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Os bastidores da manifestação bolsonarista
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O pastor Silas Malafia abriu o bolso para a realização do evento, mas quer discurso que preocupa defesa do ex-presidente Aos moldes dos preparativos que resultaram na invasão golpista de Brasília, caravanas espalhadas pelo país já se organizam com objetivo de chegar ao palco do espetáculo bolsonarista, na Avenida Paulista, em São Paulo, previsto para começar às 15h30, deste domingo (25).O ato convocado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) terá uma estrutura ímpar, bancada pelo idealizador do evento, o pastor Silas Lima Malafaia, que defende discursos inflamados. Confira os bastidores. Boca fechada? Desde a convocação da manifestação, Bolsonaro prometeu um ato distinto do que os seus apoiadores estão acostumados: sem ataques orais ou cartazes contra “quem quer que seja”, em referência às autoridades e instituições. Contudo, a lista de oradores do evento é uma ameaça a este compromisso. Segundo a jornalista Carla Araújo, no Uol, o nome que mais causa reservas é o do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Os advogados de Bolsonaro temem as falas radicais, principalmente de Ferreira. Contudo, a escalação do parlamentar é considerada inquestionável na visão de Malafaia. Conforme já noticiado pelo GGN, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) formaram consenso sobre a prisão em flagrante do ex-presidente, caso ele decida atacar a instituição ou qualquer um de seus magistrados. A estrutura Já a coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo, neste sábado, trouxe detalhes da estrutura do evento, que tem até um croqui feito pela organização de Malafaia. Não era pra menos, já que o pastor desembolsou no mínimo R$ 90 mil para a realização. Segundo a projeção, terá um carro de som específico para convidados, o trio Katrina. Já o carro de som em que Bolsonaro estará, apelidado de “Demolidor”, ficará localizado num ponto estratégico. Em frente o trio de Bolsonaro terá um espaço apelidado de “Pipoca”, onde ficarão os jornalistas, seguranças e assessores parlamentares que vão comparecer ao evento, mas que não conseguirão subir nos trios onde estarão as autoridades. De acordo com informações de Bergamo, o trio Demolidor, que leva o nome dado por seu dono, foi alugado por R$ 55 mil. Já o trio Katrina, custou R$ 19 mil. O carro de ambulância foi alugado por R$ 2 mil. E cada um dos seguranças que circulará no evento receberá diária de R$ 250. Publicado em GGN. Foto: Agência Brasil    


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A fala de Lula

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A fala de Lula
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De LINCOLN PENNA* O maior desafio ao capitalismo seria a extensão da democracia além de seus atuais limites extremamente reduzidos. Ellen Wood Essa sentença da historiadora norte-americana tem muito a ver com a fala do presidente Lula ao se referir à ação perpetrada pelas tropas israelenses especialmente na Faixa de Gaza, mas também no Líbano, a pretexto de responder ao ataque terrorista do grupo Hamas, por sinal condenado pelo governo brasileiro e explicitado por Lula. E reiterado por ocasião de seu último pronunciamento. Por que razão associo os dizeres que servem de epígrafe a este texto com o pronunciamento de Lula? Faço essa relação porque evoca-se muito a democracia, porém não se pratica a democracia nos meios formais da política, só quando convém aqueles pretensos donos da verdade. Se erro danoso cometeu a facção mais extremada em nome dos palestinos, erro maior tem cometido o governo pró-fascista de Netanyahu, à testa de uma coligação dominantemente reacionária e avessa à criação do Estado da Palestina. E ao assim procederem estimulam a radicalidade de grupos que se julgam capazes de representar um povo sem lugar de pertencimento. A fala de Lula não foi inconveniente como muitos a avaliam dependendo, é claro, do lugar e de quem emite