Jornada extensa reflete menores salários e baixa qualificação no Brasil

Última edição em abril 22, 2026, 02:19

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Carteiras de Trabalho física e digital

Por Solon Saldanha *

Estudo aponta que profissionais submetidos à carga horária de 44 horas semanais, a escala 6×1, recebem remuneração consideravelmente inferior à de trabalhadores com jornadas reduzidas, evidenciando um abismo socioeconômico ligado à formação escolar.


Dados recentes do Ipea, baseados na Rais 2023, revelam uma distorção severa no mercado de trabalho brasileiro: trabalhadores que cumprem 44 horas semanais ganham, em média, R$ 2.627,25. O valor é 58% menor do que o recebido por quem atua 40 horas por semana, cuja média salarial atinge R$ 6.211. Essa diferença é calculada com base no valor da hora trabalhada e expõe como a alta carga horária está atrelada a postos de menor remuneração.

O levantamento indica que a jornada de 44 horas é a realidade de 74% dos vínculos empregatícios no país, alcançando 31,8 milhões de cidadãos. Em contrapartida, as jornadas de 40 horas ou menos são restritas a uma minoria, geralmente composta por profissionais de nível superior, como engenheiros, médicos e advogados. O estudo reforça que, além de pagarem menos, os contratos com períodos mais longos apresentam maior instabilidade e rotatividade de pessoal.

Escolaridade e impacto econômico

A escolaridade surge como o principal divisor de águas. Entre trabalhadores analfabetos ou com ensino fundamental incompleto, mais de 90% enfrentam jornadas superiores a 40 horas. O cenário muda apenas para quem possui graduação, grupo onde o percentual de carga horária elevada cai drasticamente. Ocupações operacionais, no comércio e na indústria, concentram as maiores cargas, enquanto áreas intelectuais e técnicas desfrutam de mais tempo livre e melhores ganhos.

Sobre o impacto econômico de uma eventual redução da jornada para 40 horas, o Ipea estima um aumento médio de 7,84% no custo do trabalho. Entretanto, para grandes setores da economia, como a indústria alimentícia e o comércio atacadista, esse impacto seria inferior a 1%. O relatório conclui que o setor produtivo nacional possui mecanismos para absorver essa mudança, embora alguns segmentos específicos de serviços demandem maior atenção.


* Solon Saldanha, jornalista e escritor

Foto: Carteiras física e digital. Crédito: Ministério do Trabalho e Emprego

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