A anatomia de um brasil refém | Por Gastão Bertim Possi

Última edição em maio 8, 2026, 01:57

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O Brasil é um país que insiste em carregar um DNA colonial, onde a “metrópole” não cruza mais o oceano, mas reside em confortáveis escritórios de vidro na Faria Lima.

Desde antes da República, a estrutura de poder nacional não mudou o destinatário final: o lucro sempre escoa para o mesmo ralo — o conglomerado financeiro.

​Vivemos um teatro de sombras.

De um lado, o setor produtivo, o “Brasil que planta”, berra e esperneia diante do estrangulamento.

O agronegócio, motor da balança comercial, é frequentemente ridicularizado por vozes urbanas que reduzem o esforço do campo à caricatura de quem “gasta o empréstimo em caminhonetes novas“.

Ora, mesmo que fosse apenas consumo, a aquisição de um veículo movimenta fábricas, aços e empregos.

Mas o que o governo parece ignorar é o elefante branco na sala: quem financia a caminhonete, o trator e a semente ganha mais do que quem produz o grão.

​A realidade é um soco no estômago: enquanto o produtor rural luta contra a intempérie, a praga e a volatilidade do mercado, o sistema financeiro lucra na bonança e se locupleta na crise.

É a agiotagem institucionalizada.

​A proposta governamental de unificar e refinanciar dívidas para o cidadão comum é, sem dúvida, um lampejo de lucidez.

Retirar das costas de quem ganha até três salários mínimos o peso de um juro de 400% no cartão de crédito não é política social; é uma tentativa desesperada de ressuscitação econômica.

É transformar o morto-vivo financeiro em consumidor ativo, injetando o oxigênio que as padarias e mercados de bairro tanto precisam.

​Contudo, essa inteligência econômica morre na porteira da fazenda.

É contraditório — para não dizer suicida — limpar o nome do consumidor na gôndola enquanto se permite que o produtor, no início da cadeia, seja asfixiado por um passivo de R$ 1,3 trilhão.

Juros de 25% ao ano para quem depende do ciclo biológico da terra são uma sentença de expropriação.

​O Brasil chegou ao limite de sua esquizofrenia econômica.

Ou torcemos para o capital financeiro, mantendo o Estado como o garantidor do “bolsa-banqueiro” através de fundos públicos que blindam instituições contra a inadimplência, ou apostamos na produção nacional.

​Nessas “alturas do campeonato”  não há meio-termo.

Um país que protege o rentista e abandona quem “suja a bota” está condenado ao papel de colônia administrativa gerida por algoritmos bancários.

​Enquanto a Índia deu o exemplo histórico ao promover o Agricultural Debt Waiver — um “reset” real que extinguiu a dívida de milhões para salvar a espinha dorsal de sua economia — o Brasil segue refém de uma encenação política perversa.

O que se vê por aqui é a “securitização”, o palanque favorito do político matreiro que, sob o manto de um falso socorro, apenas empurra o produtor para um novo ciclo de agonia.

Essa prática não é auxílio, é estelionato eleitoral: o político posa de salvador ao “rolar” a dívida, mas o faz preservando intactos os lucros do banco, mantendo o agricultor sob a rédea curta dos juros sobre juros.

Enquanto na Índia o Estado teve a coragem de zerar o passivo para libertar a força produtiva, no Brasil o sistema prefere a manutenção do agricultor como um devedor eterno, um “meeiro do sistema” que trabalha para sustentar o próximo ciclo de renegociações vazias, garantindo que a escritura da terra continue, na prática, dentro das gavetas da Faria Lima.

O que se exige é um Novo Pacto de Produção:

Romper com o Extrativismo Financeiro: Inverter a lógica do FGO (Fundo de Garantia de Operações) para que ele proteja o produtor e a terra, não o balanço trimestral do banco.

Troca de Perfil da Dívida: Substituir a dívida curta, predatória e impagável por uma dívida longa, condizente com a vida real.

