Celular na praia

Última edição em abril 17, 2026, 11:04

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A praia também foi atingida pela desgraça do celular. Tenho três sobrinhos, duas meninas e um menino filhos de meu cunhado assador e da minha concunhada tagarela. Ficaram em minha casa na praia divididas entre ir à praia, ir à piscina e o …celular! Elas conseguiam manter um diálogo conosco, os velhos, tanto quando íamos à praia quanto à piscina. Mas, quando no celular, essa é a tragédia da individualização, não tinha jeito, ficavam fora do ar. O pequeno colorado ficava no sofá da sala ou no da área; a menina comilona ficava enrolada, seja na rede ou na cômoda da sala; a aspirante a advogada, no sofá da sala. Cada uma na sua rede social. Eu não entendia como conseguiam conversar entre si ao mesmo tempo que estavam nas redes. É a atenção flutuante, dizem os especialistas.  

Tudo que é preciso saber sobre essa desgraça da digitalização já foi dito por Byung-Chul Han ao menos em duas obras. A primeira, Não Coisas – reviravoltas do mundo da vida, e a segunda, Infocracia: a digitalização e a crise da democracia, ambas da editora Vozes.    Em Não-coisas, Han descreve o preço que pagamos por nosso crescente envolvimento com as redes sociais e a internet. “Nós nos comunicamos constantemente sem participar de uma comunidade. Acumulamos amigos e seguidores sem encontrar outras pessoas. É assim que a informação desenvolve uma forma de vida que não tem estabilidade nem duração. À medida que nos absorvemos cada vez mais na infosfera, perdemos o contato com a magia das coisas que nos proporcionam um ambiente estável para habitar e dão continuidade à vida humana.”

A abdução do celular

Temo pelo futuro de minhas sobrinhas e de meu sobrinho absorvidos pela internet. Olho eles na sala em suas telas, estão todos em seus celulares, inclusive o pequeno colorado. Eles foram, literalmente, abduzidos. Quando falamos em “Abdução”, é no seu sentido de “afastar” e, nesse sentido, é o do rapto ou sequestro, não de uma pessoa, mas da sua atenção ao redor.    Quando estão nos celulares, eles se afastam do convívio familiar, e isso, para mim, é terrível. Para conversar, tenho de falar um pouco mais alto, chamar a atenção, para que eles se ‘desconectem’. É que estão aduzidos. A  IA Perplexity me informa que de fato, a palavra “abdução” vem do latim abductio, -onis, que significa “ação de levar para longe”. Etimologicamente, deriva do prefixo ab‑ (“para fora”) e do verbo ducere (“conduzir, levar, guiar”), ou seja, algo como “conduzir para fora / afastar. É exatamente isso que os smartphones fazem com minhas sobrinhas e sobrinho, os conduzem para fora do ambiente familiar, das conversas entre pais, tios e sobrinha/os.   Eles não se dirigem mais ao outro, participando das conversas dos “adultos”, dos “mais velhos”.  Em vez de seus corpos estarem cuidando o mundo ao seu redor, estão cuidando o mundo da tela, que sequestra sua atenção.

Dizem os especialistas que crianças e adolescentes que usam demais o celular tendem a ter mais depressão, irritabilidade, distúrbios do sono e queda do rendimento escolar. Minha sobrinha aspirante a advogada parece romper com a ideia de queda do rendimento, mas ela já é adulta, com um pouco mais de dezoito anos e está bem na faculdade; já minha sobrinha sorridente comilona, segundo soube por minha cunhada, passou na média “raspando”. Eu insisto para que aproveite o celular para assistir aulas de matemática, que existem no YouTube, mas ela mostra pouco interesse. Enquanto isso, o pequeno colorado, um dos mais aficionados da tela do celular, está bem na escola, mas, de fato, sempre que seu time do coração perde, o Internacional, ele fica profundamente irritado. Eu me pergunto se isso não é sintoma também de sua obsessão pelo celular.  Me considero um viciado parcial em internet, e já tenho alguns dos sintomas apontados pela literatura, como miopia e redução da atividade física. Mas isso talvez fosse de antes do uso contínuo do celular.