tal juízo. A fala foi pronunciada em circunstâncias que devem ser consideradas. Naquele instante e no local em que se deu representou a indignação dos que entendem ser desumana a resposta dada pelo governo israelense, cujos motivos de revolta diante do ocorrido com seus concidadãos explicaria uma atitude. Por exemplo, uma ação cirúrgica visando os membros do Hamas. Ação que deveria poupar o povo palestino, sobretudo crianças, idosos, e os que se encontravam vulneráveis por diversas situações. A reação da ONU foi pífia, a despeito dos esforços de muitas das delegações com assento no Conselho de Segurança, organismo encarregado de tomar decisões diante de conflitos que ameaçam a paz mundial. Desse fórum tem feito parte a representação brasileira, que na ocasião fazia parte em rodízio desse organismo decisório para matérias dessa natureza. Em vão, os ataques à toda a extensão da Faixa de Gaza têm transcorrido com milhares de perdas humanas e o que se debate é até quando será possível conter esse genocídio. Sim, porque o que se assiste naquela região não tem outro nome. Denominem como quiser, mas é uma afronta aos valores humanitários, de modo a ser qualificado como um ato de lesa-humanidade plenamente tipificado. E por que a mídia nacional e internacional, sempre com as exceções para não fugir à regra, tem se manifestado condenando a fala de Lula? Por parte dos israelenses mais reativos às críticas muito provavelmente por causa da referência feita pelo presidente brasileiro a Hitler, comparando-o ao que tem feito Netanyahu. Poderia falar qualquer coisa que identificasse o holocausto produzido pelos nazistas de modo a ceifar milhões de judeus, mas ao pronunciar o nome do Führer do Terceiro Reich o impacto foi redimensionado e pôs à nu a democracia tão decantada pelos que a admitem silenciosa diante de tragédias, e incapaz de admitir que o direito de expressão possa via a ser exercido não importa em que contexto ele se dê. Lula é Lula nos improvisos, fora deles não se distingue totalmente de muitos dos chefes de estado mundo a fora. Todos esses presos aos scripts dos experts da diplomacia internacional. É esta diplomacia que azeita as eventuais divergências e pondera os pontos mais agudos das muitas controvérsias. Em nome da construção de consensos mínimos, um dos predicados da ação política voltado para a concertação e, portanto, para a acomodação de diferenças, trata-se de um expediente positivo nesse sentido. Todavia, um ser político não pode ficar refém desses acertos e deixar de se posicionar diante de fatos a merecer uma forte condenação. A fala de Lula é a expressão de um gemido puro, que vem do povo atento ao que se passa nesse cenário mundial tão intranquilo quanto cada vez mais armamentista, onde a paz não tem lugar permanente. Sua voz de fala contundente ecoou como uma tempestade avassaladora. A democracia reduzida repleta de porta-vozes repudia, censura e procura tirar proveito do que alguns chamam de erro imperdoável que segundos essas mesmas vozes fariam Lula perder o protagonismo que vem semeando em suas já numerosas passagens por vários países e entidades de grosso calibre. Ledo engano, são os líderes que fazem abalar convicções, para o bem ou para o mal. Que os tempos que virão transformem esse episódio em algo que nos faça rever as atitudes verdadeiramente democráticas, aquelas em que exercitemos o amplo direito ao contraditório. Qualquer aplauso ou condenação a tomadas de posição de uma liderança política faz parte das práticas democráticas, que não comportam limitações e nem tampouco controles de quem opina para atender ao bom- mocismo dos que pretendem formar a opinião pública, que para que possa ser assim designada é preciso que seja libertária a acomodar as contradições inerentes a sociedades tão diversificadas cultural quanto socialmente. A fala de Lula vai reverberar por algum tempo. Será com certeza objeto de questionamentos repetidos, incisivos e agressivos. Estes, certamente, por seus mais raivosos adversários, que preferem defini-lo como inimigo. Ficará, no