Duncan Foley abre um de seus livros de forma quase desconcertante. A competição, tão celebrada, está longe de ser a única fonte de inovação. Há algo mais silencioso, mais difuso, e frequentemente esquecido. Cooperação.
O curioso é que o debate econômico costuma fazer o movimento inverso. Diante de qualquer impasse, entoa-se a ária da competição. Falta concorrência, dizem. Falta pressão, repetem. Como se o problema estivesse sempre na ausência de disputa.
Mas talvez o que falte seja outra coisa.
Talvez falte cooperação.
Cooperação. Humana. Umbilical.
Não no sentido ingênuo, quase decorativo, com que o termo costuma aparecer. Mas como estrutura. Como condição de funcionamento. Como aquilo que permite que partes distintas não apenas coexistam, mas se reconheçam como parte de um mesmo movimento.
Porque há algo de paradoxal na economia brasileira. Uma diversidade imensa, quase excessiva, que não se reconhece. Setores que existem, mas não se encontram.
Setores e vidas existem. Mas não se conectam.
Capacidades que se acumulam, mas não se combinam.
Darcy Ribeiro já havia intuído esse ponto por outro caminho. A riqueza da nossa formação não está na homogeneidade, mas na mistura. No encontro. No potencial de combinação.
Mas combinação não acontece sozinha.
Ela exige algo que o debate raramente nomeia.
Cooperação.
E reciprocidade.
Não como valores abstratos, mas como mecanismos concretos de articulação. Como aquilo que permite que a diversidade deixe de ser apenas um traço e passe a operar como força.
Sem cooperação e reciprocidade, não há sistema. Há apenas coexistência evitativa.
E há um segundo problema, menos visível, mas igualmente persistente.
O que o “mercado” busca não é equilíbrio. São preços elevados e persistentes. Não por desvio, mas por funcionamento. Preços que sobem e voltam a cair rapidamente não organizam expectativas, não sustentam margens, não estabilizam posições. O que se busca é outra coisa. Continuidade.
Mas há algo que não falta no país.
Competição, ao menos para quem reside embaixo.
E não qualquer competição.
Há, por vezes, uma competição brutal. Um tipo de dinâmica que opera como um moedor de carne social.
Esforços são intensificados, posições são disputadas, trajetórias são comprimidas. O sistema absorve, rumina e expele continuamente.
O problema não está na ausência de disputa.
Está na forma como ela se consolida.
Dois polos coexistem e se evitam: um, onde a cooperação sustenta a espoliação; outro, cimentado em uma competição brutal.
Quando a competição não é acompanhada de mecanismos de cooperação, ela não estrutura. Ela desgasta.
Produz movimento, mas não articulação. Pressão, mas não propagação. Seleção, mas não transformação.
E, nesse caso, o resultado não é dinamismo.
É dispersão.
Não há articulação. Há antagonismo.
Mas preços que se sustentam sem que a estrutura se sustente criam um tipo particular de economia. Aquela em que os sinais permanecem, mas as conexões não.
E, sem conexões, não há propagação.
Há apenas ilhas isoladas.
E talvez seja esse o problema mais persistente.
Não há falta de competição.
Mas há ausência de cooperação no tecido que sustenta o próprio corpo da economia nacional.
Foto de capa: Fenafar | Reprodução