O futuro do excesso de celular      

Minha preocupação é quanto ao impacto os celulares terão nas vidas de minhas sobrinhas e sobrinho no futuro no campo social e emocional. Num mundo cada vez mais cruel e capitalista, terão maturidade para sobreviver à frustração? Escaparão à solidão que o aparelho induz? Eles vivem em contato com um telefone celular muito mais do que eu vivi com um telefone comum. Não é só telefone, eu sei, é smartphone. O telefone que meus sobrinhos usam é a evolução superior de um telefone que eu usei. O deles é privado, o meu era público. É que na minha infância e adolescência, o telefone era diferente do que é hoje. Você ia à rua e telefonava de um orelhão público. Você tinha de comprar as fichas telefônicas e eu via minha mãe juntando as poucas moedas que tinha para comprá-las. Ela precisava telefonar para meu pai para saber quando buscar, na Galeria do Rosário, a minha mesada, o que já narrei a. Mas isso é outra história. Depois, eu mesmo, quando precisava usar de telefone, usava os públicos. Só mais tarde minha mãe comprou um telefone, o que era caro, levou tempo para receber e era instalado pela Companhia Telefônica Riograndense, a CRT. Hoje, não tem orelhão, não tem telefone, não tem nem CRT. Tudo é resolvido pelo celular.

Atender um telefone era então mais ou menos como Han descreve a visão que tem o filósofo Walter Benjamin em seus estudos: “no início de sua história, o telefone se cercou da aura de um poder fatídico. Seu toque era como um comando ao qual nos rendíamos” (p.40). Han relata como Benjamin descrevia seu desamparo frente à força do aparelho. É verdade que o telefone ao qual se refere o filósofo era aquele imenso de madeira que ficava dependurado no corredor e cujo toque gerava pavor no autor de Passagens e que se encerrava quando ele puxava os dois auscultadores pesados. Quando minha mãe chegou a ter um dos telefones particulares que chegaram a Porto Alegre logo que foram lançados, foi algo semelhante, essa campainha era assustadora e imperativa também era para mim. O que ele quer chamar a atenção é que, na origem do telefone, está o fato de que ele “torna nula minha própria deliberação”. Ele toca e nós paramos o que fazemos para o atender.  Isso não lembra a você também a urgência com que atendemos o celular? Eu vejo minhas sobrinhas acompanhando os comentários de WhatsApp simplesmente pelos toques que o app dá, espécie de experimento pavloviano em que nos domesticam para dar atenção as suas mensagens. Não tem mais a campainha alta, agora é só “vibrar” e você já corre para atender. Entende como mudou nossa relação?  Se Benjamin vê o telefone tocando no escuro como algo assustador e seus sons como “ruídos noturnos”, o celular depositado na cabeceira da cama não só das crianças, mas dos adultos, atualiza agora com uma “imagen noturna”, a da tela dos celulares que desperta a cada mensagem noturna. Meu colega da câmara, bibliotecário militante sindical, tinha como regra: mensagens depois das dez horas, jamais. E reprimia severamente quem o fazia. Ele tinha um motivo: isso despertava seu celular, e ele também. Não é possível o descanso com um aparelho celular.

Telefone antigo e moderno

Apesar destas diferenças, o telefone do passado se assemelha ao do celular do presente pela natureza do destino que nos relega: o de sermos imobilizados por ele. A voz do destino está no celular que nos desperta e que somos obrigados a atender, simplesmente porque imobiliza nossa atenção. E, como no telefone do passado, quando corria para atender quando tocava sua campainha, agora corro a cada tremor seu. Temo por meus sobrinhos que talvez tenham muito mais dificuldade do que eu de se libertar desse modo que tira a liberdade. Mas é uma condição contraditória, diz Han, já que “a própria mobilidade do smartphone nos dá uma sensação de liberdade. Seu toque não assusta ninguém. Nada sobre o telefone celular nos força a uma passividade desamparada. Ninguém está entregue à voz do outro” (p. 43). Não é bem assim: deixe de atender uma mensagem do serviço para você saber das consequências. Mas o ponto aqui é diferente: o telefone nos dava acesso a voz do outro; o celular, paradoxalmente, não. É exatamente por isso que o celular também é nossa danação.