entanto, como um grito de solidariedade aos povos que sofrem violência de todo tipo, que pode ser repreendido pelos cultores da política bem-comportada, mas jamais será esquecida pelos que sinceramente sofrem com a dor alheia. Isto também é democracia, aquela em que o que vale para mim vale tanto quanto para o meu semelhante. *Doutor em História Social; Conferencista Honorário do Real Gabinete Português de Leitura; Professor Aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); Presidente do Movimento em Defesa da Economia Nacional (MODECON); Vice-presidente do IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos). Foto: Ricardo Stuckert/PR. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Paul Blanquart – Um dominicano entre Jesus e Marx

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Paul Blanquart – Um dominicano entre Jesus e Marx
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De LENEIDE DUARTE-PLON*, de Paris No dia 15 de janeiro de 1970, em Paris, um encontro na mítica sala Mutualité, no Quartier Latin, reuniu intelectuais numa tribuna com uma grande faixa onde se lia: Solidarité avec le peuple brésilien en lutte. Jean-Paul Sartre, o grande filósofo existencialista, era o mais eminente dos oradores. Atrás da mesa, uma imensa foto de Carlos Marighella dava o tom da reunião. O revolucionário fora executado por Sérgio Fleury dia 4 de novembro de 1969, em São Paulo, e diversos dominicanos do convento das Perdizes haviam sido encarcerados e torturados por prestarem apoio logístico à Ação Libertadora Nacional (ALN), de Marighella. No mesmo encontro, foi lançada a Frente Brasileira de Informação (Front Brésilien d’Information-FBI), dirigida por Miguel Arraes, Violeta Arraes e pelo ex-deputado Marcio Moreira Alves. O primeiro boletim da FBI intitulado La lutte du peuple brésilien foi distribuído com os discursos dos participantes, além de informações sobre o Brasil e a luta contra a ditadura e a tortura. Apenas um brasileiro estava na tribuna: o ex-governador Miguel Arraes, exilado na Argélia desde o golpe de Estado de 1964. Os filósofos Jean-Paul Sartre e Michel de Certeau fizeram discursos memoráveis. Eles se dirigiam a franceses e a centenas de exilados brasileiros que lotavam a sala. Como eles, tomaram a palavra Jan Talpe, Pierre Jalée, Jean-Jacques de Félice e Miguel Arraes. Na tribuna, ao lado dos oradores, o frade dominicano Paul Blanquart, filósofo e marxista,  um dos organizadores do encontro. O discurso de Miguel Arraes tinha a marca de Blanquart. Frère Paul Blanquart – falecido em Paris dia 5 de fevereiro deste ano – conheceu de perto alguns dominicanos brasileiros que se exilaram em Paris. Ele viu seu aluno frei Tito de Alencar no Convento Saint-Jacques – onde chegou em 1971, depois de libertado juntamente com 70 presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bücher – incapaz de retomar uma vida normal devido às alucinações que seus torturadores deixaram como cicatriz das torturas dirigidas pelo delegado Sérgio Fleury e pelo capitão Albernaz. Antes da chegada de Tito de Alencar ao Convento Saint-Jacques, frère Paul já era próximo dos exilados brasileiros como Miguel Arraes e sua irmã Violeta. Ele também conviveu com Aloysio Nunes Ferreira, ex-ministro das Relações Exteriores e representante da ALN em Paris. Bastardo Paul Blanquart foi um dos personagens mais exuberantes, brilhantes e cultos que conheci. Em francês, uma expressão o define bem: haut en couleurs. Tudo nele era entusiasmo, vivia suas ideias sem concessões e pagou um preço alto por seu engajamento no "cristianismo da libertação", expressão que ele preferia a "teologia da libertação". Ele acompanhou de longe o crescimento dos evangélicos no Brasil depois do pontificado de João Paulo II e do desmantelamento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), vistas pelo papa polonês como perigosas e subversivas: "A mensagem evangélica tinha reencontrado seu vigor e significação com o cristianismo da libertação, que aliava a fraternidade e um trabalho de razão para realizar esta fraternidade. Ora, a palavra ‘evangélico’ foi sequestrada do cristianismo da libertação pelos que representam exatamente o contrário dele.  