Duas bombas semióticas dão novos significados aos termos da disputa eleitoral. Refiro-me ao envolvimento, agora transparente, do senador Ciro Nogueira no caso Master, qualificado por Fernando Haddad como o maior escândalo financeiro de todos os tempos em nosso país. Refiro-me também à reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente Donald Trump, num encontro histórico entre os dois maiores chefes de Estado das Américas, representando diferentes projetos de nação em circunstâncias de profundas mutações geopolíticas mundiais.
Lula não é Chamberlain; é muito maior e muito mais digno que ele. Trump é um Hitler não realizado, retido pela China e pelo que resta das instituições democráticas do mito dos “pais fundadores”.
Os eventos que abrem este texto, todavia, têm força para colocar em crise o crescimento da extrema direita no país mais forte econômica e politicamente da América Latina. Podem também bloquear as possibilidades eleitorais do senador Flávio Bolsonaro, desestabilizando a sua posição de “renovador” do bolsonarismo, já em estado de encarceramento generalizado.
Já vi, numa rápida leitura da manhã, que a maior parte da imprensa hereditária — ou tradicional — tentará “naturalizar” o que está acontecendo, como se esses dois petardos de ressignificação da política nacional fossem apenas eventos normais no percurso das duas principais candidaturas à Presidência da República. Não são.
A reunião Trump-Lula e o novo significado da soberania
Primeiro: a reunião Trump-Lula redesenha o conceito de “traição à pátria”, sempre presente nas novas definições estratégicas imprimidas pelo poder global do capital.
O resultado da visita de Lula à casa-grande demonstra que o império deserda — sempre que necessário — os traidores locais dos países que pretende transformar em colônias. Trata-os como servos de gleba, utilizados pela política imperial-colonial e descartáveis quando deixarem de servir.
Trump não trai a natureza colonial-imperial da sua grande nação. Ao contrário: defende os interesses do seu país. Ao mesmo tempo, torna irrisórios os pequenos traidores daqueles países que considera seu quintal colonizado, porque sabe que estarão disponíveis ao seu comando sempre que necessário.
De outra parte, o Brasil deu uma demonstração clara de que sabe tratar com o gigante imperial para defender seus interesses nacionais, sem recorrer a arroubos retóricos nacionalistas que não teria condições de sustentar no terreno de uma disputa militar.
Mas o Brasil, através da voz de Lula, deixou claro que a nossa soberania é inviolável. O país manteve-se “grande” na disputa estratégica com um grande império que, embora decadente, está muito longe de uma crise final.
O caso Master e o impacto sobre o bolsonarismo
Segundo: se ficou claro que os traidores locais não valem nada para Trump — ainda que propaguem a necessidade de uma invasão militar americana contra o próprio país — o envolvimento grave do senador Ciro Nogueira no caso Master liga diretamente a chapa de Flávio Bolsonaro ao maior escândalo financeiro de todos os tempos.
O que, aliás, não foi propriamente uma surpresa. Mas uma evidência, quando passa por uma confirmação indesmentível, transforma-se em fato histórico universal.
A história em tempos curtos
A história hoje avança em tempos “curtos”, tanto pela grandeza quanto pela pequenez dos seus líderes mais significativos.
A grandeza e a miséria humana dos líderes de cada campo político, nos momentos em que jogam os destinos da humanidade, ajudam a nortear os resultados que virão.
Não é gratuito que, neste momento, dois desses grandes líderes venham de espaços morais e políticos tão diferentes: um esteve presente no sistema Epstein de poder global; outro vem das lutas políticas e econômicas do ABC, que ajudaram a reerguer a dignidade democrática do nosso país como comunidade de destino.
Tudo está aí!
Foto da capa: Washington (DC), 07/05/2026 – Presidente da República, Luíz Inácio Lula da Silva, chega para encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert/PR





