ANÁLISE | O crepúsculo dos deuses no buffet livre

Última edição em maio 3, 2026, 02:42

translate

996ec3fe-83ee-44cd-bd04-8672eb4ae9f8

Degustei  Mario Vargas Llosa, em sua “Civilização do Espetáculo”, editora objetiva, edição 2013, que se encontrava esquecida em uma prateleira da pequena biblioteca.

É fascinante observar como a indignação de um Nobel pode ser tão aristocraticamente míope.

Ao reler “A Civilização do Espetáculo”, a sensação é a de encontrar um aristocrata caminhando pelas ruínas da cultura contemporânea como um lorde inglês que acaba de descobrir que a plebe agora frequenta o mesmo chá das cinco.

Seu diagnóstico é impecável na forma, mas curiosamente seletivo: para ele, o mundo não está apenas mudando; ele está acabando, simplesmente porque não se parece mais com a biblioteca de sua casa em Madri.

​A ironia é que Llosa parece ter “bebido a água” de Guy Debord e sua Sociedade do Espetáculo de 1967, mas o fez sem dar os devidos créditos à radicalidade do mestre situacionista.

Se em Debord o espetáculo era uma arma do capital para transformar a vida em representação passiva, em Llosa ele vira uma lamentação estética sobre o “fim da distinção”.

Onde o francês via alienação, o peruano vê falta de estilo.

​Llosa dedica páginas fervorosas ao lamento.

Chora a morte da alta cultura, o sepultamento do pensamento crítico sob a areia movediça do entretenimento e a transformação da política em um circo de variedades.

Contudo, quando o assunto é o que sobrou de bom, o autor sofre de uma súbita presbiopia intelectual.

As “ilhas de resistência” ganham dele apenas o espaço de um rodapé, quase como um consolo protocolar para não parecer um niilista completo.

​É o clássico cacoete do pessimista de gala: focar na mancha de gordura para ignorar que o banquete, embora caótico e ruidoso, continua sendo servido.

​A grande ironia reside no fato de que Llosa, ao ignorar a efervescência de novos centros de pensamento — que não precisam mais de selos acadêmicos centenários para validar uma ideia — acaba se tornando, ele próprio, uma peça do espetáculo que critica.

Ele encarna perfeitamente o papel do “Velho Sábio Amargo”, uma figura arquetípica que o público consome com o mesmo deleite efêmero que ele tanto despreza.

​Enquanto ele lamenta que ninguém mais lê Proust no metrô, milhares de “ilhas” digitais debatem ontologia em podcasts de três horas, ressuscitam clássicos em clubes de leitura globais e produzem crítica social em formatos que o autor, em seu pedestal de mármore, sequer consegue processar como “cultura”.

Para Llosa, a resistência só é legítima se usar fraque e falar latim.

​Ele ignora que o pensamento crítico não morreu; ele apenas trocou de endereço e, para desgosto dos puristas, agora se veste de forma muito mais casual.

Ao olhar apenas para o abismo que lhe convém, ele esquece de notar que há muita gente construindo pontes bem debaixo do seu nariz.

Mas, claro, pontes são utilitárias e barulhentas; elas não rendem um lamento tão elegante quanto um bom e velho apocalipse cultural de primeira classe.

Para compreender o diálogo implícito entre esses dois autores, é preciso notar que Llosa opera quase como um “herdeiro involuntário” de Debord.

Embora partam de campos ideológicos opostos — Debord do marxismo heterodoxo e situacionista, e Llosa de um liberalismo conservador — ambos diagnosticam a mesma patologia social: a substituição da substância pela superfície.

O encontro fundamental entre os dois escritores reside na percepção de que a imagem engoliu a vida.

Onde Debord, em 1967, identificava o espetáculo como o estágio supremo do capital (o momento em que a mercadoria se torna imagem), Llosa, décadas depois, observa a conclusão desse processo: uma civilização onde a diversão tornou-se o valor supremo.

Para ambos, o problema não é o entretenimento em si, mas o fato de que a realidade passou a ser validada apenas quando se torna um evento visual e consumível.

A diferença entre as concepções começa na raiz do problema.

Para Guy Debord, o espetáculo é uma ferramenta de controle político e econômico; é a alienação máxima que impede o indivíduo de agir sobre sua própria história.

Já para Vargas Llosa, a “civilização do espetáculo” é fruto de uma falha moral e do declínio da autoridade intelectual.

Llosa culpa o relaxamento dos padrões de ensino, o desaparecimento da elite cultural e até o enfraquecimento da religião como bússola ética, enquanto Debord foca suas baterias na estrutura do capitalismo avançado.

Essa diferença de apontamento de causas gera consequências distintas em suas obras.

Debord, preocupado com a passividade política: o espetáculo torna o cidadão um espectador incapaz de revolução.

Llosa, por sua vez, lamenta a banalização estética.

Ele se indigna com o fato de as artes plásticas, a literatura e até o sexo terem perdido sua profundidade e mistério para se tornarem produtos de consumo rápido e fácil.

Para o Nobel peruano, a tragédia é o fim da distinção entre o que é “belo” e o que é “vulgar”.

Mas, o desencontro mais evidente está no espírito de cada obra.

