Por Solon Saldanha *
Presidente dos Estados Unidos tenta capitalizar politicamente o ataque ocorrido durante o jantar dos correspondentes, mas enfrenta resistência de um eleitorado pressionado pela inflação e pelo desgaste do governo em frentes externas e internas.
Reação imediata e teorias da conspiração
Sob o lema “o espetáculo não pode parar”, Donald Trump buscou demonstrar vigor físico e resiliência após o atentado ocorrido no último sábado (26). Mesmo orientado pelo Serviço Secreto a abandonar o evento no Hotel Hilton, o republicano insistiu na manutenção da agenda, estratégia que culminou em uma entrevista explosiva ao programa “60 Minutes”, da rede CBS. No encontro, Trump rebateu com indignação questionamentos sobre o manifesto do atirador, Cole Tomas Allen, que mencionava temas sensíveis como o caso Jeffrey Epstein, e negou que o episódio tenha sido uma encenação para angariar votos. O que não impediu que a suspeita persistisse.
O ataque feriu a tiros um agente federal e aparentemente tinha como alvos potenciais não apenas o presidente, mas figuras centrais do gabinete, como o vice-presidente JD Vance e o diretor do FBI, Kash Patel. A agência liderada por Patel, inclusive, vive uma crise institucional após reportagens apontarem comportamentos erráticos de seu comandante, o que amplia as dúvidas sobre a eficácia da contra-inteligência americana sob a atual gestão.
Desgaste econômico e o desafio das urnas
A seis meses das eleições legislativas de novembro, o governo Trump 2.0 amarga índices de aprovação em queda. O apoio dos eleitores independentes, crucial para a manutenção da maioria no Congresso, tem sido erodido pela percepção de promessas não cumpridas. A inflação persistente e a alta de 50% no preço dos combustíveis — reflexo direto das desnecessárias tensões com o Irã — pesam mais na decisão do voto do que os gestos de bravura forçada do mandatário.
Diferente de 2024, quando a campanha republicana explorava a fragilidade cognitiva de Joe Biden e a crise migratória, o cenário atual coloca Trump como o principal responsável pela paralisia burocrática e pelo envolvimento em “guerras sem fim”. O eleitorado, agora, cobra soluções práticas para o custo de vida e questiona a segurança do país.
Falhas de segurança e futuro institucional
O episódio levanta interrogações críticas sobre o aparato de proteção da Casa Branca. Autoridades e a opinião pública exigem respostas sobre como o suspeito atravessou o país, vindo da Califórnia, e conseguiu se hospedar no local do evento com armamento sem ser detectado.
Enquanto o governo tenta focar no “heroísmo” presidencial, o debate nacional se desloca para a competência da administração em prevenir a violência política. O resultado das urnas em novembro dirá se o atentado serviu como combustível para a base conservadora ou se foi apenas mais um capítulo de um país polarizado e ancorado em crises que o trumpismo prometeu, mas ainda não conseguiu, superar.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Donald Trump. Crédito: reprodução New York Times




