A Conquista do leste

Última edição em abril 22, 2026, 03:20

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Eu via na adolescência os filmes em que os Estados Unidos imortalizaram sua Conquista ou Marcha para o Oeste. Sempre em filmes épicos, como os de John Ford, o mestre do western, que com O Homem que Matou o Facínora (The Searchers), nos apresenta a icônica figura de Ethan Edwards (John Wayne), um cowboy solitário em busca de vingança e justiça. Depois vieram filmes como “Dança com Lobos”, de Kevin Costner, que nos transportavam para vastas planícies, onde personagens como o Tenente Dunbar enfrentavam desafios titânicos em busca de redenção e pertencimento.   Eles representavam a essência de uma nação em expansão, em que a bravura e a determinação moldaram o destino de uma geração. Era a Caminhada para o Oeste que, mais do que um capítulo da história americana, era um legado de coragem e liberdade. Ou ao menos é isso que nos quer fazer acreditar a ideologia americana. Eu entrei no curso de História e descobri que, na verdade, foi um processo expansionista colonialista marcado pela violência, racismo e genocídio dos povos indígenas, escondido pelo mito romântico do pioneiro heroico num movimento de despojamento de terras nativas e imposição de um capitalismo agrário.  Esse processo foi realizado por meio de massacres e deslocamentos forçados, que tinham como objetivo liberar terras para colonos e ferrovias, beneficiando as elites capitalistas de Norte a Sul.

Estudei a história das cidades e de Porto Alegre em especial, mas é a primeira vez que estudo a história das praias. A inspiração é Cidreira, onde estou após minha aposentadoria. E descubro que, de certa forma, nós tivemos também nossa conquista ou caminhada. A nossa não foi para o Oeste; ao contrário, foi para Leste. A caminhada do Leste foi a conquista da… praia! É a conquista do litoral, um processo inserido no Antigo Sistema Colonial e que se prolongou no desenvolvimento urbano-capitalista do estado. Aqui, pistoleiros são substituídos por tropeiros; as vastas planícies do centro-americano são substituídas pela Encosta Inferior do Nordeste, da Depressão dos Tapes até a Planície Costeira: sai o cenário desértico e entra a imagem de lagoas, dunas e restingas do litoral. Ao contrário dos Estados Unidos, cuja história mostrei em meu livro Estados Unidos: da conquista ao coronavírus (Clube dos Autores), a Conquista do Leste gaúcho não foi objeto de grandes filmes, embora alguns se destaquem por se passarem em Cidreira. No entanto, ambos os processos de marcha refletem sociedades em expansão, seja a americana ou a gaúcha. Nossa caminhada para o Leste pode até ter sido imaginada, marcada pela coragem e liberdade, mas foi um produto da expansão em direção ao sul do país e da exploração de sua economia; ambos os processos compartilharam um contexto de violência contra os nativos para a imposição de uma economia agrária, centrada na pecuária. Esses processos dividiram a região Sul do país: um interior agrícola e uma capital que sofreu um processo de industrialização, deixaram regiões em segundo plano. Uma delas foi o litoral. Esse processo expansionista foi caracterizado pela expulsão da terra de seus habitantes originais para a colonização e ocupação, mais intensa e rápida no interior, principalmente na serra; mais lenta e rarefeita no litoral.     

