Bonsai econômico | Por Henrique Morrone

Última edição em maio 8, 2026, 01:58

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Dizem que o país precisa crescer.

Desde que seja para um lado.

Para quê mexer na mesa inclinada, se ela já facilita o jogo?

Um conhece a declividade.

O outro acredita na neutralidade das regras.

Outros, mais zelosos, falam em crescer com responsabilidade.

Há ainda os que preferem algo mais modesto: crescer pouco, mas crescer agarrado nas bordas do passado.

Cultivando a economia como quem cuida de um bonsai.

Amputamos excessos. Refreamos impulsos. Disciplinamos os galhos que se rebelam.

Nada escapa.

Só a desigualdade, que escorre — feito churume — nutrindo galhos e exigindo mais poda.

Há quem veja nisso um ideal.

O sonho — bem passado, alinhado, bem contido.

O bonsai não é pequeno por natureza.

Ele foi sistematicamente reprimido.

Suas raízes, dilaceradas.

Seu horizonte, encarcerado no vaso.

E ainda assim, admiramos.

Como se fosse natural.

Chamamos de estabilidade o que é privação.

No bonsai econômico, nada cresce o suficiente para romper o vaso.

Não faltam sementes.

Falta espaço.

Discutimos os galhos, evitamos o vaso.

E o vaso permanece intocado — foi embutido.

E, como todo embuste, poderia ser diferente.

No país do bonsai, misturamos limite com paisagem.

Expansão passa por excesso.

E a poda, inevitável.

Porque o problema nunca foi o excesso dos galhos.

Foi o tamanho do recipiente.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

Homem de barba sorrindo ao ar livre
Henrique Morrone
Professor UFRGS.

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