Por Solon Saldanha *
Faltando menos de dois meses para o início do mundial na América do Norte, pesquisa Datafolha revela que a maioria da população não pretende acompanhar o torneio. O fraco desempenho da Seleção Brasileira sob o comando de Carlo Ancelotti e o atual cenário político-social são apontados como os principais motivos para o distanciamento do torcedor.
O retrato do desânimo em números
O tradicional entusiasmo brasileiro com o futebol parece ter atingido o seu ponto mais baixo em décadas. Segundo dados do instituto Datafolha, colhidos entre 7 e 9 de abril, 54% dos brasileiros declaram não ter interesse em assistir aos jogos da Copa do Mundo que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México.
Este índice representa o maior percentual de desinteresse desde que a série histórica foi iniciada em 1994. Para efeito de comparação, o recorde negativo anterior pertencia ao mundial da Rússia (2018), com 53%, enquanto na última edição, no Catar (2022), o índice era de 51%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
O recorte por gênero acentua a diferença de engajamento: o desinteresse chega a 62% entre as mulheres, enquanto entre os homens o número é de 46%. Já a parcela dos que afirmam ter “grande interesse” desabou para apenas 17%, o menor nível já registrado pela série histórica do instituto.
Fatores de afastamento: crise técnica e política
Especialistas e torcedores apontam uma combinação de fatores para explicar o fenômeno. No campo esportivo, a Seleção Brasileira vive um de seus momentos mais delicados. O time encerrou as eliminatórias na quinta colocação — sua pior marca histórica — após uma derrota para a Bolívia. Além disso, tropeços recentes em amistosos contra seleções como Japão, Tunísia e França minaram a confiança do público.
Fora das quatro linhas, o contexto sociopolítico também exerce influência:
- O “pachequismo” em xeque: setores da população demonstram fadiga em relação ao ufanismo nacionalista, muitas vezes visto como artificial ou forçado.
- A sede norte-americana: a escolha dos Estados Unidos como sede gera resistência em parte dos entrevistados, motivada por críticas às políticas anti-imigratórias do governo estadunidense e à figura de Donald Trump.
- Símbolos em disputa: a associação estabelecida entre a camisa da seleção e movimentos políticos recentes ainda gera uma barreira ideológica para muitos brasileiros, que relatam desconforto em usar as cores nacionais.
O que vem a ser o “pachequismo”
O termo nasceu de uma campanha publicitária de grande sucesso da marca de lâminas de barbear Gillette, criada para a Copa do Mundo de 1982. O seu personagem central era o Pacheco — interpretado pelo ator Raul Cortez. Ele era a personificação do torcedor fanático: vestia a camisa da seleção o tempo todo, usava cornetas, bandeiras e demonstrava um otimismo inabalável, independentemente da realidade do jogo. A figura ficou tão marcada no imaginário popular que o nome “Pacheco” passou a ser usado para rotular qualquer pessoa com esse comportamento.
O “pachequismo” não é apenas torcer: é uma postura ideológica dentro do esporte que envolve ufanismo cego, negação da realidade e narrativa triunfalista. O locutor Galvão Bueno muitas vezes foi acusado de ser o maior expoente moderno desse grupo. Evitar críticas à seleção, no caso de locutores e comentaristas, muitas vezes tem por objetivo não desanimar a audiência, o que atingiria interesses comerciais.
Convergência política no desinteresse
Curiosamente, apesar da polarização do país, a desmotivação com a Copa é um ponto de união entre diferentes espectros políticos. O Datafolha aponta um empate técnico no desânimo: entre eleitores do presidente Lula (PT), 51% não pretendem ver os jogos; entre os eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o número é de 56%. Ou seja, contraditoriamente é maior entre os que adotaram a camiseta amarela como segunda pele, nos últimos anos.
A exceção: o público jovem e os viajantes
Ainda que a média nacional seja de apatia, o interesse resiste entre os mais jovens. Nas faixas de 16 a 34 anos, o entusiasmo é ligeiramente maior (entre 20% e 24%). Para esse público, a Copa ainda é vista como o ápice do intercâmbio cultural e esportivo mundial.
Há também o grupo dos entusiastas resilientes, como o caso de torcedores que já garantiram passagens para os Estados Unidos mesmo sem ingressos, enfrentando preços proibitivos no mercado de revenda, para tentar vivenciar a atmosfera do torneio de perto nas cidades-sede.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Fotomontagem: jogadores da Seleção Brasileira. Crédito: Goal.com




