Por Rudolfo Lago*
Muitos atribuem a derrota do advogado-geral da União, Jorge Messias, na indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF) a uma poderosa articulação da bancada do banco Master. Haveria aí uma grande conjugação de forças de enrolados pelas artimanhas do banqueiro Daniel Vorcaro. Passaria pelo grupo bolsonarista, já que o sócio de Vorcaro, Fabiano Zettel, doou R$ 3 milhões para a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022. Chegaria aos aliados do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que também recebeu R$ 2 milhões. Não pouparia o PT, especialmente o PT da Bahia, pelas ligações com o Credcesta, origem do esquema de créditos falsos que engordaram a carteira do Master.
Alcolumbre evita CPMI do Master
E chega ao Centrão, com nomes como o senador Ciro Nogueira (PP-PI). O próprio ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, atribuiu ao Master a derrota. Segundo ele, grupos unificaram-se para articular a derrota ao mesmo tempo em que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ele chamuscado por conta do Fundo de Previdência do Amapá, evitou ler em sessão o pedido de CPMI do Master.
Dinâmica independe do Congresso

Pelo acerto que teria sido feito, no dia seguinte à derrota de Jorge Messias, Alcolumbre fez a sessão do Congresso que derrubou o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL da Dosimetria. Obtidas as assinaturas mínimas necessárias, um pedido de CPMI deve ser lido na sessão do Congresso. Há até uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) nesse sentido. Mas, pelo acordo, Alcolumbre fez a sessão do Congresso única e exclusivamente para derrubar o veto. Toda essa leitura, porém,tem um problema: a dinâmica da crise independe do Congresso.
Investigação não vai parar
Se aconteceu a tal união da bancada do Master, ela teria ignorado um fato: os mecanismos de investigação de que hoje o país dispõe já há algum tempo independem da vontade política. Assim operam o Ministério Público e a Polícia Federal. O Ministério Público desde a Constituição de 1988 e a PF especialmente a partir do primeiro governo Lula.
MP
O Ministério Público hoje perdeu parte do protagonismo que tinha por seus próprios erros. Ao não se submeter à pressão política de governos, criou sua própria motivação política na Lava Jato, orientando sua apuração e combinando sentenças para condenar pessoas. Paga ainda o preço dessa politização.
PF
Politização que não contaminou a Polícia Federal. Seu processo de independência vem desde os tempos em que o ministro da Justiça era Marcio Thomaz Bastos e dirigia a PF Paulo Lacerda. Nesse momento, ganhou melhor formação de seus quadros, passando a operar de forma mais independente.
Cardozo
Na mesma Lava Jato, não foram poucas as vezes em que o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, viu-se surpreendido ao não saber de operações e prisões que acabavam por desgastar o governo. Algo talvez mal compreendido por Lula, que teria desenvolvido resistência a Cardozo.
Dilma
Resistência que não teria tido a própria Dilma Rousseff. Fora do ministério, foi Cardozo o advogado de Dilma no processo de impeachment. Mas a verdade é que quem acabou condenado e preso como consequência da Operação Lava Jato foi Lula. O fato, porém: nem governo nem Congresso contiveram a investigação.
Ciro
O fato de uma semana depois Ciro Nogueira ter sido o alvo principal da nova fase da Operação Compliance Zero mostra como o meio político não teria mais força para parar tais apurações. Os indícios que dese o início surgiram desdobraram-se ao longo da investigação chegando aos detalhes contidos na decisão.
Delação
A apuração vai seguir. E pode ganhar novos contornos com a delação de Daniel Vorcaro. Aliás, só haverá delação se ela de fato for capaz disso. As informações são de que as negociações empacaram no momento justamente porque André Mendonça considera que o que apresenta Vorcaro no momento é pouco.
Publicado originalmente no Correio da Manhã.
Foto de capa: Comemoração após a derrubada do veto | Lula Marques/Agência Brasil.