A marcha para leste, a gaúcha 

Para entender a Marcha para o Leste, a gaúcha, é preciso retomar a história do litoral. Faço-o a partir de Cidreira, onde estou como aposentado, ainda que existem outras praias a partir das quais essa história possa ser reconstruída. As cidades praianas tiveram um importante papel nesse processo de conquista do litoral ao longo de dois séculos. Não vou inventar a roda. Retomo argumentos da melhor obra de referência que encontrei sobre a história de Cidreira, de autoria de Ivan Therra: Praia de Cidreira: história, cotidiano, cultura e sentimento (Casa de Cultura do Litoral, 2007), que é, de longe, o resultado de um pesquisador diletante sobre uma realidade inexplorada. Talvez por não ter os vícios da escrita acadêmica, seja uma referência importante. Talvez, simplesmente por ter participado de sua história, Therra reuniu as pré-condições para um estudo dessa envergadura: capacidade de reunir pesquisas, estudos e relatos sobre a história da praia desde 1995. Therra é mais conhecido por ser autor de composições premiadas em festivais de música, junto com Elton Saldanha. Ele veio para Cidreira nesta época e gostou da musicalidade da cidade, da sua cultura popular, e iniciou seus estudos sobre a história da praia. Como discípulo de Mestre Julinho, um personagem da praia, ele aprendeu ritmos, a singularidade da cultura praieira e a contribuição do negro no litoral.

É ele quem narra para mim a história de Cidreira, e eu apenas reproduzo os fatos e documentos que ele compilou na minha visão. Segundo ele, a história de nosso litoral começa muito longe, na migração de três grandes grupos. Os primeiros habitantes da praia foram os caçadores-coletores que, há cerca de três mil anos, migraram da serra para o litoral para diversificar sua alimentação. Eles foram seguidos pelo segundo grupo da chamada tradição taquara, agricultores ceramistas que se deslocaram para o litoral em grupos maiores, dividindo suas moradias entre cavernas e casas subterrâneas. Finalmente, o terceiro grupo veio da Amazônia. Os tupis-guaranis, chamados por Therra de “imperialistas”, chegaram ao litoral pelo Rio Jacuí, ocupando as várzeas e instalando-se na superfície dos sambaquis. Eles foram seguidos pelos índios Carijós, que viviam no Sul e migravam para a beira da praia para coletar moluscos e pescar, estendendo-se, segundo Therra, desde a entrada de Rio Grande até o Paraná. Therra destaca o encontro do navegador Caboto com os carijós, em 1527, em Laguna, que ficou famoso, pois ocorreu enquanto ele rumava ao Rio da Prata e foi abastecido em sua viagem.   Como no Oeste Americano, o Leste gaúcho possuía populações originais. Mas elas se tornaram, assim como no caso americano, vítimas de um processo expansionista fatal.

A praia no Antigo Sistema Colonial

Esse processo ficou conhecido como Antigo Sistema Colonial, ummodelo de dominação europeia sobre o território brasileiro entre os séculos XVI e início do XIX, caracterizado pela subordinação econômica das colônias às metrópoles para acumulação de capital mercantilista. Envolvia o exclusivo comercial, que restringia o comércio colonial à metrópole exclusiva, com produção voltada à exportação de matérias-primas (açúcar, ouro, tabaco) e metais preciosos, usando mão de obra escravizada ou indígena. Havia controle político-administrativo centralizado, com governadores nomeados e pacto colonial que impedia manufaturas locais para evitar concorrência europeia. O Brasil português organizou-se em torno do açúcar (Nordeste) e mineração (Minas Gerais), integrando as colônias ao Antigo Regime absolutista, com transferência de excedentes para a Europa via monopólios e fiscalidade. A região Sul abastecia as demais, e o Rio Grande do Sul, em especial, mais tarde envolve-se nesse sistema de exploração.

É que, no período de colonização do Brasil, a região de Cidreira ficava além das terras de Portugal definidas pelo Tratado de Tordesilhas, mas numa região estratégica que servia como o caminho litorâneo até a Colônia de Sacramento. O primeiro proprietário de terras riograndenses que se tem notícia é Salvador Correa de Sá, que solicita ao rei as terras até o paralelo 30, onde se localiza o litoral gaúcho e onde será erguida no futuro a cidade de Cidreira; no entanto, somente a construção da Colônia do Sacramento, em 1680, dará um significado à rota do litoral do RS onde está a praia. Ao longo desse período, o litoral gaúcho, ainda que não oficialmente, foi intensamente explorado por aventureiros espanhóis, por escravagistas paulistas que vinham capturar silvícolas, por missionários portugueses, por jesuítas espanhóis e por posseiros oriundos de Buenos Aires e Assunção. Nessa exploração, nasce o Caminho da Praia, “roteiro pelo qual eram conduzidas, pelos tropeiros do litoral, milhares de cabeças de gado rumando para São Paulo e Minas Gerais” (p. 19).

