As eleições de 2026 serão as mais decisivas desde a redemocratização, não apenas pelo confronto entre projetos políticos, mas pelo grande risco de avanço das forças autoritárias. Mais do que nunca, indicadores isolados — econômicos, sociais ou de segurança — não explicam, por si, o comportamento eleitoral.
O Brasil vive um descompasso entre dados objetivos e experiência cotidiana: o emprego cresce e a pobreza recua, mas o custo de vida, a desigualdade e o endividamento limitam a percepção de bem-estar; a violência apresenta recuos, mas a sensação de insegurança permanece elevada.
Nesse cenário, o voto passa a ser cada vez mais moldado por percepções, valores e narrativas que circulam no ambiente fragmentado dos meios de comunicação, principalmente nas redes digitais e religiosas.
A disputa política se torna uma disputa sobre interpretações da realidade. Para ajudar a compreender o ambiente em que acontece essa disputa, elaboramos a série de artigos que começa a ser publicada hoje.
Serão sete artigos publicados em sequência e depois reunidos em um dossiê que será disponibilizado em PDF. Neles, para compreender como se forma o voto em um país sob tensão, trataremos da economia, da desigualdade, da segurança, dos valores e da mídia. Trata-se de analisar como dados, percepções e narrativas se combinam para definir os rumos da eleição de 2026.
Artigo 1 — Trabalho e percepção: pleno emprego sem a sensação de bem-estar no Brasil
Analisa a queda histórica do desemprego, o aumento da ocupação e o crescimento da massa salarial, evidenciando seus limites estruturais e sua tradução incompleta em percepção de melhoria.
Artigo 2 — Renda, custo de vida e dívida: quando o dinheiro não chega ao final do mês
Examina o descompasso entre renda e bem-estar, destacando o impacto do custo de vida, juros e endividamento na experiência econômica da população.
Artigo 3 — Crescimento sem distribuição: a desigualdade como estrutura do país
Mostra como a desigualdade limita os efeitos do crescimento e organiza a dinâmica social e política.
Artigo 4 — Violência e sua percepção: como o medo redefine o debate público
Analisa a dissociação entre os dados de violência e a sensação de insegurança e seus efeitos eleitorais.
Artigo 5 — Valores e identidade: o avanço conservador e a reorganização do voto
Examina o papel da religião, das identidades e das pautas morais na definição das preferências políticas.
Artigo 6 — Mídia e poder: quem constrói a noção de realidade no Brasil
Analisa o papel da mídia tradicional, religiosa, digital e política na formação das percepções e na disputa de narrativas.
Artigo 7 — O país que vota sob tensão: como dados, percepções e narrativas definem a eleição de 2026
Integra a análise dos eixos já tratados no dossiê e analisa, à luz das pesquisas eleitorais, como esses fatores se traduzem na disputa política concreta.
Lógica integrada do conjunto de artigos
| Etapa | Eixo | Pergunta central |
| 1 | Trabalho | A economia melhorou? |
| 2 | Custo de vida | Por que isso não se traduz em bem-estar? |
| 3 | Desigualdade | As grandes diferenças não mudam? |
| 4 | Segurança | Por que o medo da violência continua? |
| 5 | Valores | Valores determinam voto? |
| 6 | Mídia | Quem define a percepção da realidade? |
| 7 | Política | Como tudo isso define a eleição? |
Trabalho e percepção: pleno emprego sem a sensação de bem-estar no Brasil
Desemprego em nível historicamente baixo convive com informalidade elevada, renda limitada e custo de vida alto — combinação que redefine não apenas a economia, mas a percepção social e o comportamento político
Um mercado de trabalho que melhora — mas não resolve
O Brasil chega a 2026 com um indicador que, isoladamente, sugere um cenário favorável no mundo do trabalho. A taxa média anual de desocupação atingiu 5,6% em 2025, o menor nível da série histórica da PNAD Contínua iniciada em 2012. No trimestre encerrado em janeiro de 2026, esse percentual recuou para 5,4%, repetindo o menor patamar já registrado.

Ao mesmo tempo, o número de pessoas ocupadas alcançou cerca de 103 milhões, e o nível de ocupação chegou a 59,1% da população em idade de trabalhar, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Em termos estatísticos, trata-se de um quadro próximo ao pleno emprego.
No entanto, essa melhora exige uma leitura mais aprofundada. A expansão do emprego não elimina, por si só, as fragilidades estruturais do mercado de trabalho brasileiro. Ao contrário, tende a torná-las mais visíveis.

