A Esquerda Não Pode Confundir Cabeça de Chapa com Estratégia Histórica

Última edição em abril 7, 2026, 12:01

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Imagem gerada por IA ChatGPT

Há um erro recorrente em setores do PT e de parte da esquerda brasileira: transformar a disputa pela cabeça de chapa em uma espécie de princípio inegociável, como se a preservação de protagonismos partidários fosse, por si só, sinônimo de coerência política. Não é. Em muitos casos, essa resistência em abrir mão de uma candidatura própria não expressa firmeza estratégica, mas sim apego a interesses internos, à manutenção de espaços de poder e à sobrevivência de grupos que, cada vez mais, demonstram dificuldade de compreender a profundidade da crise política, social e civilizatória em que estamos inseridos.

É preciso dizer com clareza: não se trata de negar a importância da consulta interna, do debate partidário ou da participação da militância na escolha de nomes e candidaturas. Esses elementos são parte constitutiva da tradição democrática da esquerda e precisam ser preservados. O problema surge quando essa dinâmica interna passa a ser tratada como um fim em si mesmo, desconectada da realidade concreta e da necessidade histórica de construir unidade política mais ampla para enfrentar inimigos muito maiores do que as disputas de aparelho.

A unidade de forças não pode ser reduzida a uma negociação sobre nomes. Ela precisa ser entendida como parte de um processo mais profundo e sistemático de luta, resistência e reorganização do campo democrático-popular. Uma frente ampla e progressista não pode existir apenas como arranjo eleitoral momentâneo, pensado para responder ao calendário das urnas. Ela precisa ser construída como estratégia de médio e longo prazo, capaz de preparar lideranças, consolidar projetos e acumular força social e institucional para enfrentar o avanço do fascismo e da extrema direita no Brasil, no Rio Grande do Sul e no mundo.

E esse avanço não é retórico, nem abstrato. A extrema direita internacional vem atuando com método, com base social, com ocupação cultural e com projeto de poder. Seu objetivo não é apenas vencer eleições, mas desmontar direitos, enfraquecer instituições, atacar a soberania nacional e subordinar os Estados a interesses autoritários e econômicos. No Brasil, essa lógica se expressa com nitidez. A direita e a extrema direita organizaram, e seguem organizando, uma estratégia de ocupação institucional voltada inclusive à eleição de senadores comprometidos com o enfrentamento ao STF e com a sabotagem de qualquer governo federal que não seja o seu. Não se trata apenas de oposição política. Trata-se da construção de uma base de poder destinada a bloquear, constranger e deslegitimar a democracia quando ela não serve aos seus interesses.

Diante desse cenário, insistir em pretensões hegemonistas e em candidaturas formuladas a partir de cálculos internos revela uma leitura distorcida da realidade. Parte da esquerda segue agindo como se ainda estivesse num ambiente político ordinário, em que bastaria repetir fórmulas antigas, reafirmar posições e disputar espaços dentro da própria bolha. Mas o mundo mudou. O centro da disputa hoje é também civilizatório. Está em jogo a capacidade de defender as instituições democráticas, os direitos sociais, a soberania e a própria ideia de povo como sujeito político coletivo.

O problema é que, enquanto a extrema direita se reorganizou e aprofundou seu enraizamento social, parte da esquerda se burocratizou. O discurso da “decisão coletiva”, da “escuta das bases” e da “construção democrática” muitas vezes aparece esvaziado, servindo mais como cobertura discursiva para interesses de correntes e grupos do que como expressão real de elaboração popular. Há, frequentemente, uma simulação de debate, quando o que está em disputa, no fundo, são cargos, mandatos, espaços no governo e posições de influência.

Isso ajuda a explicar por que tantas vezes a esquerda parece falar para si mesma. Nas periferias, nos bairros populares, entre trabalhadores precarizados, autônomos, informais e pequenos empreendedores, houve um deslocamento profundo na forma de pensar a política e a vida. O PT, em especial, que nasceu do trabalho de base, da luta sindical e da organização popular, afastou-se em grande medida dessa experiência cotidiana. Tornou-se mais institucional, mais pragmático, mais dependente da lógica eleitoral e menos presente no chão concreto onde se formam valores, visões de mundo e identidades coletivas.

Nesse vazio, a direita e a extrema direita cresceram. O fizeram com uma linguagem acessível, moralizante, emocional e direta. Família, pátria e Deus continuam sendo palavras de forte apelo, mas há algo ainda mais poderoso hoje nas bases sociais: o empreendedorismo. A ideia de que cada um deve se virar sozinho, de que o Estado não serve, de que o poder público é apenas cabide de emprego e espaço de privilégio para políticos. Essa narrativa, profundamente neoliberal, foi naturalizada na experiência cotidiana de milhões de brasileiros.

E a esquerda, em vez de enfrentar isso com paciência política, formação, presença territorial e reorganização coletiva, muitas vezes recuou para disputas simbólicas importantes, mas mal traduzidas para a vida concreta do povo. O problema não está na defesa dos direitos humanos, das pautas identitárias, da diversidade ou das lutas emancipatórias. Ao contrário: essas agendas são fundamentais. O erro esteve em não conseguir articulá-las, de forma pedagógica e popular, à realidade material da maioria da classe trabalhadora. Sem mediação política, sem trabalho de base e sem organização coletiva, muitos desses direitos passaram a ser vistos por parcelas do povo como algo distante, estranho ou até contrário ao que entendem como “normal”, dentro de uma sociedade ainda profundamente marcada pelo patriarcalismo, pelo conservadorismo e pelo paternalismo.

Essa desconexão cobra seu preço. De um lado, temos uma esquerda frequentemente presa aos seus próprios códigos, às suas liturgias internas e às suas disputas de controle. De outro, um povo submetido a uma ofensiva ideológica individualista, religiosa, moralista e antissolidária, impulsionada pelo neoliberalismo e instrumentalizada politicamente pela extrema direita. O resultado é o distanciamento crescente entre a esquerda e parcelas significativas da população.

Por isso, insistir que a cabeça de chapa deve ser, obrigatoriamente, deste ou daquele partido, independentemente das condições políticas e do acúmulo estratégico necessário, não é necessariamente sinal de convicção. Pode ser, muitas vezes, sintoma de miopia histórica. A tarefa central da esquerda não é preservar vaidades organizativas, mas construir força social, política e institucional para enfrentar uma ofensiva autoritária de longa duração.

A pergunta decisiva, portanto, não é apenas “quem encabeça?”, mas “que campo político estamos construindo para resistir e vencer?”. A resposta a essa pergunta exige menos apego ao controle e mais capacidade de composição; menos cálculo de curto prazo e mais visão histórica; menos retórica de pureza e mais compromisso real com a reconstrução de um projeto popular enraizado na vida concreta do povo brasileiro.

Se a esquerda quiser voltar a ser maioria social e referência de esperança, precisará compreender que unidade não é submissão, e que abrir mão de protagonismos circunstanciais pode ser, em determinadas conjunturas, a expressão mais alta de maturidade política. O que está em jogo é muito maior do que uma candidatura. É a capacidade de construir, com coragem e lucidez, uma frente democrática e progressista à altura do tempo histórico em que vivemos.


Ilustração da capa gerada por IA

Sobre o autor

Carlos Ferreira
Carlos Ferreira
Membro do Diretório do PT Porto Alegre e Jornalista/Produtor Cultural

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