Leão XIV atrapalha Trump mais do que Francisco | Por Rodrigo Toniol

Última edição em maio 5, 2026, 10:52

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Nas últimas semanas, Donald Trump chamou o papa Leão XIV de fraco e terrível em política externa, afirmou que o pontífice é leniente com o crime e publicou uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece com túnica branca e luz irradiando das mãos, como se fosse Cristo. Depois apagou. A reação veio de todos os lados, inclusive dos católicos conservadores americanos que votaram nele. Foram os primeiros a dizer que ele foi longe demais.

Durante seu primeiro mandato como presidente, Trump teve no Vaticano a figura do papa Francisco. Naquele período, o presidente dos Estados Unidos também enfrentou o pontífice. Antes mesmo de ser eleito, Trump já havia chamado Francisco de fantoche do governo mexicano no debate sobre imigração e o via como adversário nas questões ambientais.

Francisco era um contraponto político fácil para que Trump se colocasse como antagonista. Identificado com ideais progressistas, crítico do consumismo, preocupado com questões climáticas, latino-americano, identificado com a questão da migração e resistente ao tradicionalismo litúrgico, Francisco tampouco despertava a simpatia dos cristãos católicos conservadores norte-americanos.

Ocorre que Leão XIV bagunçou significativamente o arranjo fácil que Francisco oferecia a Trump. Eleito há pouco mais de um ano, Leão é o primeiro papa norte-americano, conservador nos costumes, não antagonista direto de práticas litúrgicas tradicionais, jamais identificado politicamente com o campo progressista.
Trump até já tentou associar Leão XIV à esquerda radical, mas é difícil que o rótulo emplaque.

No tabuleiro da política americana em sua relação com o catolicismo, dois movimentos simultâneos estão em curso.

De um lado, a administração Trump se aproximou definitivamente dos católicos conservadores, transformando essa aliança em uma de suas marcas no campo religioso. Como já analisei nesta coluna, figuras-chave do trumpismo, como o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e o secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., são todos católicos conservadores influentes.

De outro lado, lideranças católicas, algumas delas que votaram em Trump em três eleições estão dizendo publicamente que, no embate com Leão XIV, um limite foi ultrapassado. O bispo Robert Barron, membro da Comissão de Liberdade Religiosa da Casa Branca e uma das vozes católicas conservadoras mais influentes dos Estados Unidos, declarou que Trump deve um pedido de desculpas ao Papa. Bill Donohue, presidente da Catholic League, chamou a imagem de IA em que Trump aparece como Cristo de extremamente ofensiva e imatura. O arcebispo Paul Coakley, presidente da Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, disse estar desalentado. Nenhum desses é crítico do governo Trump, pelo contrário, eles estão mais para aliados de primeira hora.

Criou-se, assim, uma configuração política com a qual Trump parece ter muita dificuldade para lidar. Por mais de uma vez, quando as tensões com a Igreja Católica aumentaram, Trump produziu imagens em que ele próprio se colocou com o líder religioso a ser seguido. Primeiro como papa, numa imagem criada às vésperas do conclave de 2025, e agora como Cristo.

Trump reage a Leão XIV como quem não suporta a existência de uma autoridade também legítima para sua própria base eleitoral. Por isso fabrica imagens em que tenta não apenas atacar o adversário, mas ocupar o seu lugar. Quanto mais Leão XIV antagoniza com Trump, mais o presidente americano quer suplantá-lo.

Francisco levava o presidente americano a se opor a ele. Leão XIV faz Trump querer ser o próprio pontífice ou mesmo querer virar Cristo. O problema é que no cristianismo o que Trump faz tem nome, blasfêmia.


Foto de capa:  Reproduções

Sobre o autor

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Rodrigo Toniol
Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências.

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