Desequilíbrios macroeconômicos, mudança estrutural e o atraso brasileiro: uma resposta à visão convencional

Última edição em maio 5, 2026, 07:26

translate

Desequilibrio económico monedas sobre una balanza

Por JOSÉ LUÍS OREIRO

Introdução

O presente artigo constitui uma resposta técnica e teórica à tese defendida pelo colunista Pedro Fernando Nery, na sua coluna publicada no Jornal O Estado de São Paulo em 04/05/2026 (Brasil fica para trás e amplia distância de PIB per capita em relação ao mundo – Estadão) sobre o fenômeno do “atraso brasileiro” (falling behind) nas últimas quatro décadas. Enquanto a visão convencional atribui a divergência do PIB per capita brasileiro em relação à média mundial prioritariamente a fatores microeconômicos e institucionais — como o ambiente de negócios e a qualificação genérica da mão de obra —, a evidência empírica produzida por mim e meus co-autores em estudos publicados na PSL Quarterly Review (2018-2022) aponta para um diagnóstico distinto e mais profundo.

O atraso brasileiro é aqui interpretado como o resultado de uma trajetória de desindustrialização precoce e semi-stagnação, cujas “causas próximas” são a baixa taxa de formação bruta de capital fixo, a redução drástica da participação da indústria de transformação no PIB e o alargamento do hiato de qualidade do emprego (Employment Quality Gap). Contudo, a análise demonstra que as “causas últimas” residem na manutenção de um regime de política macroeconômica disfuncional. Este regime, consolidado após o Plano Real, caracterizou-se por taxas de juros reais sistematicamente elevadas e uma taxa de câmbio cronicamente sobrevalorizada, que atuaram como um “imposto” sobre a competitividade industrial e a complexidade econômica.

As evidências apresentadas sugerem que a reversão deste quadro exige não apenas reformas microeconômicas, mas uma reorientação completa da macroeconomia para o desenvolvimento. As recomendações finais deste relatório focam na adoção de um regime de metas para a taxa de câmbio real (visando o equilíbrio industrial), a redução do custo do capital para estimular o investimento produtivo e a implementação de políticas industriais e educacionais voltadas para nichos de alta intensidade tecnológica, capazes de fechar o hiato de qualidade do emprego e reintegrar o Brasil às cadeias globais de valor com maior valor agregado.

A Divergência Brasileira e o Debate sobre a Produtividade

O Brasil enfrenta, desde o início da década de 1980, um processo contínuo de distanciamento em relação à trajetória de renda per capita das nações mais ricas e até de seus pares emergentes. Os dados são inequívocos: entre 1980 e 2025, enquanto o PIB per capita global saltou 675% em termos de Paridade de Poder de Compra (PPP), o indicador brasileiro cresceu apenas 428%. Este fenômeno, corretamente identificado por Pedro Fernando Nery como um “ficar para trás”, é o sintoma de uma crise de produtividade sistêmica. Entretanto, a interpretação de Nery concentra-se na “baixa qualificação da mão de obra” e no “ambiente de negócios caro” como os culpados fundamentais.

A perspectiva Keynesiano-Estruturalista aqui defendida argumenta que essa visão inverte a relação de causalidade. A baixa qualificação da mão de obra e o ambiente de negócios desfavorável são, em grande medida, consequências da atrofia do setor industrial e da baixa taxa de acumulação de capital, e não causas primárias independentes. Na tradição de Nicholas Kaldor e Raul Prebisch, o crescimento econômico é um processo de mudança estrutural no qual a produtividade é uma variável endógena, determinada pelo ritmo de expansão do produto industrial e pelo investimento incorporado em novas máquinas e equipamentos.

Para compreender por que o Brasil ficou preso na “armadilha da renda média”, é necessário analisar a estrutura produtiva. A produtividade da economia não cresce de forma homogênea; ela é puxada por setores que apresentam retornos crescentes de escala e intensos transbordamentos tecnológicos (spillovers). A indústria de transformação é o motor clássico desse processo. Quando um país desindustrializa-se precocemente — como o Brasil fez ao reduzir ao reduzir a participação de indústria de transformação de 18% para 12% do PIB antes de atingir a maturidade tecnológica —, ele perde a capacidade de absorver o progresso técnico mundial, resultando na estagnação da produtividade média.

A Indústria de Transformação como Motor do Crescimento: Evidências Transnacionais

Um dos pontos centrais da divergência teórica com a visão convencional é a negação da neutralidade setorial. Nossos estudos empíricos utilizando modelos de painel dinâmico (GMM) para 84 países entre 1990 e 2011 fornecem evidências robustas de que a manufatura é o setor transacionável mais importante para o crescimento da renda per capita em países em desenvolvimento. O coeficiente da participação industrial no PIB sobre o crescimento do produto per capita é positivo e estatisticamente significativo em todos os níveis de hiato tecnológico analisados.