Debord escreve um manifesto teórico que visa implodir o sistema através da “construção de situações” e da retomada da vida real.

Seu tom é urgente, denso e revolucionário.

Já Llosa escreve uma elegia.

Seu tom é o de um cronista melancólico que observa o mundo de sua janela em Madri e percebe que os códigos que ele preza — a erudição, o rigor e a alta cultura — não são mais a moeda de troca do presente.

​Enquanto Debord tentava entender como o sistema nos aprisionou pela imagem para nos dominar, Llosa parece apenas reclamar que, nessa nova prisão, os guardas não têm bons modos e os prisioneiros não leem mais os clássicos.

O apontamento dessa diferença interpretativa é importante pois é uma das várias escolha do tipo de “lupa” que usamos para “ler” e entender os fenômenos sociais da atualidade.

E a escolha da lente interpretativa não é um mero exercício acadêmico; ela determina se enxergamos a encenação no palco ou as engrenagens que movem o cenário.

Quando a lupa foca apenas na “vulgaridade” estética ou na “perda de valores”, como faz o lamento aristocrático, ela ignora a reconfiguração pragmática do poder.

Enquanto críticos se perdem em elegias sobre o fim da alta cultura, o Estado, sob a fachada de sua solenidade institucional, passa por uma desconstrução silenciosa e eficiente.

Se tomarmos o marco de 1997 em Hong Kong como a transição para um realismo econômico implacável, percebemos que a “civilização do espetáculo” serve como a cortina de fumaça perfeita.

O Estado mantém o palco montado — as transferências de soberania, as sessões solenes, o rigor dos ritos — enquanto, nos bastidores, a realidade operacional é de fragmentação.

A lupa correta revela que o Leviatã não está sendo derrubado por revoluções externas, mas desmembrado por dentro.

No cenário brasileiro, essa desconstrução manifesta-se na metamorfose do orçamento.

O que deveria ser o plano macro de uma nação torna-se o microgerenciamento de interesses individuais.

Através do mecanismo das emendas impositivas, o poder migra da estratégia de Estado para a tática paroquial.

Cada real desviado da grande política nacional para o asfaltamento de uma rua eleitoralmente estratégica é um tijolo retirado da fundação do bem-estar social.

Aqui, o espetáculo é a “briga ideológica” no plenário, enquanto a substância é a distribuição capilar de recursos que esvazia o conteúdo social do Estado.

​Portanto, a consequência de usar uma lupa inadequada — seja ela o saudosismo de Llosa ou o anacronismo de quem lê o século XXI com manuais do século XX — é a cegueira diante da nova lógica de dominação.

O risco real ao bem-estar social não é a ausência teórica do Estado, mas sua presença sequestrada.

Um Estado que mantém a pompa institucional para facilitar fluxos financeiros e interesses de grupos, enquanto entrega a gestão da realidade a “agentes individuais” e mecanismos de orçamento fragmentado, é um Estado que já não pertence à cidadania, mas ao espetáculo da própria liquidação.

​Ao fim, enquanto o “Velho Sábio” reclama da falta de latim, os verdadeiros ponteiros do poder são movidos em silêncio, sob o barulho ensurdecedor de uma civilização que prefere a imagem da soberania à sua prática efetiva.

A jornada entre Llosa e Debord nos ensina, portanto, que o mundo contemporâneo é um território de múltiplas visões, onde o que se vê depende inteiramente da ferramenta que se empunha.

Resta ao crítico, ao analista e ao pensador a tarefa fundamental de discernir entre as lupas disponíveis: se apegam-se às lentes velhas e desgastadas pelo saudosismo aristocrático — que enxerga apenas o fim de um estilo de vida — ou se buscam as novas lupas, capazes de atravessar a névoa do entretenimento para enxergar as engrenagens brutas que redefinem o poder e a existência sob nossos pés.

No buffet livre da modernidade, o perigo não é a falta de opções, mas a insistência em observar o banquete com os olhos de quem ainda espera ser servido à mesa.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

WhatsApp Image 2026-04-28 at 17.46.12
Gastão Bertim Ponsi
Advogado, escritor e ensaísta gaúcho, com atuação destacada na região das Missões, especialmente em São Borja, onde construiu uma carreira marcada pela defesa de trabalhadores, pela reflexão crítica sobre as instituições brasileiras e pela observação atenta das dinâmicas sociais da fronteira. Paralelamente à advocacia, desenvolveu uma produção intelectual que transita entre o ensaio, a crônica e a análise estrutural do Estado brasileiro.

Receba as novidades no seu email

* indica obrigatório

Intuit Mailchimp

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaoportalred@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia..

Gostou do texto? Tem críticas, correções ou complementações a fazer? Quer elogiar?

Deixe aqui o seu comentário.

Os comentários não representam a opinião da RED. A responsabilidade é do comentador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou do Conteúdo?

Considere apoiar o trabalho da RED para que possamos continuar produzindo

Toda ajuda é bem vinda! Faça uma contribuição única ou doe um valor mensalmente

Informação, Análise e Diálogo no Campo Democrático

Faça Parte do Nosso Grupo de Whatsapp

Fique por dentro das notícias e do debate democrático