É que, diz Han, no constante digitalizar e deslizar o dedo no smartphone, reproduzimos um gesto quase litúrgico que influencia minha relação com o mundo. Minhas sobrinhas deslizam rapidamente entre telas, funções, informações do celular, especialmente minha sobrinha universitária. Na festa de cinquenta anos de meu cunhado, na casa do amigo cozinheiro, ela me ensina a logar na rede wifi da casa. Ela já havia até decorado a senha, e passeia entre os teclados rapidamente e me dá acesso. Fico aliviado na hora, mas depois penso em que mundo ela já está vivendo. Como diz Han, no smartphone: “Tenho o mundo todo na palma da mão. O mundo tem de se adaptar totalmente a mim. Assim, o smartphone reforça o auto centramento. Digitando, submeto o mundo às minhas necessidades. O mundo aparece para mim no brilho digital da disponibilidade total” (p. 43). Eu não preciso sequer falar com o outro com o celular: basta gravar a mensagem no WhatsApp.

A diferença de gerações

A geração de minhas sobrinhas e sobrinho nasceu na internet. Ela é diferente da minha, que nasceu fora dela. Eu sei o que é viver sem internet, eles não. Aqui o que se diferencia é o modo de lidar com os sentidos e dois são importantes, a visão e o tato. A visão é mágica, o tato é desmistificador, diz Han a partir de uma passagem de Roland Barthes. “O belo, no sentido enfático, é intocável. Ela impõe distância. Diante do sublime, recuamos em reverência. Nós juntamos as mãos em oração. O sentido do tato é destruidor da distância. Ele não é capaz de se espantar. Ele desmitifica, desautoriza e profana sua contraparte. (p. 44). Por isso, o touch screen, que minhas sobrinhas e sobrinho fazem na tela para subir, reduz a negatividade do Outro, generalizando uma coerção tátil que torna tudo disponível para elas, exceto o contato com o outro. “Na era do smartphone, até mesmo o sentido da visão se submete à coerção tátil e perde sua faceta mágica. Ela perde seu senso de espanto” (p. 44).

Vejo minhas sobrinhas e sobrinho no smartphone: eles seriam capazes de se deixar fascinar por uma teia de aranha como a que mostrei no ensaio anterior aqui . A ascensão ao mundo digital está também nas praias. Eu lamento isso. Eu vou à praia, com esse imenso mar, com seus detalhes nas aves que voam rasante, nos animais que se deixam levar pela água e acabam na areia, e vejo dezenas de pessoas, em suas cadeiras, com seus… celulares! Elas estão ali também para fotografar, e desde que me lembro de ir à praia com os colegas do colégio, também fazia um pouco disso naquelas antigas câmeras Kodak de plástico, as mais baratas e únicas que podia comprar. Mas havia um ritual que não existe mais: cuidar para fotografar porque o filme é caro, fotografar com cuidado, olhando o enquadramento, não apenas para fazer uma boa fotografia, mas porque, de novo, o filme é caro e há poucas poses para usar. Hoje não há nenhum ritual em fotografar: você vê as pessoas tirando dezenas de fotos instantâneas a esmo, como fazia meu colega da câmara municipal, que é quase um Sebastião Salgado, quando disparava como se fosse uma metralhadora, o botão em sua máquina profissional. “Com o smartphone, nós nos retiramos em uma bolha que nos blinda do Outro”. (p.44). Vejo isso no isolamento das pessoas em suas cadeiras de praia olhando seus celulares, que são outra forma de encerrar, de uma vez por todas, a conversa de praia.

