O cooperativismo no Brasil já não é mais coadjuvante. Hoje, ele movimenta a economia, gera empregos e fomenta a produção, os processos agroindustriais e a comercialização de diversos setores; enfim, financia a economia do meio rural aos grandes centros urbanos. Está nos supermercados, nos bancos, no campo e nas cidades. No entanto, as universidades brasileiras seguem formando profissionais que pouco ou nada sabem sobre o tema. É um paradoxo silencioso, mas preocupante: enquanto o setor se torna um dos pilares do desenvolvimento social e econômico do país, a academia insiste em ignorar a doutrina cooperativista. O resultado? Administradores, contadores, advogados, jornalistas e agrônomos chegam ao mercado com currículos impecáveis, embora carreguem um ponto cego gravíssimo.
Nos últimos anos, as cooperativas brasileiras passaram por uma verdadeira revolução profissional. Contrataram os melhores talentos, modernizaram processos, ganharam eficiência e se fortaleceram em praticamente todos os ramos do setor. O problema é que esses profissionais foram treinados para enxergar o mundo pela lente da empresa tradicional, ou seja, aquela onde o lucro é o único norte e o capital é quem manda. Só que uma cooperativa é, por essência, uma sociedade de pessoas e não de capitais. O resultado é que fórmulas prontas são aplicadas no lugar errado, fazendo com que a essência do modelo cooperativo se perca.
A saída? O próprio sistema cooperativo precisa agir, e rápido. Muitas organizações, na pressa de ganhar mercado, acabam copiando práticas agressivas do capitalismo tradicional e viram as costas para sua natureza. Treinam seus colaboradores apenas para “vencer o concorrente”, mas, ao fazer isso, sufocam a solidariedade, que é justamente o que as torna diferentes. Um cooperativista não pode ser apenas um bom técnico. Ele precisa entender que o verdadeiro sucesso não está apenas no balanço financeiro, mas no impacto real na vida do associado e da comunidade. Caso contrário, o cooperativismo corre o risco de virar uma cópia desbotada do modelo que pretendia superar e, consequentemente, perderá sua alma.
Mas a responsabilidade não é só das cooperativas. O Estado, por meio de universidades e escolas públicas, tem o dever de incluir o cooperativismo nos currículos. É, no mínimo, incoerente que um país onde esse modelo sustenta cidades inteiras forme bacharéis que nunca ouviram falar de governança democrática ou economia solidária. Especialistas defendem que o tema seja tratado como estratégico para o desenvolvimento nacional, sendo integrado de forma transversal nos cursos de graduação e na bibliografia acadêmica.
A falta de conhecimento básico sobre cooperativismo leva a decisões erradas. E decisões erradas, a longo prazo, podem ser fatais. Um gestor que ignora o valor da democracia interna transforma a cooperativa em uma engrenagem fria, o que afasta o associado e enfraquece a confiança. O momento é delicado, por isso não dá para apostar em aventuras pontuais ou descuidar da formação de quem comanda o setor. Fortalecer o ensino do cooperativismo não é um favor ao setor, é fortalecer a própria democracia brasileira. É garantir que a economia sirva às pessoas, e não o contrário. Somente com profissionais que saibam a diferença entre gerir capital e gerir pessoas o cooperativismo continuará sendo o farol de desenvolvimento de que o Brasil precisa.
Foto de capa: Cresol





