Por Solon Saldanha *
Em uma operação logística sem precedentes, Pequim instala 75 usinas fotovoltaicas em 12 meses, elevando a geração renovável da ilha a 20% e mitigando a crise de desabastecimento de petróleo.
O cenário energético de Cuba atravessa uma metamorfose radical sob a tutela tecnológica e financeira da China. Em um intervalo de apenas um ano, o governo chinês concluiu a montagem de 75 dos 92 parques solares planejados para o arquipélago, uma marca que redefine os padrões de velocidade para transições energéticas globais. A iniciativa elevou a participação da energia solar na matriz elétrica cubana de 5,8% para 20%, injetando mais de 1.000 megawatts de capacidade imediata em uma rede que operava à beira do colapso.
Este movimento é a resposta direta ao asfixiante cerco econômico intensificado por Washington no início de 2026. Com a assinatura de ordens executivas pelo governo de Donald Trump que impuseram tarifas severas e sanções a qualquer nação que fornecesse petróleo a Cuba, as importações de combustível da ilha despencaram 90%. O resultado foi uma crise humanitária e estrutural, com regiões enfrentando apagões de até 20 horas diárias, paralisando serviços essenciais, hospitais e a conservação de alimentos.
Velocidade industrial e autonomia produtiva
A escala do empreendimento impressiona pela eficiência operacional. Desde janeiro de 2025, a conexão de 49 novas unidades à rede elétrica confirmou a capacidade da engenharia chinesa de colocar parques em operação em apenas 35 dias após o desembarque dos equipamentos nos portos cubanos. O ápice deste esforço ocorreu em fevereiro de 2026, quando a ilha gerou, pela primeira vez, 900 megawatts exclusivamente através de painéis solares, atingindo a massa crítica necessária para sustentar o consumo doméstico e industrial durante o dia.
O investimento, estimado em mais de US$ 1,2 bilhão, projeta a instalação de um total de 92 parques até 2028. Ao atingir a meta de 2.000 megawatts de capacidade instalada, Cuba conseguirá igualar toda a sua geração histórica baseada em combustíveis fósseis. Para o governo cubano, cada megawatt solar representa uma economia de aproximadamente 18 mil toneladas de petróleo anuais, tornando a estratégia de bloqueio energético dos EUA progressivamente obsoleta.
Xadrez geopolítico no Caribe
A decisão de Pequim em investir bilhões na infraestrutura cubana transcende a solidariedade diplomática, que também existe. Ao transformar Cuba em um “hub” de tecnologia renovável, a China estabelece uma presença estratégica a menos de 150 quilômetros da costa estadunidense, criando um ecossistema econômico que independe de rotas de suprimento de combustíveis que Washington possa monitorar ou interceptar.
Diferente do petróleo, que é uma commodity de fluxo contínuo e sujeito a represálias financeiras, a infraestrutura solar é um ativo fixo de longa duração. Ao equipar a ilha com painéis, a China cria uma dependência tecnológica de longo prazo — através de manutenção, peças e know-how — que vincula Cuba permanentemente ao seu eixo de influência, transformando o Caribe em uma vitrine da eficiência energética chinesa.
O próximo passo: a estabilidade noturna
Apesar dos avanços, a “soberania energética” proclamada pelo presidente Miguel Díaz-Canel ainda enfrenta o obstáculo da intermitência. Atualmente, a rede cubana é estável sob o sol, mas vulnerável ao cair da noite, período em que o país ainda depende de suas envelhecidas usinas termoelétricas.
Para solucionar este gargalo, a parceria prevê novas fases que incluem o fornecimento de sistemas de armazenamento de energia em larga escala (baterias industriais). Além das grandes usinas, a China doou 70 toneladas de componentes elétricos e iniciou a instalação de 10 mil sistemas fotovoltaicos residenciais e comunitários, focados em maternidades e clínicas rurais. Se o cronograma for mantido, Cuba poderá encerrar a década como o primeiro país da América Latina a operar um sistema elétrico nacional de base renovável, transformando uma crise de desabastecimento em um modelo de autossuficiência.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Painéis instalados em Cuba. Crédito: reprodução Brasil 247





Uma resposta
Os gusanitos de Miami deben estar muito chateados.