Diferente do setor de serviços, que hoje domina 70% do PIB brasileiro mas apresenta produtividade estagnada desde 1995, a indústria oferece oportunidades únicas de ganhos de escala e difusão tecnológica. A transferência de recursos da agricultura para a indústria gera o chamado “bônus da mudança estrutural”, elevando a produtividade agregada automaticamente. Contudo, quando a economia move-se precocemente para os serviços, ela enfrenta o “ônus da mudança estrutural” ou “doença de Baumol”, onde a produtividade cresce mais lentamente devido à natureza das atividades de serviços, que são menos intensivas em capital e tecnologia.

A análise de multiplicadores de produto e emprego reforça essa tese. Em países em desenvolvimento, os multiplicadores da indústria de transformação são consistentemente mais elevados do que em economias desenvolvidas. Isso indica que a base industrial nesses países ainda possui um enorme potencial de arrastar o restante da economia através de elos produtivos para frente e para trás.

Tabela I – Multiplicadores de Produto e Emprego para Países Desenvolvidos e Em desenvolvimento

Grupos de Países (Média 2010)Multiplicador de Produto (Indústria)Multiplicador de Emprego (Indústria)
Países Desenvolvidos (N=28)1,6916
Países em Desenvolvimento (N=12)1,90111

Fonte: Elaborado com base em dados do WIOD e cálculos de Gabriel et al. (2020).

Os dados acima demonstram que, para cada unidade monetária de demanda final na indústria de transformação de um país em desenvolvimento, o impacto total na produção da economia é de 1,90 unidades, superior ao verificado em economias maduras. Além disso, o multiplicador de emprego é vastamente superior, refletindo tanto a maior intensidade de trabalho quanto a capacidade da indústria de gerar postos de trabalho indiretos em outros setores. O declínio prematuro dessa participação no Brasil, portanto, representa uma perda de dinamismo multiplicador que o setor de serviços, com elos mais fracos, não consegue suprir.

As Causas Próximas do Atraso: Investimento e Acumulação de Capital

A segunda causa próxima fundamental para o atraso brasileiro é a baixa taxa de formação bruta de capital físico. Segundo a perspectiva Keynesiano-Estruturalista, o desenvolvimento econômico é um processo no qual a acumulação de capital e a incorporação sistemática do progresso técnico permitem o aumento persistente da produtividade. No Brasil, observou-se uma queda drástica no ritmo de acumulação de capital a partir da década de 1990.

Enquanto na década de 1980 o estoque de capital crescia a uma taxa média de 7,3% ao ano, essa taxa despencou para 3,85% nos anos 1990 e para 2,98% nos anos 2000. Esse colapso no investimento não foi um acidente, mas o resultado de desequilíbrios nos preços macroeconômicos e de um regime de política econômica que restringiu a demanda agregada. O investimento em capital físico é uma função da taxa de lucro esperada e do custo do capital, mas também depende crucialmente do nível de utilização da capacidade produtiva (o princípio do acelerador).

A análise estatística da função de investimento para a economia brasileira (1995-2012) revela que a participação do investimento no PIB é positivamente influenciada pela utilização da capacidade e negativamente afetada pelo prêmio de risco-país (EMBI+) e pelas distorções na relação câmbio/salário.

Tabela II – Contabilidade do Crescimento da Economia Brasileira (1980-2012)

PeríodoCrescimento Médio do PIBTaxa de Investimento (Preços Correntes)Produtividade do Capital (σ)
1980-19841,51%21,26%0,72
1990-19941,17%20,35%0,63
2000-20042,97%17,04%0,57
2005-20093,52%17,81%0,58

Fonte: Dados de Ipeadata e PWT adaptados de Oreiro et al. (2018).1

Nota-se que a taxa de investimento caiu de patamares superiores a 21% para cerca de 17% nos períodos de baixo crescimento. O regime macroeconômico instaurado com o Plano Real em 1994, embora tenha debelado a inflação, utilizou a taxa de câmbio como âncora nominal e manteve juros reais em níveis estratosféricos para atrair capitais externos. Esse arranjo gerou uma sobrevalorização crônica do câmbio real, que destruiu as oportunidades de investimento lucrativo no setor industrial, levando à semi-stagnação. O crescimento moderado observado entre 2005 e 2009 foi impulsionado pelo boom de commodities e não por uma recuperação estrutural da taxa de investimento industrial.