A ausência do outro

Um ponto que Han chama a atenção é que no mundo da comunicação digital, onde o outro se ausenta, “a saudação é frequentemente omitida.” A outra pessoa não é expressamente chamada. Preferimos escrever mensagens de texto a telefonar, porque por escrito estamos menos entregues ao outro. Desta forma, o outro desaparece como voz”. É o que ocorre no WhatsApp de minha família frequentemente. Você não liga para falar, você grava sua fala, pois, ao contrário de mim que prezo até o texto de meu WhatsApp, meus familiares já ultrapassaram esta etapa e simplesmente, talvez por preguiça ou hábito, preferem falar. Falar é só teclar o ícone do microfone; escrever ainda exige dominar o teclado no celular.   Quando há uma saudação, não é direta nesses meios, não é dirigida a alguém especial: é o famoso “bom dia a todos”, que, também, reproduz a lógica de retirar a pessoalidade das mensagens.  Recusa da entrega ao outro, nos termos de Han, não seria também uma redução de nosso sentimento amoroso familiar, essa noção de que é importante compartilhar porque somos uma… família, um coletivo?

Converso com o adestrador de minha Collier Lola exatamente sobre os problemas que esse império do celular traz ao ambiente familiar. Ele tem filhas e trabalha na polícia. No dia que podia estar em casa, elas estavam no celular.  Isso foi desapontador. Há uma passagem notável em Han que explica seus efeitos e que merece atenção. “A comunicação via smartphone é uma comunicação desencarnada e sem visão. A comunidade tem uma dimensão física. Já por causa da falta de significatividade, a comunicação enfraquece a comunidade. O olhar também solidifica a comunidade. A digitalização faz o outro desaparecer como miragem. A ausência do olhar é corresponsável pela perda da empatia na era digital. Até mesmo uma criança pequena é privada do olhar porque seu cuidador fixa o olhar no smartphone. É no olhar da mãe que a criança encontra apoio, autoafirmação e comunidade. O olhar constrói a confiança fundamental. A falta do olhar leva a uma relação perturbada consigo mesmo e com os outros.” O adestrador sente falta de olhar suas filhas, mas elas estão olhando para seus celulares. Eu sei o que é isto, pois como ele sou de uma geração que foi criada sem smartphone, isto é, sob o olhar direto dos pais. E vivi em uma família em que a presença na mesa, na sala de visitas de minha tia era fundamental. Eu gostava desta família porque havia comunicação. E eu mesmo, com meu tio que lia jornal e que o acompanhava na infância, sabia que fazia parte daquela comunidade. Líamos jornal juntos. O olhar também estava ali, numa triangulação familiar.

O celular no cotidiano

Hoje, leio jornais diretamente na tela do celular. Minha esposa ainda prefere ler o exemplar do pior jornal de Porto Alegre, do qual fazemos assinatura. Ela, para fazer as palavras cruzadas. Eu para ter o que botar para Lola fazer suas necessidades. Eu diria que nosso café da manhã é pior do que o café da tarde porque, no primeiro, estamos preocupados em ver as notícias do dia que chegam pelo celular, e nesse sentido, ficamos um pouco distantes e no segundo, não. É claro que, comentando, nos aproximamos; é diferente do café da tarde, quando já estamos absortos de tanta informação que podemos conversar amplamente sobre as coisas do dia. Como está o vizinho da frente? E o do lado? Volto e penso nos meus sobrinhos, especialmente o fanático colorado. Eu sei que meus cunhados dão toda a atenção possível, que tentam compartilhar seu olhar com ele, mas eles já cometeram o erro fatal de dar um celular ao menino. Ele é, no entanto, atento ao seu entorno, e jamais saberemos como conseguem fazê-lo, dada a natureza sedutora do celular. Ele o vê fanaticamente, mas ainda assim, acompanha o que acontece ao redor. Ele me lembrou que eu havia dito que Lola, minha collie, precisava de remédio à meia-noite, quando todos já haviam esquecido. Há uma esperança ainda na geração abduzida por celular. Ele ainda tem confiança suficiente para estar ligado ao mundo.