Os caminhos do litoral

Therra cita o “tropeiro do litoral” como uma das figuras fundadoras do gaúcho. O tropeiro passou pelos Campos das Cidreiras, e o caminho da praia foi o primeiro caminho de tropas do Rio Grande do Sul. O gado era capturado nos campos missioneiros, e os tropeiros retornavam pelo mesmo caminho, percorrendo de ponta a ponta todo o nosso litoral. “É possível que a região rural de Cidreiras, conhecida como Fortaleza, tenha recebido esse nome por ter sido um dos postos fiscais onde uma patrulha montou uma fortaleza para aguardar os tropeiros. Daí o nome vigente até hoje como Fortaleza” (p. 22). Em um didático mapa, Therra identifica as principais fazendas e estâncias localizadas entre São José do Norte e Laguna, que incluem: Fazenda e Lagoa do Bujuru, Estância dos Tavares, freguesia de São Luiz de Mostardas, Estância e Lagoa do Quintão, Estância e Lagoa das Cidreiras, e Freguesia de São Domingos das Torres.

Uma das referências utilizadas por Therra para demonstrar como a geografia atravessa o tempo é o nome das paragens. A sesmaria Paragem das Conchas faz referência a um sambaqui que existia no local e foi a primeira sesmaria doada no litoral gaúcho.   O sambaqui de Arroio do Sal e o de Cabras, em Cidreira, são registrados por Roquete Pinto já em 1906, junto com a Paragem das Conchas. Infelizmente, diz Therra, “a maioria dos sambaquis que existiam ao longo da orla marítima do Rio Grande do Sul foi depredada e destruída, principalmente pela especulação imobiliária, que loteou e transformou em terrenos para venda o que hoje seriam importantes sítios arqueológicos” (p. 24). Se tivessem sido preservadas, hoje teriam valor histórico e turístico.

Origens do nome Cidreira

Therra lista duas hipóteses sobre a origem do nome Cidreira: a primeira é a região de Cidreira, nas Ilhas dos Açores, relacionada aos povos que aqui se instalaram; a segunda é a erva cidreira, que existia na época. No entanto, o autor refuta essa última hipótese, pois a planta é exótica e foi trazida pelos colonizadores, o que impossibilita que os habitantes locais a tenham encontrado aqui.   Por outro lado, a existência de uma planta com o mesmo cheiro e nome, chamada “Capim Cidreira”, é uma hipótese mais consistente. “Nossa região, desde os primórdios da história, ficou conhecida por vários nomes, mas sempre manteve a singularidade de ser chamada de Cidreira. São eles Campos das Cidreiras, Estrada das Cidreiras, Curral das Cidreiras, Paragem das Cidreiras, Estância das Cidreiras, Fazenda das Cidreiras, Praia da Cidreira e, finalmente, Cidreira” (p. 25).

Therra também aponta que, em 1767, a Sesmaria de Cidreiras possuía 4,5 léguas de frente e 2,5 léguas de orla, composta pelas estâncias da Cerquinha, Rondinha, Roça Vermelha, Estância da Ponta do Mato e Estância da Porteira, que lembram algumas regiões que são percorridas atualmente para se chegar a Cidreira. Ela estava então a mais de 1,5 léguas da Estância de Quintão.   Os colonos açorianos que vieram de Laguna estabeleceram-se nos locais que os tropeiros usavam como paragem, como Torres, Tramandaí, Imbé, Vila da Serra (Osório), Palmares, Capivari e Cidreira, e então na zona rural, denominada Fortaleza. Therra também identifica a herança negra na colonização do litoral, especificamente nos Maçambiques do Morro Alto, de origem banta, e menciona que, em Cidreira, até o final dos anos 60, existiam duas vilas africanas: a Vila da Viola e a Vila da Fumaça, localizadas nas imediações do atual Centro Popular de Cultura de Cidreira (CPC), hoje em ruínas, onde residiam negros e descendentes diretos dos escravos oriundos das plantações de cana de açúcar. Entre as duas vilas, morava o Mestre Tobias, um negro pescador que fabricava instrumentos musicais e ensinava crianças das vilas a tocar e cantar” (p.33). Eu me recordo de Paixão Cortes citar o Maçambique, que ele também estudou, enquanto Therra valoriza sua contribuição e menciona os descendentes da Rainha Africana “Nzinga Bandi” em Cidreira.

