2026, um ano tenso e imprevisível

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ChatGPT Image 8 de mar. de 2026, 22_43_40

Não sou dado à profecias e não dou aos signos e horóscopos a menor credibilidade. Ou, como alguns dizem: – Yo no creo en brujas. Mas mesmo o que meus olhos não veem, meu coração às vezes palpita em dúvida: – Será que as bruxas existem mesmo? Pois ando pensando nisso a propósito do ano em curso. Tenho uma sensação de se trata de um momento especial na História, à espera, talvez de um “acontecimento” para convencer os incrédulos sobre seu significado. Já atravessei tempos assim: Vivi e me recordo do fatídico 54 no Brasil, depois o 61, da Legalidade, pouco tempo depois, o 1968, que revirou o mundo, assisti de longe o 1989, quando caiu o muro de Berlim, seguindo-se o fim da União Soviética de grande impacto em todos os cantos do mundo diante da “estrela despedaçada”, mesmo ano da primeira eleição direta para Presidente aqui, depois de 29 anos de jejum. Daí, aliás, entramos num parêntese histórico, ao qual os mais apressados entenderiam como seu próprio fim: O fim da História, tamanha a avalanche de otimismo com uma nova Era de Paz e Prosperidade prometida pela Pax Americana e que se reverteu, no Brasil, pela sucessão de renovações políticas: O insinuante caçador de Marajás, O Príncipe da Sociologia, um operário no poder, três vezes eleito, uma mulher combatente, até mesmo um certo capitão que prometia salvar o Brasil e não conseguiu salvar-se a si mesmo…Na verdade, neste parêntese que nos envolve, o Brasil meio que parou. Pior do que na era castilhista, quando adotavam o lema: “Mudar conservando”. Avançamos, inequivocamente, nas conquistas democráticas, mas emperramos na Economia. É certo, também, que nesses quase 40 anos enterramos um certo passado , não só internamente, mas em todo o Ocidente. O Oriente, enfim, tem outra medida do tempo, mede-se em milênios. Nós, aqui, é que inventamos a velocidade e nela mergulhamos atropelando as horas e os dias.

Quem não percebe que a Pax Americana está desmoronando? A reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos trouxe à tona os graves problemas internos daquela civilização que selava suas rachaduras com a euforia do progresso. Trump não é um acidente de percurso, mas o corolário de tensões que já não conseguem ser dissimuladas. Ele mesmo, aliás, mesmo alimentado pelo seu narcisismo, diz o que pensa. Está longe do político de carreira acostumado à dissimulação. Prefere o caos, que aprofunda com a franqueza grosseira de seus gestos e ações: Tarifaço, ICE “neles”, Bombas no Irã, Maduro sequestrado, aliados europeus abandonados à sua própria paranóia, a Goenlândia é nossa (1), como o Canal do Panamá, nunca deveríamos tê-los devolvido àqueles que não saberão garantir “nossa” segurança, o Canadá será o 51º. Estado americano. Como diz, com propriedade, Paulo M.F. numa das redes que participo:

“Trump é alguém que faz uma performance, que nunca deve ser tomado literalmente. Trump carrega as contradições desse conflito que rasga a sociedade americana, seja na sua trajetória, seja nas suas alianças, seja nos recuos que é forçado a fazer. Ele é o Espírito (de porco) do Tempo aparecendo numa mídia visual que chega em sua caixa postal. A revolta em todos os sentidos que você queira entender, inclusive o de você ficar revoltado com o que ele fala e faz.” Há cuidadosos especialistas, enfim, que hoje se debruçam sobre o que está havendo internamente nos Estados Unidos, processo que só o tempo nos permitirá compreendê-lo em sua profundidade e consequências. Não é ainda o fim do Império, que se nutre ainda de poderosas forças para sobreviver ao confronto que lhe poderá ser catastrófico, quem sabe, derradeiro, mas é uma reviravolta que coloca o mundo em alerta. Estaríamos já na III Grande Guerra?

No Brasil, há mudanças estruturais também, não tanto econômicas, apesar de que reencarnamos uma vigorosa burguesia agrária voltada totalmente para o exterior, desinteressada dos projetos de afirmação tecno-industrial que animaram a corrente progressista desde Vargas; há mudanças estruturais na sociedade brasileira que, depois do salto (inédito) em 30 anos, de 1970 a 2000, de “90 milhões em ação”, para 180 milhões – hoje, 2026, mais 23 milhões-, moureja favelada nos subúrbios das nossas capitais – tem torno de 100 milhões vivendo com até 1 salário mínimo -; há mudanças, por fim, no universo político, à luz, de um lado, da anulação, por morte ou avançada idade, de lideranças que se revezaram no jogo democrático – Sarney, Ulysses, Brizola, Prestes, FHC- , de outro, pela emergência de novos valores da pós-modernidade em curso.

Veja-se, por exemplo, Lula, o último sobrevivente, com 80 anos, hoje alvo dos americanos e já limitado para se mover à direita, como exige a conjuntura eleitoral : se prepara para a campanha de outubro, numa frágil vantagem nas pesquisas, exortando seus leais parceiros a verdadeiros sacrifícios em busca de palanques estaduais, fragilizados pela obscuridade de lideranças. A direita extrema, comandada por um moribundo ciente dos interesses familiares a insisitir no nome mais fraco dentre os seus, condenado a fracasso. Isso alimenta, claro, o ressurgimento de um núcleo contestador habilmente dirigido pelo Ex Prefeito Kassab, dono do PSD, em torno de Governador do Paraná como alternativa. (outros governadores, além do RS e GO, e muitos prefeitos de capital, atentos aos 50% que rejeitam Lula e Flávio, dos quais a maior parte sem qualquer preferência ideológica, lhe seguirão). Luta renhida, pois, entre dois polos calcificados e uma terceira via ressurgente.

Ano, enfim, de muitas apreensões, dúvidas, e desconfio eu, de mudanças. Lá e cá…


Foto de capa: IA

Sobre o autor

Texto do seu parágrafo (13)
Paulo Timm
Economista, funcionário aposentado do IPEA, poeta, romancista, professor universitário e editor da Rádio Resumo publicado em A FOLHA, Torres em 31 de janeiro de 2025.

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