O Hiato de Qualidade do Emprego como Medida do Atraso Tecnológico

A análise de Pedro Fernando Nery enfatiza a “baixa qualificação da mão de obra” como uma restrição à produtividade. No entanto, a literatura estruturalista propõe uma métrica mais sofisticada: o Hiato de Qualidade do Emprego (Employment Quality Gap – EQG). A hipótese central é que o hiato de renda per capita entre o Brasil e as nações desenvolvidas é explicado pela má alocação da força de trabalho em setores de baixa intensidade tecnológica.

O Índice de Qualidade do Emprego (EQI) mede a proporção de trabalhadores em setores de alta tecnologia em relação àqueles em setores de média e baixa tecnologia. O EQG, por sua vez, é a razão entre o EQI da fronteira tecnológica (EUA) e o EQI do país analisado.

A relação entre progresso técnico e emprego é direta: produtos complexos e sofisticados são produzidos por trabalhadores altamente qualificados em empresas que operam próximas à fronteira tecnológica. Esses setores apresentam maior valor agregado por trabalhador. No Brasil, o processo de desindustrialização precoce empurrou a força de trabalho para um setor de serviços de subsistência, caracterizado por baixa produtividade e baixos salários, o que Lewis (1954) descreveu como o setor tradicional de uma economia dual.

A Correlação entre Hiato de Emprego e Renda

Evidências econométricas baseadas em uma amostra de 47 países em desenvolvimento demonstram que existe uma relação positiva e estatisticamente significativa entre o EQG e o hiato de renda per capita (PCIG).

  1. Convergência Condicional: O fechamento do hiato de renda depende do aumento da produtividade do trabalho, que é função da mudança estrutural para setores intensivos em tecnologia.
  2. Dualidade Moderna: Em países como o Brasil, a dualidade manifesta-se entre um pequeno núcleo industrial moderno e uma vasta massa de trabalhadores em serviços não-sofisticados. Esse desequilíbrio impede a elevação dos salários reais médios, mantendo o país na “armadilha da renda média”.
  3. Capital Humano Endógeno: A oferta de empregos de alta qualidade gera incentivos para o investimento privado em educação e qualificação. Sem uma demanda industrial por trabalho sofisticado, os investimentos educacionais genéricos resultam em fuga de cérebros ou subutilização de diplomas em ocupações de baixa complexidade.

Portanto, o problema da qualificação apontado por Nery não é apenas de oferta educacional, mas de ausência de uma estrutura produtiva que demande e remunere adequadamente a alta qualificação. O fechamento do EQG requer políticas que estimulem a reindustrialização em nichos de alta complexidade.

Causas Últimas: O Regime Macroeconômico e a Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial

Se as causas próximas do atraso são o baixo investimento e a desindustrialização, as causas últimas residem no regime de política macroeconômica. A nova escola desenvolvimentista brasileira argumenta que a tendência à sobrevalorização crônica da taxa de câmbio é o principal obstáculo ao catching-up tecnológico. No Brasil, essa sobrevalorização decorre de dois fatores: a “doença holandesa” e a abertura financeira com juros elevados.

A Doença Holandesa e a Reprimarização das Exportações

A doença holandesa ocorre em países com abundância de recursos naturais, onde o baixo custo de produção de commodities gera rendas ricardianas que permitem a exportação lucrativa desses bens mesmo a taxas de câmbio muito apreciadas. Essa taxa de câmbio, no entanto, é inviável para a indústria de transformação, que opera com custos maiores e sem rendas naturais.

Observou-se no Brasil, especialmente entre 2005 e 2011, uma valorização do câmbio real impulsionada pelos preços elevados das commodities e pelos fluxos de capital atraídos pela Selic. O resultado foi uma alteração profunda na composição das exportações brasileiras.

Tabela III : Reprimarização da pauta de exportações do Brasil (2008-2014).

Composição das Exportações Brasileiras20082014Variação (%)
Produtos Primários37,88%50,06%+32,1%
Produtos Manufaturados48,08%36,65%-23,77%

Fonte: FUNCEX adaptado de Oreiro et al. (2020).

Essa “reprimarização” reduziu a complexidade econômica do Brasil. O Índice de Complexidade Econômica (ECI) do país caiu de 0,65 em 2005 para 0,24 em 2017. A perda de complexidade significa que o Brasil desaprendeu a produzir bens sofisticados, o que aumenta o hiato tecnológico e exige uma taxa de câmbio ainda mais depreciada para compensar a perda de competitividade não-preço.

A Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial (IEER)

Uma das maiores contribuições empíricas que eu fiz em conjunto com meus co-autores é a redefinição e cálculo da Taxa de Câmbio de Equilíbrio Industrial. Diferente da taxa de equilíbrio de conta corrente (que zera o déficit externo), a IEER é a taxa que, dado o hiato tecnológico atual, torna as empresas industriais domésticas competitivas frente aos seus rivais mundiais.

A análise econométrica demonstra que a sobrevalorização do câmbio real no Brasil atingiu níveis dramáticos. Em 2012, a taxa de câmbio efetiva estava cerca de 62% abaixo do nível de equilíbrio industrial necessário para manter a participação da manufatura no PIB. Dos 4,88 pontos percentuais de queda na participação industrial observados entre 2005 e 2017, cerca de 61% foram causados pela perda de competitividade não-preço (queda da complexidade tecnológica) e 39% pelo efeito direto da sobrevalorização cambial1 Isso prova que o “ficar para trás” é uma patologia macroeconômica que gera regressão estrutural.

Resposta aos Argumentos de Pedro Fernando Nery

Pedro Fernando Nery atribui o atraso brasileiro a quatro pilares: economia pouco integrada, ambiente de negócios hostil, incentivos inadequados e baixa qualificação. À luz das evidências estruturalistas apresentadas neste artigo, cada um desses pontos merece uma réplica:

  1. Integração Global: Nery sugere que a falta de abertura é o problema. Contudo, a abertura comercial dos anos 1990, feita sem uma taxa de câmbio competitiva e sem política industrial, foi justamente o que iniciou a desindustrialização precoce. O Brasil tornou-se um importador líquido de bens de alta tecnologia, perdendo capacidades produtivas internas.
  2. Ambiente de Negócios: Embora o “Custo Brasil” seja real, o fator que mais encarece o ambiente de negócios no longo prazo é a volatilidade cambial e as taxas de juros reais que inviabilizam o financiamento da produção. O capital prefere a liquidez rentista do mercado financeiro à incerteza do investimento fabril.
  3. Qualificação da Mão de Obra: Como demonstrado pela teoria do EQG, a qualificação é endógena à estrutura produtiva. Países como a Coreia do Sul não apenas educaram sua população, mas criaram uma indústria pujante que demandava e pagava por essa qualificação. No Brasil, educar sem reindustrializar é apenas uma forma de gerar desemprego qualificado ou subemprego em serviços.
  4. Incentivos Econômicos: Os incentivos mais inadequados na economia brasileira têm sido as metas de inflação perseguidas exclusivamente através de juros altos, que apreciam o câmbio e penalizam o investimento. Esse regime macroeconômico é o incentivo supremo para a especialização regressiva em commodities.

Em suma, o atraso não é o resultado de uma “falta de reformas microeconômicas” (embora estas possam até ser úteis), mas sim de um modelo de crescimento baseado em poupança externa que gerou uma armadilha de baixo crescimento e alta desigualdade.

Recomendações de Política Econômica

Para reverter o processo de falling behind e promover o catching-up, o Brasil deve adotar uma estratégia baseada no Novo Desenvolvimentismo, focando nos três objetivos solicitados.

1. Recomendações para Aumentar a Taxa de Investimento

Aumentar a taxa de investimento físico para níveis acima de 23% do PIB é imperativo para renovar o estoque de capital e incorporar progresso técnico.

  • Redução Drástica do Custo do Capital: É necessário alinhar a taxa de juros real livre de risco (Selic) aos padrões internacionais. Isso reduz o custo de oportunidade do investimento produtivo e diminui o ônus do serviço da dívida pública, liberando espaço fiscal para investimentos em infraestrutura.
  • Gestão Ativa da Demanda Agregada: O investimento privado é induzido pelo crescimento das vendas. O governo deve manter níveis elevados de utilização da capacidade produtiva através de políticas fiscais anticíclicas e de um robusto programa de investimento público em setores que gerem externalidades para a iniciativa privada.
  • Estabilidade Macroeconômica com Preços Corretos: O foco da política econômica deve ser a estabilização de dois preços fundamentais: a taxa de juros e a taxa de câmbio real. A redução da incerteza sobre esses preços é o melhor incentivo para o planejamento de longo prazo das empresas.

2. Recomendações para Reduzir o Hiato de Qualidade de Emprego (EQG)

Reduzir o EQG significa mudar a composição do emprego em direção a atividades que exijam e remunerem melhor o conhecimento científico e técnico.