Com o smartphone, minhas sobrinhas estabelecem uma relação com o telefone diferente da que estabeleci. Para mim, o telefone sempre foi um meio de comunicação; para elas, é um meio de imagem. “O mundo só se torna totalmente disponível e consumível quando é objetivado como imagem. Fazer a imagem de algo quer dizer por inteiro mesmo, no modo como está no seu estado, diante de si, enquanto posto desta forma, tê-lo constantemente diante de si”, diz Han, inspirado em Heidegger. Han quer dizer assim que o suposto poder do smartphone está em pôr o mundo diante de nós como imagem. No telefone tradicional, não. É que estava ausente então a câmara e a tela. Essa dupla invenção é responsável pela conversão do mundo em imagem. Por essa razão, é como se fosse uma espécie de lógica reversa: da mesma forma que eu devolvo uma mercadoria a uma empresa de quem comprei, minhas sobrinhas e sobrinho produzem conteúdo para redes sociais, inclusive o TikTok, o que me surpreende. Elas veem e consomem imagens, mas ao mesmo tempo, produzem as suas, garantindo que o fluxo de consumo seja mantido. O TikTok e o capitalismo mundial integrado agradecem.

Uma geração hiperreal

Minhas sobrinhas e sobrinho já vivem a realidade hiper-real de que fala Han. Eles e todos os habitantes da praia. Eu pensei que, indo para a praia, escapasse da perseguição do celular e encontrasse um meio em que as pessoas compartilhassem mais, conversassem mais. Mas as pessoas que não são nativas daqui que são, ao contrário da cidade, são as mais dependentes da tecnologia. Eu vejo uso, mas não obsessão, no meu vizinho trabalhador e no meu vizinho Uber, que mora em frente de minha casa de praia. Este tem o costume de dizer boa noite no grupo que criamos, dos moradores da rua. Eu acho inocente. Mas eu o prefiro mais quando ele vem pedir emprestado o meu ancinho quando corta grama do que quando posta no WhatsApp. Assim, ele reafirma o fato de que o mundo ainda consiste em coisas como objetos. E, de quebra, conversamos. “A palavra “objeto” remonta ao verbo “obicere” em latim, que significa opor-se, atirar contra ou objetar. Ele tem a negatividade inerente da resistência. O objeto é originalmente algo que se dirige contra mim, que se opõe e resiste a mim. Os objetos digitais não têm a negatividade do obicere. Eu não os sinto como resistência. O smartphone é smart porque tira o caráter de resistência da realidade. Em seu touchscreen liso, tudo parece dócil e agradável. Com um clique ou um toque do dedo, tudo está acessível e disponível. Com sua superfície lisa, ele funciona como um cristal de cura digital que nos arranca permanentemente um curtir. Mas é precisamente a negatividade da resistência que é constitutiva da experiência. A falta de resistência digital, o ambiente smart leva a uma pobreza do mundo e experiência” (p.47). Meu vizinho podia pedir o ancinho pelo WhatsApp, mas preferiu vir pedir pessoalmente. Ponto para a vida real e para objetos reais.