A persistência da precariedade
A melhora quantitativa convive com limitações importantes. A taxa de informalidade permaneceu, nos últimos três anos, na casa dos 38%, indicando que mais de um terço da força de trabalho permanece sem acesso pleno a direitos trabalhistas e à proteção social. Sabe-se que nas ocupações informais, de maneira geral, ocorrem piores condições de trabalho.
Ao mesmo tempo, a taxa de subutilização da força de trabalho — que inclui desempregados, subocupados e pessoas disponíveis — está em queda constante e foi de 14,5%. Esses números revelam que o problema do trabalho no Brasil não é apenas a ausência de emprego, mas a qualidade da inserção produtiva. A expansão do número de ocupados não se traduz automaticamente em estabilidade, proteção social ou previsibilidade de renda.

Renda em recuperação, mas insuficiente
A renda do trabalho acompanhou a melhora do emprego, confirmando a recuperação do mercado de trabalho nos últimos anos. O rendimento médio atingiu R$ 3.560 em 2025 e chegou a cerca de R$ 3.652 no início de 2026, enquanto a massa de rendimentos alcançou R$ 361,7 bilhões — o maior valor da série histórica iniciada em 2012.
Em termos reais, a renda do trabalho apresentou crescimento consistente no período recente. Entre 2022 e 2025, o rendimento médio real aumentou cerca de 15%, refletindo a queda do desemprego e a ampliação da ocupação. No mesmo intervalo, contudo, o custo de vida — medido pelo IPCA — acumulou alta de aproximadamente 21%.
Essa diferença não é trivial. Ela indica que, apesar da recuperação da renda, houve uma perda relativa de poder de compra da ordem de 6% a 7% no período. Em outras palavras, o ganho de renda não foi suficiente para compensar plenamente o aumento dos preços.
Esse descompasso ajuda a explicar por que a melhora dos indicadores objetivos não se traduz automaticamente em sensação de bem-estar. O crescimento dos rendimentos ocorre em um contexto de custo de vida elevado — especialmente nas grandes cidades e nos itens de maior peso no orçamento das famílias, como alimentação, energia e habitação —, que absorve parcela significativa desse aumento.
O resultado é um padrão recorrente na economia brasileira recente: a renda cresce, mas o poder de compra permanece limitado. A melhora existe, mas sua capacidade de transformar o cotidiano em uma percepção concreta de ascensão social segue restrita — sobretudo para os estratos de renda baixa e média baixa, onde a pressão sobre o orçamento é mais intensa.

A estrutura social como limite
Para compreender por que o crescimento do emprego e da renda não se traduz em bem-estar generalizado, é necessário observar a estrutura da distribuição de renda no país.
Estimativas consolidadas indicam que cerca de 75 milhões de brasileiros não possuem renda própria. São crianças e adolescentes, estudantes, donas de casa, pessoas fora da força de trabalho. Não são necessariamente pobres, mas dependem da renda de poucos provedores.
Além disso, entre 50 e 60 milhões dos brasileiros vivem com até R$ 1.500 mensais; ao todo, entre 120 e 135 milhões de pessoas — algo entre 60% e 65% da população — estão concentradas na base econômica.
| ESTRUTURA DE RENDA DA POPULAÇÃO BRASILEIRA (2025–2026) | |||
| (valores mensais aproximados – renda individual do trabalho e outras fontes) | |||
| 🟥 Base da pirâmide – baixa ou nenhuma renda Participação total estimada: ~58% – 62% da população | |||
| Sem renda | ~70–75 milhões | ~33–35% | Crianças, estudantes, donas de casa, fora da força de trabalho |
| Até R$ 500 | ~15 milhões | ~7% | Extrema vulnerabilidade, dependência de transferências |
| R$ 500 – R$ 1.500 | ~40 milhões | ~18–20% | Baixa renda, informalidade elevada |
| 🟨 Estrato intermediário – renda baixa a média Participação total estimada: ~30% da população | |||
| R$ 1.500 – R$ 3.000 | ~35 milhões | ~16% | Base da classe trabalhadora formal |
| R$ 3.000 – R$ 5.000 | ~20 milhões | ~9% | Classe média baixa |
| R$ 5.000 – R$ 10.000 | ~10 milhões | ~5% | Classe média consolidada |
| 🟩 Topo da distribuição – alta renda Participação total estimada: ~3% da população | |||
| R$ 10.000 – R$ 20.000 | ~4 milhões | ~2% | Alta renda |
| Acima de R$ 20.000 | ~1–2 milhões | ~1% | Elite econômica |
| Quadro 1 – Elaboração do autor com base em dados do IBGE | |||
Essa configuração revela uma característica estrutural do Brasil: uma base extremamente larga, formada por uma enorme parcela da população sem renda ou com renda muito baixa; um topo estreito, concentrando alta renda; um estrato intermediário comprimido, com uma classe média relativamente pequena.
Trata-se de uma economia em que o dinamismo do emprego não é suficiente para alterar a posição majoritária da população na base da pirâmide social, limitando os efeitos do crescimento do emprego sobre o bem-estar geral.

