Da Redação*
Um relatório detalhado, elaborado pelo World Resources Institute (WRI) Brasil com o apoio de acadêmicos gaúchos, revelou que o desastre climático ocorrido no estado em 2024 não foi apenas fruto de fenômenos naturais, mas o resultado de 11 causas raiz ligadas a decisões políticas, econômicas e sociais. O levantamento mapeia a cadeia de produção de risco que culminou em 185 mortes e afetou milhões de pessoas, propondo uma reformulação profunda na governança urbana para prevenir futuras tragédias.
A anatomia do risco
A investigação acadêmica diferencia o “gatilho” — as chuvas extremas — das condições que permitiram a magnitude do dano. Segundo os pesquisadores, o desastre foi construído historicamente através de processos de ocupação territorial inadequados e negligência institucional. O estudo aponta que a vulnerabilidade das cidades brasileiras está diretamente ligada à falta de uma cultura de prevenção e ao negacionismo climático, que impedem a antecipação de cenários críticos.
Entre as pressões dinâmicas listadas, destacam-se a expansão urbana descontrolada e a especulação imobiliária, que empurram populações para áreas de risco. O documento enfatiza que a infraestrutura física, isoladamente, é insuficiente para conter novos episódios se não houver um fortalecimento da gestão pública e uma integração entre diferentes níveis de governo.
Pilares da vulnerabilidade gaúcha
As causas fundamentais do desastre foram agrupadas em quatro eixos principais. No setor de governança, o relatório critica a priorização do lucro econômico em detrimento de pautas socioambientais e a fragilidade do arcabouço legal para a gestão de crises. No âmbito socioeconômico, a concentração de renda e a desigualdade social aparecem como fatores que amplificam o impacto das enchentes sobre as camadas mais pobres.
O modelo de desenvolvimento rural e urbano também foi alvo de análise, sendo classificado como pouco resiliente diante da variabilidade climática e das características geográficas do território gaúcho. A dualidade entre interesses públicos e privados foi apontada como um entrave para a implementação de soluções coletivas e eficazes.
Propostas para a resiliência
Para reverter o cenário de insegurança, os especialistas defendem uma articulação que ultrapasse os limites municipais, sugerindo uma gestão baseada em bacias hidrográficas. A estratégia visa integrar o planejamento regional e priorizar o atendimento a grupos vulneráveis. Para Lara Caccia, coordenadora do WRI Brasil, a reconstrução do estado deve ser encarada como uma oportunidade para adotar novos modelos de desenvolvimento que coloquem a resiliência climática no centro das decisões governamentais.
* Texto: Redator da RED
Foto: Enchente em Porto Alegre. Crédito: reprodução Folha do Meio Ambiente