Na vida, nem tudo está ao alcance da mão. No celular está e essa facilidade mata. Não é preciso mais ir ao museu Júlio de Castilhos e ter uma experiência histórica; basta para isso acessar o seu site e viajar por suas salas. O problema, entretanto, não desaparece. Você não tem a experiência de ir ao museu, tem no máximo, as informações que ele guarda. Você não é transformado, apenas assimilou informações. Não é a mesma coisa. Em um caso a transformação é permanente; no outro, você é vítima pelo esquecimento. Por quê? É que quando você vai ao Museu Júlio de Castilhos e vê as botas do gigante, você o imagina: quando você vê a imagem delas, você tem uma informação, você iguala a outro qualquer objeto. Ver um museu pelo smartphone parece uma experiência educativa, mas não é: ela não transforma. “Ele não apenas torna as coisas supérfluas, mas descoisifica o mundo ao reduzi-lo a informações. Ela não é propriamente percebida” (p. 48).   O pior é que, de certa forma, sou o responsável também por minhas sobrinhas e sobrinhos serem abduzidos pela internet: fui eu que dei meus celulares antigos para que minha cunhada desse a eles, e dessa forma, ela também pudesse descansar após um dia fatigante de trabalho, numa espécie de creche tecnológica. Me culpo disso, mas poderia ter sido de outra forma?

Uma geração toda igual

Ao dar tantos celulares às crianças, elas desenvolveram hábitos iguais ao acessar esses dispositivos. Essa é uma característica que Han destaca, a que o smartphone nos nivela, aplaina e por fim “faz com que tudo se torne igual”. Eu vejo o esforço de meus sobrinhos para serem singulares, e assim reconhecidos como filhos de meus cunhados; o pequeno colorado por ser…colorado; a sobrinha risonha por ser…comilona como o pai; a sobrinha universitária por, sendo universitária, realizar o sonho de seus pais. Mas o fato de que, com o celular, elas deleguem sua percepção a uma máquina, me preocupa. Elas percebem parte da realidade não por sua experiência familiar, que eu ainda tenho, mas pela janela digital que todos nós permitimos a elas acessar.  E nesses momentos, em que elas estão em seus celulares, elas não têm contato com a realidade familiar. Não estão presentes. O celular está roubando minhas sobrinhas e sobrinho do convívio familiar.

É uma geração inteira mais familiarizada do que a minha com a tecnologia, mas também, mais monitorizada do que a minha por algoritmos. Diz Han: “Não somos nós que usamos o smartphone, mas é o smartphone que nos usa.” O verdadeiro ator é o smartphone” (p. 50). Que informações essa geração fornecerá, que perdas elas terão com seu uso excessivo? Elas se expõem em sua fase de crescimento, com suas imagens dispostas na rede, e isso também tem riscos, diz Han. “O smartphone também é um pornophone. Nós nos expomos voluntariamente. Dessa forma, funciona como um confessionário móvel. Ele mantém o “domínio sacral do confessionário”, porém de uma forma diferente (p. 50)”. Eu sei que, graças ao smartphone, tenho acesso a inúmeras informações que são importantes: a trajetória de GPS para dirigir é apenas uma delas. Mas eu temo, como diz Han, que a acessibilidade extrema de meus sobrinhos se transforme na sua servidão. Eles se expõem tanto que o aparelho, e eu creio que em crianças, funciona como uma escola de servidão, já os acostumando à submissão. “Como um aparelho de submissão, ele se assemelha ao rosário, que é tão móvel e prático quanto o gadget digital. O like é como o amém digital. Enquanto clicamos no botão like, submetemo-nos ao contexto da dominação” (p.51).  

Obediência por agrado

Temo por minhas sobrinhas e sobrinho no capitalismo neoliberal que, como diz Han, não funciona com mandamentos ou proibições, mas nos torna obedientes por nos viciar em seus instrumentos, em sua tecnologia. “Ele quer nos agradar. É permissivo e não repressivo. Ele não nos impõe o silêncio. Antes, somos constantemente incentivados e convidados a compartilhar e comunicar nossas opiniões, preferências, necessidades e desejos, a narrar nossa vida. O sujeito subjugado nem sequer está ciente de sua subjugação. Ele se sente livre. O capitalismo se aperfeiçoa no capitalismo do “curti”, diz Han. Como essa geração irá querer fazer a revolução, transformar o capitalismo como a minha geração um dia desejou, de mudar um mundo explorador se já concordamos com essa essa espécie de simbiose com o celular?

