas públicas que transformam vidas – e essa emoção ninguém tira da gente! Daqui pra frente, ainda sonho ver o cuidado com a vida, na amplidão do que ela significa, no centro do holofote. Talvez um dia sejamos filhos mais gratos à generosidade do que a Terra nos oferece. Quando essa gratidão brotar, a gente regar e ver ela crescer, talvez sejamos finalmente capazes de construir um projeto de sociedade menos baseado na exploração e mais comprometido com a continuidade da vida.
Eu acredito. E vocês?
Foto de capa: Colapso da vida humana na Terra




