Tempos de uma Atitude Anticapitalista | Por Lincoln Penna

O maior desafio ao capitalismo seria a extensão da democracia além de seus atuais limites extremamente reduzidos. (Ellen Wood).
Última edição em maio 11, 2026, 09:56

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Como declaração de intenções, creio que é preciso examinar o panorama em que nos encontramos com olhar atento sobre o que se passa no mundo sob a égide do capital. Para quem se ocupa em analisar o desenvolvimento desigual do capitalismo tem ciência de que se trata de um modo de produção não apenas de desigualdade social, em virtude de seu processo de acumulação cada vez mais ampliada, como as crises periódicas têm-se tornado cronificadas em razão de sua própria natureza. Geralmente, as mídias clássicas e corporativas escamoteiam a relação entre o capitalismo e a economia mundial. Não há economia sem substrato, ou seja, sem que nela se identifique a quem interessa determinadas decisões.

No confronto com o seu próprio desempenho histórico, se toda a riqueza material alcançada pela humanidade foi devido aos recursos de capital, no entanto os resultados se devem em função da exploração das forças de trabalho com alto custo social. A famosa consigna segundo a qual foram os capitães de indústria os responsáveis pelo progresso das economias modernas e contemporâneas, omite a força de trabalho que desempenhou papel fundamental para alavancar as economias até hoje. Além disso, tem sido escamoteado a incompatibilidade entre capitalismo e democracia, teor e fundamento desse esboço de uma atitude anticapitalista, que por enquanto é tão-somente resultado de uma avaliação.

Desde logo é preciso ficar claro que os leitores deste texto devem ter alguma identidade com o que penso, sobretudo no que diz respeito às críticas ao capitalismo. Do ponto de vista do capitalismo e de sua trajetória, a contradição com a democracia é indiscutível, uma vez que a acumulação e a lógica da usura é peculiar a esse modo de produção, ao passo que a democracia é uma representação que pressupõe a igualdade entre os seres humanos, seja na repartição de bens comuns ou na comunhão de interesses recíprocos, quando é efetivamente praticada.

Já dizia Barbosa Lima Sobrinho que o pressuposto da democracia é a igualdade. Formulação que abriga o sonho cuja validade depende dos rumos do processo histórico, uma vez que os sonhos devem merecer ações que tenham como objetivo alcançar aquilo que se deseja. Logo, é na prática que ela tem lugar de acontecer. Da mesma forma que o dito empreendedorismo particular depende de quem o pratica para alcançar o interesse individual geralmente às custas do trabalho alheio. 

São, portanto, caminhos distintos que consagram o princípio da luta de classes, de vez que os protagonistas da prática democrática e da iniciativa individual estão envoltos necessariamente em interesses conflitantes, uma vez que enquanto as práticas democráticas estimulam a solidariedade comum, a lógica capitalista enaltece a busca individualizada. Essa contradição tende a levar a conflitos ao opor quem compra e quem vende a força de trabalho de modo a resultar sempre numa relação desigual, uma vez que não existe possibilidade de que essa relação seja meramente complementar, tal como um jogo de ganha-ganha.

A crítica contumaz ao imperialismo por parte de uma intelectualidade de esquerda, principalmente tendo como instrumento de análise os clássicos do marxismo, mesmo tendo e argumentando que a ação do imperialismo decorre precisamente de bases fundadas no modo de produção capitalista, o fato é que a ênfase atribuída às funções imperialistas mascaravam o seu conteúdo original, ou seja, o próprio capitalismo berço natural do imperialismo, não obstante ter Lênin chamado a atenção de que ele é a etapa derradeira do capitalismo. Como presentemente o capitalismo em sua fase financeira se irradiou mundo afora sem ter um estado nacional como principal centro, o fenômeno do imperialismo ganhou uma nova dimensão. É sobre essa nova dimensão que trataremos a seguir.

O imperialismo até o advento do que se designou de neoliberalismo era até então a expressão de um estágio avançado do capitalismo centrado em torno de um estado nacional, cujo poder econômico e financeiro agia fora de suas fronteiras a submeter as economias em desenvolvimento ou a ele atreladas de modo a subtrair os seus recursos naturais e materiais. Com a expansão das atividades financeiras superando as de caráter produtivo, como as indústrias, e cujos lucros e dividendos atraíam os recursos de capital, tem início a etapa da financeirização capitalista.

O imperialismo não se esgotou com a financeirização. Ao contrário, ele adquiriu uma nova forma de intervir mundialmente, com a única diferença do “velho” imperialismo. Ele passou a se atomizar, vale dizer, deixou de estar centrado numa única economia nacional e se expandiu através exatamente da multiplicação dos ativos financeiros. Logo, ganhou uma dimensão ao mesmo tempo mais penetrante porquanto difusa, e passou a intervir e subordinar os rumos da economia mundial.

Nesse novo estágio, as crises não somente afetam indiretamente outras economias como se manifestam em toda a cadeia econômica e financeira mundial. A chamada mundialização tem o sentido de dar nome a esse patamar mais elevado da expansão capitalista, o que o leva a multiplicar os efeitos de suas crises agora mais regulares a contaminar todas as atividades econômicas em todas as partes do mundo.

Nesse novo e recente estágio do capitalismo, considerando que remonta a cerca de meio século, mas com implicações mais robustas no primeiro quarto do século XXI, qualquer mudança substancial visando alternativas ao capitalismo ganha a perspectiva de um movimento necessariamente internacional. O então internacionalismo apregoado pelos comunistas da primeira metade do século XX parece voltar a ganhar substância passados quase um século. A ver.

Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

Texto do seu parágrafo (9)
Lincoln Penna
Doutor em História Social; Conferencista Honorário do Real Gabinete Português de Leitura; Professor Aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Presidente do Movimento em Defesa da Economia Nacional (MODECON); Vice-presidente do IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos).

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