Da REDAÇÃO
Um relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek foi assassinado pela ditadura militar em 1976. O documento, elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão, relatora do caso, contraria a versão oficial mantida por décadas de que JK morreu em um acidente automobilístico na Via Dutra.
A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (7). O relatório será analisado e votado pelos integrantes da comissão nas próximas semanas.
Relatório reabre debate histórico sobre morte de JK
A conclusão da comissão representa uma reviravolta em um dos episódios mais controversos da história política brasileira. JK morreu em 22 de agosto de 1976, quando o Opala em que viajava colidiu com uma carreta na Via Dutra. O motorista Geraldo Ribeiro também morreu.
As investigações conduzidas durante a ditadura apontaram que o carro de JK teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa antes da colisão fatal. Essa versão foi posteriormente mantida por uma comissão externa da Câmara dos Deputados, em 2001, e também pela Comissão Nacional da Verdade, em 2014.
Agora, o novo relatório da CEMDP sustenta que há elementos suficientes para reconhecer responsabilidade do Estado brasileiro pela morte do ex-presidente.
Investigação do MPF questionou versão oficial
Segundo a reportagem da Folha, o documento da comissão se apoia principalmente em um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019. A investigação descartou a hipótese de colisão entre o ônibus e o Opala de JK.
O trabalho técnico do engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes, foi considerado peça central do caso. Ele revisou laudos antigos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli e concluiu que as perícias utilizadas anteriormente eram falhas e insuficientes.
Os estudos também indicaram inconsistências na dinâmica do acidente e levantaram hipóteses de sabotagem, atentado político ou interferência externa que teria provocado a perda de controle do veículo.
Contexto político fortalece tese de atentado
O relatório ressalta o contexto político da época. Após o golpe militar de 1964, JK teve os direitos políticos cassados e passou a integrar a Frente Ampla, movimento de oposição à ditadura ao lado de outras lideranças civis.
O documento menciona ainda a Operação Condor, articulação repressiva coordenada entre ditaduras sul-americanas com apoio dos Estados Unidos para perseguir opositores políticos.
Segundo a Folha, o nome de JK aparece citado em correspondências ligadas ao aparato repressivo da época, ao lado do diplomata chileno Orlando Letelier, morto em um atentado em Washington durante a ditadura chilena.
Certidão de óbito pode ser alterada
Caso o relatório seja aprovado, a comissão poderá recomendar a retificação da certidão de óbito de JK e de Geraldo Ribeiro. O novo registro passaria a reconhecer que ambos morreram em decorrência de perseguição política promovida pelo Estado brasileiro.
A medida segue decisões recentes envolvendo outras vítimas da ditadura, como Zuzu Angel e Rubens Paiva.
Nos bastidores, a expectativa é de que o parecer seja aprovado pela maioria dos integrantes da comissão.
Segundo a Folha de S.Paulo, integrantes ligados ao Ministério da Defesa demonstraram preocupação com possíveis repercussões políticas da decisão em ano eleitoral.
Fonte: Folha de S.Paulo
Fotos da capa: Composição produzida pela RED com referências de imagens do Arquivo Nacional, Folhapress e acervos históricos públicos.




