Este texto do teólogo protestante e filósofo Rubem Alves data da campanha para a eleição presidencial de 1989, a primeira candidatura de Lula, que só veio a ser eleito em 2002, na sua quarta campanha para se eleger presidente.
Encontrei-o nos meus arquivos, ao me mudar de volta de Paris para o Rio. Como tenho alma de arquivista, como dizia de si mesmo o nosso poeta Carlos Drummond de Andrade, estou descobrindo coisas do século passado em pastas classificadas por assunto.
Na campanha de 1989 escrevi um texto, “Lula e os cristãos”, publicado no dia 26 de novembro de 1989, no jornal “O Dia” e fiz dele um panfleto tendo no verso o texto de Frei Betto “LulaXCollor”, publicado em 27 de novembro de 1989, no mesmo jornal.
Fomos, uma amiga filósofa e eu, acompanhadas de uma das minhas filhas, para as saídas de metrô e de algumas igrejas protestantes, distribuir a folha do panfleto. Em outras folhas, fiz uma seleção de notas publicadas na imprensa favoráveis à candidatura de Lula.
O ex-operário foi para o segundo turno. No debate entre os dois turnos houve o “toque” da Rede Globo para desestabilizar Lula e favorecer Collor, que ganhou a eleição.
Essa história é muito conhecida.
E hoje faz parte da História.”
Por RUBEM ALVES*
Vejam só a que ponto chegamos. Agora ele está querendo ser presidente… Não se enxerga ? A começar pelos ancestrais, que não são coisa que se recomende. Há fortes boatos de descender de uma mulher de dostumes frouxos e suscetível a amores proibidos. O pai, ao que parece, não conseguia se fixar em emprego algum, e alguns chegam mesmo a descrevê-lo como tendo alma de vagabundo. É certo que não seria nunca escolhido como « operário padrão ». E que dizer do lugar onde nasceu ? Estado dos mais atrasados, sotaque típico, crescido em meio à rudeza dos que não se refinaram para as lides públicas. Podem imaginar o seu comportamento num banquete ? Seria vergonhoso… Cotovelos sobre a mesa, empurrando a comida com o dedão, falando de boca cheia… Seria um vexame nacional. Acresce o fato de não haver nem mesmo terminado o curso primário, sua educação formal se restringindo a ler, escrever e fazer as quatro operações. Como trabalhador braçal, excelente. Na verdade, ali é seu lugar. Como acontece com as peassoas que trabalham muito com o corpo e pouco com a cabeça, seu corpo se desenvolveu de forma invejável. Testemunhas oculares relatam mesmo que, em certa ocasião, não vacilou em se valer dos seus músculos para dobrar um grupo de adversários.
Mas, o que assusta mesmo, é o seu radicalismo em relação às questões do trabalho, especialmente o campo. Pois não é da iniciativa e do capital dos patrões qu vem a riqueza do país ? E agora este matuto quer colocar o carro na frente dos bois… Se sua política agrária for colocada em prática é certo que vamos ter uma convulsão social no país. O nosso sistema de produção vais er desmantelado, com imprevisíveis consequências para a economia. Mas pior do que isto serão as consequências sociais. No final, parece que os empregados tomarão conta de tudo e aos patrões não restará outra alternativa que deixar o país… « ‘Love it or leave it …’ »
Podem guardar seus sorrisos e sua raiva porque isto que escrevi não é sobre quem vocês estão pensando. É sobre Abraham Lincoln. E o que eu disse sobre a sua vida pode ser encontrado na Enciclopédia Britânica, para quem quiser conferir. Imaginei como é que a conversa rolaria nas rodinhas das UDRs e KKKs da época, ante a insólita possibilidade de que um ex-lenhador sem curso primário viesse a ser o presidente do país. Como se sabe, Lincoln foi eleito, os escravos foram libertados, houve uma enorme convulsão social, pois os donos de escravos se recusavam a aceitar a liberdade dos negros, e aqueles que não se ajustaram cumpriram a sua promessa : emigraram. Para onde ? Muitos para o Brasil. E foi assim que nasceram as cidades de Santa Barbara do Oeste e Americana. Por que o Brasil ? Porque, se não podiam ter escravos lá, poderiam continuar a ter escravos aqui. Nunca imaginei que esta seria uma boa razão para se optar pelo Brasil : para continuar a ter escravos.
Mas os tempos mudaram. Mudaram ? Parece que ainda hoje o mesmo horror existe ante a possibilidade de que um operário venha a ser presidente do país. E as conversas que rolam por aqui não devem ser muito diferentes das que rolaram por lá. Parece que a história está cheia de situações parecidas – e é só por isto que podemos aprender dela. Quem sabe a memória do ex-lenhador que se candidatou a presidente dos Estados Unidos pode nos ajudar a colocar em perspectiva este fato insólito de um operário que se candidata à presidencia do Brasil.
Rubem Alves é teólogo protestante, filósofo, professor da UNICAMP,.
Foto de capa: Ana Araújo