Cidreira na Revolução Farroupilha

Durante a Revolução Farroupilha, os campos de Cidreira foram um ponto de passagem dos lanchões de Giuseppe Garibaldi, que realizavam uma viagem por terra até a Barra do Rio Tramandaí, onde a região serviu como local de acampamento. Após um período de abandono, as terras litorâneas de Cidreira se resumiam ao Rancho dos Saraiva, localizado na Fortaleza, zona rural de Cidreira. “O lugar onde foi iniciado o Rancho dos Saraiva é a célula criadora do Município de Cidreira” (p. 37), diz Therra.   A construção humilde, com chão batido, passou a receber famílias que vinham para a Estância das Cidreiras, iniciando assim a era dos veraneios. Foram construídas pequenas cabanas de madeira com teto de palha para abrigar as famílias que começavam a vir para a praia de Cidreira. A partir dos anos 1800, as pessoas começaram a chegar de carretas para passar temporadas de verão na região. É “a mais antiga praia do Estado do Rio Grande do Sul”, diz Therra. Inicialmente, a motivação era o tratamento de saúde, mas logo ganhou um caráter de lazer familiar. E Therra registra uma passagem de Roquete Pinto por Cidreira em 1906: “Na praia de Cidreira não se vê a menor vegetação. Diante do mar, aí sempre muito batido, no imenso areal, erguem-se cerca de 20 choupanas de madeira, cobertas de palha, onde, nos meses de verão, algumas pessoas de Porto Alegre vêm habitar, trazendo consigo o indispensável à vida” (p. 40).

Os demais balneários só eram alcançados a partir de Cidreira, como Tramandaí, Quintão ou Torres. Era um ponto central de dispersão no caminho para as praias. Ia-se da Várzea, atual Parque Farroupilha, até Cidreira, por um transporte feito por carretas de boi contratadas por Juca Saraiva ou membros da Família Fraga. “Descansados os animais, procedia-se ao transporte dos veranistas à Cidreira, em viagem que durava por volta de cinco dias, toda feita em comboio”. As viagens de carreta, apesar de longas, possuíam uma sociabilidade própria. Paulino Barcellos anota na Revista Gaivota, em 1939, citada por Therra, que “era um convívio alegre e prazenteiro entre aqueles que faziam parte da mesma comitiva. Se entre os membros da comitiva houvesse alguém que tocasse violão, o que era frequente, a alegria era ainda maior, especialmente com a serenata que se fazia aos moradores das outras carretas que estavam em pouso adiante” (p. 41).

A evolução dos transportes

Com o tempo, as carretas foram substituídas pelas diligências, que eram mais leves e podiam acomodar até 15 lugares, serviço prestado por Timóteo Terra, estabelecido em Cidreira. As diligências puxadas por dez cavalos faziam o trajeto em dois dias e, eventualmente, até 24 horas. A partir de 1919, os veículos Ford Bigode começaram a fazer o caminho do litoral, constituindo-se em modernos veículos; no entanto, nem sempre isso dava certo, pois havia momentos em que os automóveis atolavam ao longo do caminho para a praia. Os serviços de transporte são oferecidos em duas modalidades porque quando o carro não consegue prosseguir, ele é substituído pela diligência.

Uma modalidade de transporte, o tráfego mútuo, foi estabelecida com a construção, em 1921, da Estrada de Ferro entre Palmares e Osório. “Os veranistas vinham de Porto Alegre, de navio, até Palmares, onde pegavam o trem para Osório. Aqueles que queriam ir para Cidreira desciam nas Pitangueiras e, de lá, vinham de carreta pelos campos e dunas até Cidreira” (p. 45).   Therra é minucioso ao anotar os sucessivos meios de transporte para as praias ao longo do século XX; afinal, este é o principal obstáculo ao veraneio. Ele menciona que, nos anos de 1922, a empresa de Domingos Cardoso disponibilizou o barco a vapor Camaquam, que fazia a rota de Poro Alegre até Palmares via fluvial, e, em seguida, os veranistas podiam continuar a viagem de auto-bond e diligência até Cidreira; posteriormente, diversas empresas de automóveis ofereceram seus serviços de transporte para Cidreira com carros de 5 a 7 lugares. A empresa de Autos Internacional é seguida pela empresa de Auto-Bonds Therezópolis e, em 1927, a Varig lançou um hidroavião, batizado de “Gaúcho”, que voava para o litoral norte com destino a Cidreira, Tramandaí e Torres, com capacidade para 6 passageiros. Eles pousavam na barra de Imbé, por ser calma, e vinham de ônibus pela beira da praia até Cidreira.  Era um serviço para as elites que viajavam para Tramandaí. Empresas de transporte coletivo por ônibus já existiam desde 1931, como a empresa Piedade, que oferece transporte para as praias de Tramandaí, Cidreira e Capão da Canoa.  

A viagem é a nossa conquista.

Therra preserva uma notável crônica, publicada no jornal O Correio do Povo em 1934, que narra as peripécias das viagens desse tipo para Cidreira. Essa aventura começava em Viamão e incluía diversos postos avançados, as cobranças das porteiras, o posto Canquerino, que aguardava os viajantes para um café, a ansiedade para chegar à praia, a ponte do rio Capivary, os atoleiros e a estrada ruim, marcada pelo abandono deste trecho. “Um enorme lodaçal barrento, viscoso, segura ao solo o carro. A estrada não é uma estrada de verdade. É um atolador tremendo. Um viveiro de tatus… E assim, pouco a pouco, encontramos, neste percurso difícil, mais quatro carros atolados, aterrados até o eixo; alguns já estavam abandonados, sem passageiros, que se refugiaram no Canquerino em busca de socorro. E lembramo-nos de que mais de mil pessoas fogem do calor de Porto Alegre para Cidreira, onde as aguarda o martírio desta jornada” (p. 52).

Assim, todo o esforço era voltado para a conquista do mar que o leste representava. Segundo Sandra Pesavento, o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul na primeira metade do século XX era marcado por um modelo pecuarista-charqueador no Sul, com colonização agrícola no Norte, mas com o litoral norte em relativa estagnação e periferização. O RS vivia uma economia tradicional, centrada na pecuária extensiva e charque (sul/Campanha), trigo e policultura colonial (vales e encostas da Serra Geral), com Porto Alegre emergindo como polo urbano-industrial inicial. Pesavento destaca a transição vagarosa para diversificação, impulsionada por imigração alemã/açoriana e infraestruturas lacustres/terrestres, mas com crises no escoamento e dependência de rotas internas. O litoral norte (Torres a Osório/Tramandaí) era atrasado com sua pecuária extensiva, arrozais em propriedades reduzidas, sem indústria, com núcleos raros e isolados por deficiências de comunicação. Hoje, pode-se ver a agricultura se desenvolvendo ao longo do caminho que leva às praias. Foi a indústria turística que deu impulso sazonal à região com a realização do veraneio da população em balneários. A valorização de banhos medicinais e lazer da elite dependia de transportes precários; o cenário econômico litorâneo desenvolveu-se como espaço secundário em relação à dinâmica industrializante do Norte do estado.  