Soberania contra o Rentismo: Enfrentar a Faria Lima com a mesma firmeza que se busca para o consumo urbano.

​Com certeza há e haverá muitas resistências.

O sistema está encastelado e as desculpas serão mil.

Ouviremos o coro ensaiado de que “vai quebrar o sistema“, “vai inviabilizar o crédito futuro” ou que o “risco Brasil” explodirá.

É o terrorismo econômico habitual usado para manter o status quo.

Dirão que o Estado não pode intervir nos contratos, enquanto esse mesmo Estado socorre bancos silenciosamente a cada solavanco do mercado.

Desculpas mil. Vai quebrar. Vai inviabilizar…

Fico pasmo ao ouvir o “verbo” de muitos “marxistas” bradarem contra tais medidas, sem se dar conta que o que ocorre hoje é um embate direto entre o capital e a produção.

Ignoram que a usura financeira é a forma mais parasitária do capital, aquela que Marx descreveu como o ápice do fetichismo, onde o dinheiro parece gerar dinheiro sem passar pela produção, devorando o produtor e o trabalhador indistintamente.

​Para romper com essa inércia secular, o Brasil precisa de uma medida que ninguém ainda ousou trilhar com seriedade: o Perdão Total das dívidas produtivas e de sobrevivência.

Não se trata de uma aventura populista, mas de um imperativo ético e macroeconômico baseado na teoria do Jubileu Econômico, prática historicamente utilizada para evitar o colapso de civilizações sob o peso da usura.

O Argumento do Juro Oculto e a Amoralidade do Contrato:

As dívidas que hoje asfixiam o Brasil não foram contraídas sob condições de equilíbrio.

Quando o Banco Central mantém taxas reais estratosféricas, ele altera a natureza do contrato.

O devedor não está apenas pagando pelo uso do capital; ele está transferindo sua propriedade e sua força de trabalho de forma compulsória para o credor.

No Direito, isso se aproxima da lesão contratual.

O perdão total é o reconhecimento de que esses valores já foram pagos múltiplas vezes através de spreads abusivos e taxas de juros reais que não encontram paralelo no mundo produtivo.

A Falácia da Quebra do Sistema:

O argumento de que o perdão total “quebraria” o sistema financeiro ignora que o sistema já está quebrado para quem produz.

O sistema financeiro brasileiro opera com as maiores margens de lucro do planeta.

O perdão das dívidas do “andar de baixo” e do campo agiria como um gigantesco reset sistêmico.

O Estado, que hoje emite títulos para pagar juros de títulos, redirecionaria essa liquidez para lastrear o perdão, garantindo a solvência básica das instituições, mas eliminando o direito de exploração perpétua sobre o produtor.

O Efeito Multiplicador do Capital Liberado:

Ao zerar o passivo de R$ 1,3 trilhão do agro e as dívidas de cartão de crédito das famílias, o governo não estaria “perdendo” dinheiro.

Ele estaria liberando energia produtiva represada.

Um produtor sem dívida investe em tecnologia, dobra a safra e reduz o preço do alimento na ponta.

Uma família sem dívida consome bens duráveis, movimentando a indústria.

O crescimento do PIB resultante desse choque de liberdade financeira compensaria, em pouquíssimos ciclos fiscais, o custo contábil da anistia.

A Posição Histórica contra o Capital Parasitário:

Se Karl Marx chamava o fenômeno de “capital fictício“, o Brasil o transformou em “capital canibal”.

Este “modelo” de endividamento sistêmico não é apenas uma falha de gestão; é, na verdade, um dos mecanismos mais rápidos e radicais de transferência de patrimônio real para as mãos do capital especulativo.

O que ocorre é uma expropriação silenciosa: sob o peso de juros compostos que superam qualquer produtividade biológica ou industrial, a propriedade produtiva — a terra do agricultor, a fábrica do industrial e o imóvel da família — deixa de pertencer a quem nela trabalha para se tornar um mero ativo garantidor no balanço de um banco.

