Por Solon Saldanha *
O deslocamento das atenções da cúpula da Casa Branca para o conflito no Irã fortaleceu setores ultraconservadores do Departamento de Estado americano, que agora ditam o ritmo da política externa para a América Latina. A mudança de comando nas decisões estratégicas resultou no congelamento da agenda positiva com o Brasil e no início de uma série de atritos diplomáticos. Para o Palácio do Planalto, esses movimentos, que incluem a revogação de vistos de autoridades e pressões sobre a soberania nacional, configuram uma interferência direta no processo eleitoral brasileiro.
A distensão ensaiada entre os presidentes Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva em 2025 perdeu força diante da influência crescente de figuras como Marco Rubio e Darren Beattie. O novo cenário é marcado por uma estratégia de “ingerência sofisticada”: evitar ataques públicos diretos de Trump, que no passado elevaram a popularidade de Lula, e priorizar ações de bastidores que desgastem o governo brasileiro e favoreçam a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro.
Segurança pública e soberania em xeque
Um dos pontos de maior tensão é a proposta de Washington de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. A medida é interpretada por Brasília como um risco à soberania, pois abriria precedentes para sanções financeiras e até intervenções militares estrangeiras em território nacional. O tema ganhou contornos eleitorais após declarações de Flávio Bolsonaro sugerindo colaboração com os americanos para ataques a esses grupos.
Crise diplomática e expulsões
O clima de desconfiança mútua atingiu o ápice com a recente expulsão de um delegado da Polícia Federal brasileira em Miami por parte do governo Trump. O ato é visto como uma retaliação à negativa de visto de Darren Beattie, enviado americano que omitiu a intenção de visitar Jair Bolsonaro na prisão. Em resposta, o Itamaraty avalia aplicar o princípio da reciprocidade e determinar a expulsão de um funcionário diplomático dos EUA.
Recursos naturais e alianças paralelas
A disputa pelo controle de terras raras também acirrou os ânimos. Após a recusa do governo federal em integrar uma aliança de abastecimento exclusiva para os EUA, o Departamento de Estado americano firmou acordos diretos com o governo de Goiás para mapeamento de reservas. Simultaneamente, empresas americanas com aporte estatal de Trump adquiriram a única mineradora do setor no Brasil, consolidando uma ofensiva econômica que atropela as instâncias federais.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Darren Beattie e Marco Rubio. Crédito: reprodução SBT News