A função medicinal

Como se tratava de banhos medicinais, a população preferia os horários das 5 horas da manhã e 5 horas da tarde, pois acreditava-se que o sal e o iodo estavam mais presentes na água. Segundo Therra, os banhistas entravam sempre em grupos de mãos dadas para não serem surpreendidos pelas ondas ou pelo repuxo. Molhavam os pulsos e a nuca e, para evitar o choque térmico, tomavam três goles de água do mar. Quando a espuma, produzida pelas ondas, apresentava aquela coloração barrenta, tipo chocolate, os banhistas passavam pelo corpo para tonificar os músculos. Hoje é motivo de rejeição e crítica da praia. Muitos curavam-se de artrite, reumatismo e varizes, diz o pesquisador. “O ar marítimo também era muito recomendado para aqueles que tinham problemas pulmonares” (p. 54). Foi só mais tarde que a finalidade de tratamento de saúde se transformou em uma finalidade de lazer, com a criação de uma infraestrutura baseada em hotéis que recebiam a população, em que os banhistas usavam trajes de banho e eram protegidos por uma espécie de biombo feito de palha e, posteriormente, de madeira, de cada hotel.

Os banhos de mar lançaram moda. Os trajes eram feitos de “baeta”, um tecido grosso de lã para não aderir ao corpo molhado. Os trajes incluíam um debrum branco, uma espécie de bata sobre as bermudas ou macacões até o joelho. Além do chapéu de palha para proteger do sol. No ano de 1927, em Cidreira, o arquiteto Ahrons usou pela primeira vez um traje de banho feito de malha, trazido da Europa. “O fato causou um grande espanto e escandalizou os veranistas” (p. 55). Cores vivas começaram nos anos trinta, com maiôs de helanca acetinados. As pessoas passaram a usar regatas e calções mais curtos, o que aumentou o tempo na orla, já que a praia deixou de ser apenas um tratamento de saúde e passou a ser um espaço de lazer e recreação. Com mais tempo na praia, passa a usar o guarda-sol. Nos anos 40, os maiôs aparecem sem saiote, surge o modelo “tomara que caia”, com abolição das calças, e aparece o maiô de frente inteiriço. “O biquíni só surge nos anos 60, quando a moda era importada de praias europeias, principalmente dos balneários franceses, que eram considerados mais ‘chiques’” (p. 56).

A indústria hoteleira

A indústria hoteleira começa em Cidreira no final dos anos 20. As cabanas rústicas dão lugar a grandes construções de madeira, como o Grande Hotel Atlântico, de Arnoldo J. Berger. Sua propaganda dizia: “Dotado de amplo salão de refeições, atualmente todo coberto com telha francesa, quartos confortáveis, novos chalés com venezianas para famílias, chuveiro para banho de água doce, cozinha caprichosamente dirigida por hábeis profissionais, bebidas geladas, padaria e instalação de luz elétrica própria”. E destaca a propaganda a existência, nas dependências do hotel, de um “possante aparelho de rádio” (p. 59). A propaganda ainda afirmava que era o maior e mais confortável balneário da praia de Cidreira, com “instalações sanitárias de acordo com as exigências do departamento de saúde pública”, conforme anúncio da Revista Gaivota de 1942. Segundo Therra, os hotéis da década de 30, além do Atlântico, eram o Novo Hotel, Hotel Farroupilha, Hotel Beira-mar, Hotel Primavera, Hotel Castelo, Hotel Funchal, Hotel Menegatti, Hotel Esperança, Hotel Pinguim e Hotel Cidreira, este de Adão Sessim. Se hoje a população de Cidreira é de 17 mil habitantes, nos anos 30-40 era de cerca de 1.500; se hoje estima-se em 500 mil pessoas que afluem no verão, Therra cita o início do século com a estimativa de 1.000 na época; se Therra afirma que em 1949 já havia vários hotéis em Cidreira, inclusive com motores para gerar energia elétrica, além de contabilizar 45 casas construídas por veranistas, hoje há cerca de 6.541 domicílios onde moram moradores fixos. Ao longo do tempo, a zona rural passou a produzir para a cidade da praia, os hotéis antigos de madeira foram substituídos por hotéis de alvenaria, alguns com dois pisos. “Os investimentos feitos pelos proprietários de hotéis em Cidreira foram um dos fatores determinantes para que aumentasse ainda mais o número de veranistas em Cidreira” (p. 63).

Nos anos 40, os cassinos chegam às praias. Casas de jogos vinculadas a hotéis chegavam a fazer propaganda no Correio do Povo. Durante a Segunda Guerra Mundial, Therra diz que o gerador da praia, que funcionava até as 22h, passou a ser desligado às 20h para não chamar a atenção de navios e submarinos estrangeiros que rondavam as costas brasileiras. “O fluxo de veranistas diminuiu mais pela falta de combustível do que pela própria guerra. Algumas empresas de transporte coletivo adaptaram seus veículos para “gasogênio”, a fim de contornar a falta de gasolina e continuar realizando as viagens à Praia de Cidreira (p. 76). Nessa época, um desses hotéis se destacava: o Hotel Cassino, que era uma construção de madeira nos anos 50 e, nos anos seguintes, foi construído em alvenaria.

Cidreira como investimento imobiliário

A organização de Cidreira como investimento imobiliário deu-se em meados dos anos 40, quando Fausto Borba Prates deu início ao empreendimento. “Criou a Agro-Territorial Cidreira Ltda. Loteou e comercializou os terrenos na Praia de Cidreira. O objetivo, além do aspecto comercial, foi o de transformar a imensidão da areia branca em estação de veraneio linda e aprazível” (p. 77). Famílias de Poro Alegre que já vinham à Praia de Cidreira adquiriram seus terrenos e começaram a construir suas casas de veraneio, como os Chaves Barcellos, Alberto Bins, JH Santos, Pilla e Mostardeiro. “Seu Fausto continuou investindo na Praia de Cidreira, abriu, compactou e ensaiou as ruas que antigamente eram de areia” (p. 77).   Nos anos 50, tornou-se a praia preferida do estado e, em 1954, a CEEE instalou um gerador de energia elétrica para abastecer seus moradores. Os prédios de hotéis cedem espaço às casas de veranistas na paisagem. Em 1956, chegam as pedras e meios-fios para calçamento das ruas, iniciando pela Avenida Mostardeiro.  O comércio se diversifica e o “Balangandan” se tornou o principal ponto de encontro; armazém de secos e molhados, realizava festas à noite. A sociabilidade se aprofunda.

A cidade toma conta da praia. As casas começam a ser muradas e calçadas pelos proprietários, a pedido da loteadora, passando a ter um aspecto de cidade. Já com iluminação pública, rede de tratamento de água e transporte, em 1960 é instalada a caixa de água potável da Corsan a pedido dos moradores, assim como posto telefônico. Foi o dono do Hotel Atlântico que venceu a concorrência para a construção da primeira estação rodoviária, em 1955, em que a Palmares foi uma das empresas pioneiras. Os ônibus saíam do Parque da Redenção, em Porto Alegre. Se a Cidreira Campo corresponde à fase de povoamento de meados do século XVII, com a passagem de tropeiros pela região, expedições colonizadoras de Laguna, instalação de fortaleza e início das primeiras famílias do povoado rural, isto é, produto indireto do Antigo Sistema Colonial, Cidreira Praia é a fase de construção do balneário, iniciada em meados do século XIX, com o início do loteamento e expansão da urbanização da faixa de areia. A região ainda tem peso econômico secundário no estado, ainda que cumpra uma função fundamental: lazer e entretenimento. Sequer possuindo a pesca como atividade econômica, transformou-se em um balneário com economia de prestação de serviços. Emancipou-se em 1988, num processo que se iniciou quatro anos antes.


Foto de capa: Carta Hidrográfica de uma parte do terreno e costa do império do Brasil, extraída da Carta da Província de São Pedro do Rio Grande, levantada em 1778 pelo Brigadeiro Francisco João Rocio. Reproduzido do Museu de Topografia / UFRGS.

Sobre o autor

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Jorge Barcellos
Graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

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