​Essa estratégia de “canibalização patrimonial” é frequentemente camuflada sob a máscara da “empresa nacional”.

Grandes conglomerados financeiros utilizam o verniz da brasilidade e o discurso da estabilidade do sistema para operar um processo de concentração de terras e ativos sem precedentes.

Quando o produtor não consegue honrar taxas de 25% ou 30% ao ano, a “solução” oferecida pelo sistema é a entrega do patrimônio a preços de liquidação, muitas vezes através de fundos de investimento que, embora sediados no país, operam com a lógica fria e extrativista do rentismo global.

​Assim, o Brasil assiste a uma transmutação perversa: a produção primária, que deveria ser o alicerce da soberania, é reduzida a um acessório do setor financeiro.

O produtor rural torna-se, na prática, um “meeiro de luxo” do banco, trabalhando o ano todo para pagar o serviço da dívida, até que o inevitável estrangulamento finalize a transferência da escritura.

É a vitória do capital fictício sobre a economia real, onde o lucro não nasce do suor ou da semente, mas da captura jurídica e financeira da riqueza alheia, consolidando um modelo onde o país é dono de nada, enquanto as planilhas são donas de tudo.

O perdão total é a única forma de separar o joio do trigo: o capital que financia o progresso do capital que apenas extrai a vida.

Tomar essa posição é declarar que a vida do cidadão e a viabilidade da terra valem mais do que o dígito eletrônico no balanço do Itaú ou do Bradesco.

​A coragem política necessária agora é a de inverter a lógica: trocar a dívida curta e impagável por uma libertação absoluta.

Somente ao garantir que o lucro da safra fique com quem sujou a bota e que o salário do trabalhador permaneça com quem produziu, o Brasil poderá transitar de uma economia de dívida para uma economia de renda e dignidade.

​Afinal, uma nação que protege o rentista e abandona o produtor está condenada a ser apenas uma grande fazenda gerida por uma planilha de banco.

Em última análise, o Brasil encontra-se diante de um ultimato geopolítico e existencial.

Manter o atual modelo é aceitar o papel de uma nação que “produz” não para alimentar seu povo ou desenvolver sua tecnologia, mas para engordar, em um metabolismo autofágico, o capital financeiro internacional e seus braços domésticos.

Continuar sob a égide do Arcabouço Fiscal e da SELIC nas alturas é condenar o país a ser uma máquina de moer riqueza real para gerar lucros virtuais.

​A escolha é binária: ou o Brasil continua sendo o quintal de luxo do rentismo, onde o esforço do campo e da cidade é drenado por um algoritmo de juros compostos, ou gira o globo.

Girar o globo significa buscar novos paradigmas, alinhar-se ao setor produtivo real, priorizar a soberania alimentar e a reindustrialização, e ter a ousadia de proclamar que a vida de quem produz vale mais do que a garantia do credor.

​A coragem política necessária agora é a de inverter a lógica: trocar a dívida curta e impagável por uma libertação absoluta.

​Afinal, uma nação que protege o rentista e abandona o produtor está condenada a ser apenas uma grande fazenda gerida por uma planilha de banco.

​Ou o Brasil produz para si, ou continuará sangrando para o sistema.

O tempo das planilhas acabou; é hora de girar a roda da história.

Ou produzimos, ou apenas pagamos juros.

A escolha é agora.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Gastão Bertim Ponsi
Advogado, escritor e ensaísta gaúcho, com atuação destacada na região das Missões, especialmente em São Borja, onde construiu uma carreira marcada pela defesa de trabalhadores, pela reflexão crítica sobre as instituições brasileiras e pela observação atenta das dinâmicas sociais da fronteira. Paralelamente à advocacia, desenvolveu uma produção intelectual que transita entre o ensaio, a crônica e a análise estrutural do Estado brasileiro.

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