  • Educação Técnica Especializada: A política educacional deve transcender o ensino genérico e focar na criação de centros de excelência tecnológica vinculados às necessidades específicas das indústrias locais (ex: biotecnologia, software, aeroespacial). A formação deve ser moldada pela demanda industrial sofisticada.
  • Incentivos à P&D e Inovação: Implementar subsídios diretos e créditos fiscais condicionados a resultados de inovação (patentes e novos processos). O objetivo é reduzir a distância entre a técnica utilizada pelas empresas brasileiras e a fronteira tecnológica norte-americana.
  • Soberania Tecnológica em Compras Públicas: Utilizar o poder de compra do Estado para fomentar o desenvolvimento de fornecedores nacionais em setores de alta complexidade, garantindo escala inicial para que empresas locais possam percorrer a curva de aprendizagem.

3. Recomendações para Aumentar a Participação da Indústria de Transformação no PIB

A reindustrialização é a única via para sustentar ganhos de produtividade autônomos.1

  • Adoção de Metas para a Taxa de Câmbio Real: O Banco Central deve abandonar a negligência benigna com o câmbio e adotar intervenções para manter a taxa real próxima ao nível de equilíbrio industrial. Isso neutraliza a doença holandesa e protege a manufatura nacional de competidores externos desleais que operam com câmbios subvalorizados.
  • Impostos sobre a Exportação de Commodities: Implementar tributação variável sobre exportações de bens primários em períodos de preços internacionais elevados. Os recursos devem ser destinados a um Fundo Soberano de Desenvolvimento Industrial, evitando que o fluxo de dólares aprecie excessivamente a moeda nacional.
  • Tarifas de Importação Estratégicas: Uso seletivo de tarifas para proteger setores nascentes ou estratégicos enquanto estes não atingem o nível de competitividade global. Essa proteção deve ser temporária e atrelada a metas verificáveis de aumento de produtividade e exportação por parte das empresas beneficiadas.
  • Fortalecimento da Complexidade Econômica: Fomentar a diversificação da pauta exportadora para produtos não-ubíquos. Quanto mais diversa e complexa for a estrutura produtiva, menor será a dependência da taxa de câmbio nominal para manter a competitividade, facilitando o controle inflacionário.

Considerações Finais

O atraso brasileiro não é uma fatalidade histórica, mas o subproduto de escolhas políticas e teóricas equivocadas que priorizaram a estabilidade financeira de curto prazo em detrimento da higidez da estrutura produtiva. A evidência empírica apresentada neste artigo, colhida de estudos transnacionais e análises detalhadas da economia brasileira, feitos por mim e meus co-autores, demonstra que sem uma indústria forte e uma taxa de câmbio competitiva, o Brasil continuará a “ficar para trás”.

A réplica aqui apresentada a Pedro Fernando Nery não nega a importância da educação ou do ambiente de negócios, mas coloca-os em sua devida ordem de precedência: eles florescem quando o regime macroeconômico permite que a produção seja lucrativa e que o investimento se transforme em progresso técnico incorporado. O Brasil precisa, urgentemente, de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento que coloque a reindustrialização e o fechamento do hiato de qualidade do emprego no centro da agenda, sob pena de ver sua distância em relação ao mundo civilizado ampliar-se de forma irreversível.

Referências Bibliográficas

GABRIEL, Luciano Ferreira; RIBEIRO, Luiz Carlos de Santana; JAYME JR, Frederico G.; OREIRO, José Luis da Costa. Manufacturing, economic growth, and real exchange rate: Empirical evidence in panel data and input-output multipliers. PSL Quarterly Review, v. 73, n. 292, p. 51-75, mar. 2020.

OREIRO, José Luis; D’AGOSTINI, Luciano Luiz Manarin; VIEIRA, Fabrício de Assis C.; CARVALHO, Luciano Dias de. Revisiting the growth of the Brazilian economy (1980-2012). PSL Quarterly Review, v. 71, n. 285, p. 203-229, 2018.

OREIRO, José Luis; D’AMATO, Stefan Wilson; D’AGOSTINI, Luciano Luiz Manarin; GALA, Paulo Sérgio de Oliveira Simões. Measuring the technological backwardness of middle- and low-income countries: The employment quality gap and its relationship with the per capita income gap. PSL Quarterly Review, v. 75, n. 301, p. 139-159, jun. 2022.

OREIRO, José Luis; MANARIN D’AGOSTINI, Luciano Luiz; GALA, Paulo. Deindustrialization, economic complexity and exchange rate overvaluation: the case of Brazil (1998-2017). PSL Quarterly Review, v. 73, n. 295, p. 313-341, dez. 2020.


Foto de capa: Reprodução

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-02-12 at 20.25.14
José Luis Oreiro
Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador nível I do CNPq.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático