Por Solon Saldanha *
Relatório anual do Sipri aponta o 11º ano consecutivo de expansão orçamentária para fins bélicos no mundo. No Brasil, o investimento saltou 13% em 2025, impulsionado por tecnologia naval e custos de pessoal, enquanto o cenário internacional é pressionado por conflitos na Europa e tensões na Ásia.
O panorama global e a retração momentânea dos EUA
O mundo atingiu um patamar inédito de investimentos em defesa em 2025, totalizando US$ 2,88 trilhões — cifra que supera o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri), o crescimento global foi de 2,9% em termos reais, apesar de uma queda atípica nos gastos dos Estados Unidos.
A redução de 7,5% no orçamento norte-americano, que somou US$ 954 bilhões, foi reflexo direto da ausência de novos pacotes de ajuda financeira à Ucrânia durante o último ano. No entanto, o Sipri alerta que a retração é temporária: o Congresso dos EUA já aprovou mais de US$ 1 trilhão para 2026, com projeções de chegar a US$ 1,5 trilhão em 2027 sob o governo de Donald Trump. O foco de Washington desloca-se para a modernização nuclear e a dissuasão da influência chinesa no Indo-Pacífico.
Brasil amplia investimentos em tecnologia naval
O Brasil manteve a 21ª posição no ranking mundial de orçamentos militares, mas registrou uma alta expressiva de 13% em 2025, alcançando US$ 23,9 bilhões. Esse incremento foi o principal motor para o crescimento dos gastos na América do Sul, que totalizaram US$ 56,3 bilhões.
De acordo com os pesquisadores, o avanço brasileiro justifica-se pelo aporte em desenvolvimento tecnológico na Marinha e pela elevação dos custos com pessoal. Apesar do salto anual, o peso das forças armadas na economia brasileira mostra estabilidade no longo prazo: em 2016, os gastos representavam 1,3% do PIB, caindo para 1,1% em 2025. Na região, a Guiana também se destacou com aumento de 16% em seus gastos, motivada pelo impasse com a Venezuela sobre o território de Essequibo.
Europa e Ásia em ritmo de rearmamento
A Europa registrou o maior aumento anual desde o fim da Guerra Fria (14%), somando US$ 864 bilhões. O continente vive uma corrida armamentista interna:
- Alemanha: Elevou seus gastos em 24%, ultrapassando a meta de 2% do PIB pela primeira vez em décadas.
- Espanha: Registrou um salto de 50% em investimentos bélicos.
- Rússia e Ucrânia: Ambos os países atingiram os maiores níveis históricos de gastos governamentais voltados à guerra. Moscou destinou 7,5% do seu PIB para a defesa (US$ 190 bilhões), enquanto Kiev empenhou 40% de sua riqueza nacional (US$ 84,1 bilhões) no conflito.
Na Ásia, a China completou seu 31º ano consecutivo de expansão militar, com um aumento de 7,4%. O movimento chinês gera um efeito cascata em aliados dos EUA como Japão e Austrália, que elevaram seus orçamentos diante da incerteza sobre a continuidade do apoio norte-americano e das pressões da gestão Trump por uma maior divisão de custos na segurança regional.
Estabilidade relativa no Oriente Médio
Contrariando a tendência de outros continentes, o Oriente Médio apresentou uma variação tímida de 0,1%. Israel reduziu seus gastos em 4,9% após acordos de cessar-fogo em Gaza no início de 2025, embora o patamar atual ainda seja quase o dobro do registrado antes de 2022. O Irã também viu seu orçamento real encolher 5,6% devido à inflação galopante de 42%, embora o Sipri ressalte que Teerã utiliza receitas extraorçamentárias do petróleo para financiar programas de drones e mísseis, o que torna os dados oficiais imprecisos.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Ilustração gerada por IA