Os evangélicos são o oposto do Evangelho de Jesus", explicou Blanquart em entrevista que fiz com ele. Na apresentação de um livro de seus artigos e entrevistas, En bâtardise, publicado em 1981 (Ed. Karthala), Paul Blanquart se definiu: "Sou um bastardo. Não sou de raça pura, faço parte de duas linhagens. Sou um cruzamento de cristianismo e de marxismo. Um impuro, rejeitado pelas duas ortodoxias. Pertencimento duplo, exclusão dupla." Ao realizar entrevistas com dominicanos na França para a biografia de frei Tito (Um homem torturado - Nos passos de frei Tito de Alencar), em 2012, a co-autora Clarisse Meireles e eu nos tornamos muito amigas de Paul Blanquart, com quem iniciei um livro de entrevistas que não será jamais publicado. Numa das nossas entrevistas, ele explicou o objetivo do "meeting" na Mutualité: “Era uma oportunidade para trabalhar uma certa unidade dos exilados brasileiros na França, dispersados em várias organizações. O encontro marcava uma posição de unidade contra a ditadura, denunciava a execução de Marighella e a tortura dos jovens dominicanos." A carta publicada em novembro de 1969 no Le Monde anunciando a prisão e tortura dos dominicanos em São Paulo e assinada pelas autoridades dominicanas foi redigida por Paul Blanquart, que comentou: "A prisão dos dominicanos era usada pelos jornais brasileiros próximos da ditadura. Eles afirmavam que os dominicanos se viam como cristãos revolucionários mas eram duplamente traidores: do cristianismo e de Marighella. Precisávamos mostrar a nossa solidariedade a eles. Na Mutualité havia uma grande faixa com a citação do padre colombiano Camilo Torres: 'O dever de todo cristão é ser revolucionário', e outra do Che : 'O dever de todo revolucionário é fazer a revolução'. O encontro girou em torno de Marighella, de quem os jovens dominicanos presos eram próximos". Perigoso marxista Em abril de 1972, os frades alunos do Convento Saint-Jacques - entre eles Tito - escreveram uma carta ao Maître général dos Dominicanos para defender frère Paul Blanquart que tinha sido nomeado "padre-mestre dos frades estudantes das províncias francesas" e demitido de suas funções 48 horas depois. Ele fora denunciado numa carta a Roma como um perigoso marxista, um apóstolo da revolução "que cita mais Lenine e Marx do que Jesus". "Foi o superior-geral dos dominicanos quem me demitiu, um espanhol, velho franquista, que desaprovava totalmente minhas posições. De certa maneira é normal que Roma não tenha permitido que eu exercesse aquela função, estávamos em campos opostos", me explicou Paul Blanquart em entrevista publicada em 2020 na revista católica de esquerda Golias, quando saiu em Paris a edição francesa da biografia de Tito de Alencar, (Tito de Alencar-1945-1974, Un dominicain brésilien martyr de la dictature, 2020, Éditions Karthala, Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles). Avesso às novas tecnologias, frère Paul, como o papa Francisco, nunca teve um celular.  "Para não ser algoritmizado", explicava ele, que sempre se recusou a ter e-mail, apesar de escrever num computador. Mas, diferentemente do papa Francisco, Paul Blanquart nunca se deitou no divã de um psicanalista. Ele escreveu no prefácio do livro Dominicanos operários de Hellemmes que "na sua fundação, no século XII, a ordem dominicana esteve claramente ao lado do evangelho fraternal contra a instituição eclesiástica estruturada pela hierarquia feudal: a ordem acompanhou com sua pregação, seu modo de vida e sua legislação democrática o movimento comunal". "Foram os socialistas cristãos que, no século XIX, acrescentaram o termo ‘fraternidade’ à divisa republicana que se resumia a ‘liberté, égalité". Ferrenho crítico da hierarquia que organiza o catolicismo, Paul Blanquart foi um discípulo do profeta de Nazaré, que viveu na pobreza, a mil anos-luz das pompas da igreja católica, o que o levou a dizer que "a igreja católica não pode ser cristã". Era uma forma