Figura 1 – Elaboração do autor com base em dados do IBGE
O salário mínimo e sua insuficiência
O salário mínimo reforça esse diagnóstico. Em 2026, foi fixado em R$ 1.621, o equivalente a aproximadamente US$ 295. Valor muito inferior aos R$ 7.067,18 estimados como necessários pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos para atender às necessidades básicas de uma família.
Essa diferença não expressa apenas uma defasagem numérica. Ela revela o limite do padrão de remuneração vigente para assegurar condições mínimas de estabilidade econômica e o limite do salário mínimo como instrumento de garantia de bem-estar.
Salário mínimo e poder de compra na América Latina
A comparação internacional reforça o caráter estrutural do problema brasileiro.
Não obstante o Brasil possua a maior economia da América Latina, em termos nominais, o salário mínimo do Brasil situa-se em faixa intermediária na América Latina, bem abaixo de países como o Chile e o Uruguai, abaixo do Paraguai e mais próximo de economias como a Bolívia e o Peru.
No entanto, quando ajustado pelo custo de vida e pelo poder de compra, o quadro se torna mais desfavorável: países com salários mínimos nominais semelhantes apresentam maior capacidade de consumo real (veja no quadro abaixo o Salário Ajustado Pelo Poder de Compra).

O custo de vida como variável central
O custo de vida opera como elemento decisivo nessa equação, pois é ele que conecta todos esses indicadores. Moradia, alimentação e transporte consomem parcela crescente da renda, sobretudo nos centros urbanos.
A relação entre salário mínimo e custo de vida coloca o Brasil em posição de baixa efetividade distributiva.
A consequência é uma compressão contínua do orçamento familiar. O dinheiro entra, mas sua capacidade de gerar segurança econômica é limitada.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que a melhora do mercado de trabalho não se traduz automaticamente em melhora equivalente das condições de vida.

O paradoxo brasileiro
A combinação desses fatores define o paradoxo atual: o Brasil tem emprego, mas não tem segurança econômica generalizada.
O país superou, em grande medida, o problema do desemprego em massa, mas não resolveu a precariedade, a baixa remuneração e a pressão do custo de vida.
Esse padrão se torna mais evidente justamente quando o desemprego cai. Ao eliminar o problema visível, expõe-se o conjunto de fragilidades estruturais.
Entre o dado e a experiência: a economia vivida
O ponto central não está apenas nos indicadores, mas na forma como eles são experimentados. O trabalhador não avalia sua condição apenas pelo fato de estar empregado, mas pela capacidade de sua renda sustentar o cotidiano.
A experiência concreta — marcada por informalidade, instabilidade a ela associada e custo de vida elevado — pesa mais do que a queda do desemprego.
Além disso, essa percepção é mediada por diferentes circuitos de comunicação. Enquanto os indicadores macroeconômicos apontam melhora, o cotidiano — marcado por restrições de consumo e custo elevado — tende a reforçar a sensação de aperto.
Forma-se, assim, uma dissociação entre economia medida e economia vivida.
Do trabalho ao voto: o limite político do pleno emprego
Esse descompasso tem efeitos diretos sobre o comportamento eleitoral. A melhora do emprego impede uma deterioração mais acentuada da avaliação econômica, mas não produz satisfação suficiente para organizar o voto de forma decisiva.
O eleitor permanece aberto a outras dimensões de julgamento — especialmente aquelas relacionadas à segurança, à estabilidade e aos valores. A economia continua relevante, mas deixa de ser suficiente.
Quando trabalhar não basta
O Brasil entra em uma fase em que o desafio central deixou de ser gerar empregos e passou a ser garantir que esses empregos produzam bem-estar efetivo.
O desempenho recente do mercado de trabalho é relevante e não deve ser subestimado. No entanto, seus efeitos são limitados por fatores estruturais que impedem a conversão do emprego em segurança econômica ampla.
Isso implica reduzir a informalidade, elevando a proteção ao trabalho, elevar a renda real e enfrentar o alto custo de vida. Sem isso, o mercado de trabalho continuará operando como mecanismo de ocupação, mas não como instrumento de efetiva inclusão social.
Com mais de 120 milhões de brasileiros concentrados na base da pirâmide social, o país revela que o problema não está apenas no volume de empregos, mas na estrutura distributiva da renda.
Enquanto essa transformação não se consolida, o país tende a operar sob um padrão recorrente: melhora dos indicadores, mas persistência da insegurança econômica.
É nesse intervalo — entre o avanço estatístico e a experiência social — que se forma, de maneira cada vez mais decisiva, o comportamento eleitoral no Brasil contemporâneo.
Nota editorial e fontes
As análises foram elaboradas com base em dados oficiais e séries históricas, com apoio de ferramentas de inteligência artificial e revisão da equipe da RED.
Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD Contínua); Ministério do Trabalho e Emprego; Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos.
Ilustração da capa: Brasil: Emprego e renda em alta e poder de compra em queda relativa – Imagem gerada por IA




