Comunicação não é custo — é o ativo invisível que sustenta reputações

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Quando tudo vai bem, ela é ignorada. Quando a crise chega, sua ausência cobra o preço mais alto.

Há uma curiosa — e recorrente — contradição no mundo corporativo e institucional: a Comunicação é frequentemente tratada como acessório. Um apoio. Um “luxo organizacional” que pode ser reduzido, terceirizado ou improvisado sem grandes consequências. Ao menos, é isso que muitos acreditam… até a primeira crise.

Porque a crise, ao contrário dos relatórios e dos planejamentos estratégicos, não tolera improviso. E é justamente nesse momento que a ausência de uma comunicação estruturada, inteligente e estratégica se revela de forma mais evidente — e, muitas vezes, irreversível.

Empresas, governos e instituições ainda subestimam algo essencial: a informação não é apenas o que se diz, mas como, quando e por quem ela chega às pessoas. Não se trata de estética, nem de formalidade. Trata-se de percepção. E percepção, no mundo real, é valor.

Uma organização pode ter um excelente produto, uma política pública bem desenhada ou um serviço eficiente. Mas, se não consegue comunicar isso com clareza, consistência e credibilidade, ela simplesmente não existe para o seu público — ou pior, passa a existir de forma distorcida.

A Comunicação, quando bem estruturada, cumpre um papel que vai muito além da divulgação. Ela organiza narrativas, alinha expectativas, constrói confiança e, sobretudo, protege reputações. E reputação, ao contrário de outros ativos, leva anos para ser construída — e minutos para ser destruída.

Não por acaso, quando uma crise emerge — seja ela institucional, reputacional ou operacional — a primeira reação das organizações é recorrer à Comunicação. Mas, nesse momento, muitas vezes já é tarde. Porque não se constrói credibilidade em meio ao incêndio. Credibilidade se constrói antes, no cotidiano, na coerência entre discurso e prática.

É nesse ponto que se revela o erro estrutural: tratar a Comunicação como área operacional, quando ela deveria ocupar posição estratégica nas decisões de alto nível. Comunicação não é apenas execução. É leitura de cenário, gestão de riscos, construção de imagem e, sobretudo, gestão de confiança.

No setor público, esse problema ganha contornos ainda mais graves. A comunicação institucional não é apenas uma ferramenta de imagem — ela é um dever democrático. É por meio dela que políticas públicas são compreendidas, direitos são conhecidos e ações governamentais são legitimadas perante a sociedade. Quando falha, não compromete apenas a reputação de um órgão — compromete a própria relação entre Estado e cidadão.

Já no setor privado, o impacto é igualmente profundo. Marcas não são definidas apenas por aquilo que entregam, mas pela forma como são percebidas. E essa percepção é moldada, em grande medida, pela Comunicação. Ignorá-la é abrir mão de controlar a própria narrativa — e, em tempos de redes sociais e informação descentralizada, isso equivale a entregar sua imagem ao acaso.

E não é preciso ir muito longe para encontrar exemplos concretos dessa realidade. Recentemente, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, fez críticas públicas à comunicação do próprio governo federal, evidenciando dificuldades na forma como ações e resultados vêm sendo apresentados à sociedade. O episódio, noticiado pela imprensa, não revela apenas uma falha circunstancial, mas expõe uma fragilidade estrutural: mesmo no centro do poder, a Comunicação ainda é tratada como acessória — até que sua ausência se torne insustentável.

Talvez o maior equívoco seja acreditar que Comunicação é algo que se ativa quando necessário. Não é. Comunicação é construção contínua. É presença estratégica. É antecipação.

Como já apontava Jürgen Habermas, não há legitimidade sem comunicação — e, poderíamos acrescentar, não há reputação que sobreviva à sua negligência. Em um ambiente marcado pela hiperconectividade e pela disputa permanente de narrativas, quem não comunica com estratégia não apenas perde espaço: perde o controle sobre o próprio significado de existir.

No fim das contas, a pergunta não é se sua organização precisa de Comunicação estratégica. A pergunta é: quanto custa ser definido pelos outros?

Porque a Comunicação nunca deixa de existir. Ela apenas deixa de ser sua.


Foto de capa: IA

Sobre o autor

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Lucas Tedesco
Bacharel em Comunicação Social pela UFSM e graduando em Direito pela UFRGS. Atua na área pública com experiência em comunicação institucional e governança.

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