Aplicação do Modelo de Hierarquia Rentista Global

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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

A aplicação do modelo de Hierarquia Rentista Global (HRG) a EUA, China e América Latina revela não apenas posições distintas na hierarquia, mas estratégias radicalmente diferentes de inserção financeira, de gestão do rentismo e de relação entre Estado, moeda e acumulação de riqueza. O modelo mostra não haver um único tipo de rentismo global, mas formas específicas de operar, regular, exportar ou internalizar a renda financeira, conforme a posição sistêmica.

Nos Estados Unidos, predomina o rentismo emissor hegemônico. Daí sua posição na hierarquia está no Nível I como rentismo emissor central.

Afinal, é o emissor da principal moeda de reserva global. Por isso, é o único Estado capaz de financiar déficits externos crônicos, sustentar juros reais estruturalmente baixos e ainda absorver crises globais como “porto seguro”.

Na estrutura do rentismo, sua dívida pública é classificada como safe asset global. Seu mercado de capitais é profundo, líquido e central. O sistema bancário e shadow banking (ou sistema bancário paralelo “na sombra”) são altamente alavancados. As famílias conseguem patrimonialização via fundos, ações e imóveis.

O comportamento predominante é de alta tolerância ao risco e um rentismo expansivo e ofensivo. Exporta capital, além de volatilidade, e importa poupança global.

Sua função sistêmica no HRG define a taxa de desconto global, socializa perdas via Fed e Tesouro, e transforma crises em reforço de hegemonia. Em síntese, o rentismo nos EUA não é parasitário da economia real somente porque ele é o modo de governança do capitalismo global.

Na China, o rentismo é controlado e subordinado à estratégia produtiva. Sua posição na hierarquia está saindo do Nível II para o Nível I, ou seja, tem uma posição híbrida. Sua moeda não é plenamente conversível. Adota controle de capitais. O Estado chinês é soberano sobre sistema financeiro.

Na estrutura do seu rentismo, o sistema bancário estatal é dominante. O mercado de capitais é grande, mas politicamente subordinado. A dívida pública e paraestatal é usada como instrumento de política industrial. A poupança doméstica é elevada, com poucas alternativas externas.

O comportamento dominante combina rentismo administrado com juros controlados e repressão financeira parcial. Há baixa centralidade do acionista individual.

Sua função sistêmica no HRG é neutralizar a hierarquia monetária via controle de capitais e planejamento financeiro. Exporta capital produtivo, não rentismo puro. Usa finanças como infraestrutura do desenvolvimento, não como fim.

Em síntese, a China participa do sistema rentista global sem se submeter integralmente a ele, subordinando finanças à acumulação produtiva e à estratégia geopolítica.

Na América Latina, predomina um rentismo periférico disciplinado. Sua posição na hierarquia está no Nível III com moedas subordinadas, forte dependência de fluxos externos, mercados de capitais estreitos e voláteis.

A estrutura do rentismo se compõe com dívida pública como principal ativo financeiro, sistema bancário concentrado, mercado acionário dominado por estrangeiros e a maioria das famílias endividadas e na defensiva quanto à finanças.

O comportamento dominante demonstra uma aversão extrema ao risco, preferência por renda fixa e internalização social do juro alto como “prudência”.

Sua função sistêmica no HRG é oferecer prêmio de risco, juros elevados e liquidez para arbitragem global. Absorve choques externos via câmbio, juros e austeridade fiscal.

Na realidade, o rentismo latino-americano não é escolha doméstica, mas condição estrutural de inserção subordinada.

Comparação Direta

DimensãoEUAChinaAmérica Latina
Posição HRGNível II–II híbridoNível III
MoedaReserva globalControladaSubordinada
Papel do EstadoGarantidor de riscoPlanejador financeiroPagador de renda
JurosBaixosAdministradosAltos
Mercado de capitaisCentralSubordinadoAcessório
RentismoExpansivoContidoDisciplinador
ComportamentoPatrimonialPrudencial estatalDefensivo

O modelo da dinâmica relacional no HRG mostra o rentismo dos EUA depender da existência de poupança global e periferias disciplinadas. A estratégia chinesa busca escapar da armadilha rentista periférica sem confrontar diretamente a hegemonia monetária. A América Latina permanece presa à lógica de atração de capital e com baixa capacidade de transição de nível.

As implicações estratégicas são os Estados Unidos incentivarem financeirização global e estarem tentando resistir a qualquer ruptura monetária. A China investe em moedas digitais soberanas, comércio em moedas locais e instituições financeiras alternativas.

A América Latina, sem coordenação regional, tende a aprofundar o rentismo periférico. Com integração financeira e monetária poderia reduzir vulnerabilidade, mas dificilmente eliminá-la.

A aplicação do modelo HRG evidencia o capitalismo contemporâneo ser uma ordem rentista global hierarquizada, onde centro, periferia e estratégias híbridas coexistem funcionalmente. Os EUA governam essa ordem, a China a utiliza seletivamente, e a América Latina a suporta.

A Unit dos BRICS é um projeto-piloto, lançado em outubro de 2025, ainda não constituindo uma política oficial do bloco. Está sendo acompanhado de perto por outros países e especialistas, representando um movimento em direção a um sistema financeiro mais diversificado.

Ela é uma unidade monetária digital experimental, lastreada em ouro e moedas locais (Real, Yuan, Rúpia, Rublo, Rand), lançada como projeto-piloto recentemente. Visa facilitar transações comerciais entre os membros e reduzir a dependência do dólar, sem substituir as moedas nacionais, funcionando como uma cesta de moedas com 40% de ouro e 60% de moedas do bloco.

Criada para pagamentos transfronteiriços, a Unit, com base na tecnologia blockchain Cardano, reflete a busca por um sistema financeiro mais multipolar. Tem como meta fortalecer o comércio entre países emergentes.

Como lastro, cada unidade está atrelada a uma cesta de ouro (40%) e moedas dos membros BRICS (60%), com pesos iguais para o real, yuan, rúpia, rublo e rand. O valor da Unit flutua diariamente com o mercado, ajustando-se ao valor do ouro e das moedas componentes, sendo ainda uma experiência e não uma moeda formal.

Como tecnologia, utiliza a rede blockchain Cardano para transações rápidas e baratas, registrando todas as operações de forma segura e transparente. O objetivo é facilitar pagamentos entre os membros, reduzir custos de transação e diminuir a influência do dólar americano no comércio global, sem substituir moedas locais.

A Unit é um passo na estratégia de “desdolarização” do BRICS, criando uma alternativa neutra para o comércio internacional. O projeto é impulsionado pelo IRIAS (Instituto Internacional de Pesquisas em Sistemas Avançados) e visa uma ferramenta de transação mais independente do sistema SWIFT.

A iniciativa busca consolidar uma alternativa financeira global, com o apoio de novos membros do BRICS, desafiando o poder do dólar. Yankees go home!


*Fernando Nogueira da Costa é Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

Foto de capa:  ABr

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