Han tem uma explicação para essa simbiose. Ele parte da ideia de que o celular ocupa o lugar de objeto de transição e a leva ao extremo. Segundo o psicanalista Donald Winnicot, o objeto de transição é o que permite a transição segura da criança para a realidade. A cauda de um cobertor, um travesseiro na boca. De objetos parciais chegando ao bichinho de pelúcia, os objetos de transição cumprem uma função vital: “Eles criam confiança e abrigo. Graças aos objetos de transição, a criança cresce lentamente no mundo. Eles são as primeiras coisas no mundo que estabilizam a vida da primeira infância” (p.54). Com eles, a criança estabelece uma relação muito intensa e íntima, e por isso, não pode ser trocado, nada é capaz de interromper a experiência de proximidade, a criança se apavora se o perde, quer dizer, quase tem vida própria. “Entramos em pânico total quando perdemos nosso smartphone. Temos, também, uma relação íntima com ele”, diz Han. O pior é que é verdade.

Que tipo de objeto é um celular?

Por isso, não gostamos de entregar o celular para outros. A conclusão de Han é sobre a definição do celular. Então, ele pode ser visto como um objeto de transição, um ursinho de pelúcia?”, pergunta Han (p. 55). Éum pouco mais complicado. Han vê semelhanças e diferenças entre o celular e os objetos de transição, mas também uma analogia. É que trocamos de celular periodicamente, mas ele também, como o objeto de transição, condensa simbolicamente o sonho de ser o receptáculo perfeito. Estamos unidos a ele, mas, ao permitirmos isso com o celular, diz Han, permitimos também que nossa imagem seja suprimida. “Os objetos de transição são de baixo estímulo. Portanto, elas intensificam e estruturam a atenção. A sobrecarga sensorial que emana do smartphone fragmenta a atenção. Ele desestabiliza a psique, enquanto o objeto de transição tem um efeito estabilizador sobre ela. Os objetos de transição fomentam uma relação com o outro. Com o smartphone, por outro lado, temos uma relação narcisista” (p.56).

Se não é um objeto de transição, que tipo de objeto é o smartphone? A conclusão, para Han, é que é um objeto autista. Ele diz que o objeto autista é duro, carece da dimensão do outro e, também, não estimula a imaginação. “O manuseio deles é repetitivo e não criativo. O repetitivo, o compulsivo também caracteriza a relação com o smartphone” (p.56). Esse processo tira a alteridade da criança, os objetos tomam o lugar das pessoas e impedem o imponderável que as relações pessoais permitem. “O smartphone não é um ursinho de pelúcia digital. Ao contrário, é um objeto narcisista, autista, o qual a pessoa se sente principalmente a si mesma. Como resultado, ele também destrói a empatia. Transforma Você em Isso. O desaparecimento do outro é precisamente a razão pela qual o smartphone nos torna solitários. Hoje, comunicamo-nos de forma tão compulsiva e excessiva precisamente porque estamos sozinhos e sentimos um vazio. Ela só aprofunda a solidão porque falta a presença do outro” (p.58). Eis o futuro que aguarda minhas sobrinhas e meu sobrinho. Eu espero, no entanto, que a casa de praia dos tios ainda seja um lugar de esperança para romper com esse ciclo nefasto.        


Foto de capa: Gemini IA

Sobre o autor

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Jorge Barcellos
Graduado em História (IFCH/UFRGS) com Mestrado e Doutorado em Educação (PPGEDU/UFRGS). Entre 1997 e 2022 desenvolveu o projeto Educação para Cidadania da Câmara Municipal. É autor de 21 livros disponibilizados gratuitamente em seu site jorgebarcellos.pro.br. Servidor público aposentado, presta serviços de consultoria editorial e ação educativa para escolas e instituições. É casado com a socióloga Denise Barcellos e tem um filho, o advogado Eduardo Machado. http://lattes.cnpq.br/5729306431041524

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