de rejeitar « a opção pela tradição sacerdotal, hierarquizada e o poder temporal da Igreja ». Ele defendia "a tradicão profética, da fraternidade, que o cristianismo da libertação encarna". Neste sentido, ele declarou um dia que nunca poria os pés nos Estados Unidos, nem em Jerusalém, nem no Vaticano, pelo que estes lugares representam. "Os Estados Unidos porque considero que são a encarnação do capitalismo, da finança e da sociedade de consumo que destrói o planeta. Em relação à América Latina, o domínio dos EUA é uma catástrofe. No Congresso de Havana de 1968, votamos pelo boicote dos EUA. Talvez eu seja o último a respeitar este juramento. Não ir a Roma me priva de ver a Capela Sistina mas não posso esquecer que a Basílica de São Pedro foi construída pela venda de indulgências, o que era contrário à mensagem de Jesus dos textos evangélicos. E Jerusalém porque não é lá que podemos encontrar Jesus, não podemos fetichizar um lugar, qualquer que ele seja…" O dominicano subversivo que foi professor no Instituto Católico de Paris, ensinou sociologia na Universidade de Paris-Val-de-Marne e foi redator-chefe-adjunto da revista "Politique-Hebdo" se transformara num ecologista militante, convencido de que a degradação do planeta é obra do homem e que sem mudanças radicais a vida sobre a terra está seriamente ameaçada. No segundo semestre deste ano sairá em Paris um livro de autoria de Alice Bléro sobre Paul Blanquart, no qual ele expõe sua visão do cristianismo e da ecologia. Em seu testamento, frère Paul afirmava ser dominicano e cristão mas dizia não desejar cerimônia religiosa em seu enterro. E justificava : "Não quero que a tradição sacerdotal se aproveite da minha morte para se afirmar". *Jornalista internacional. Co-autora, com Clarisse Meireles, de Um homem torturado – nos passos de frei Tito de Alencar (Editora Civilização Brasileira, 2014). Em 2016, pela mesma editora, lançou A tortura como arma de guerra – Da Argélia ao Brasil: Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de Estado. Ambos foram finalistas do Prêmio Jabuti. O segundo foi também finalista do Prêmio Biblioteca Nacional. Publicado originalmente em Carta Capital. Foto: Do acervo da autora, de 2012. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Equilíbrio fiscal e juros

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Equilíbrio fiscal e juros
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De PAULO KLIASS* O Banco Central divulgou recentemente as informações oficiais relativas à política fiscal do governo brasileiro. Com o boletim de dezembro de 2023, torna-se possível a consolidação dos dados de todo o exercício passado. Os números tendem a confirmar, mais uma vez, a dominância da esfera financeira sobre todos os demais setores da atividade econômica. Esse processo de hegemonia do financismo vem de muito tempo, mas a cada novo período a situação parece se aprofundar ainda mais. Um dos principais problemas no debate envolvendo as políticas de austeridade fiscal diz respeito ao tratamento oferecido às despesas governamentais de natureza financeira. A orientação de conceder um enfoque diferenciado ao pagamento de juros da dívida pública, por exemplo, tem suas origens ainda na década de 1980, quando ocorria o processo de renegociação da dívida externa de boa parte dos países do então chamado Terceiro Mundo. Naquele momento, com a transferência da responsabilidade da gestão do endividamento do mundo em desenvolvimento para o Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial (BM) e o Tesouro norte-americano, as regras passaram a compor aquilo que veio a ser conhecido como Consenso de Washington - em razão das sedes de tais instituições estarem localizadas na capital daquele país. E uma das inovações foi justamente a recomendação para que os países endividados colocassem a austeridade fiscal como elemento central em suas estratégias de ajuste macroeconômico. E assim foi feito. As elites do capital financeiro em nossas terras, passaram a encher a boca para que os sucessivos governos cumprissem com aquilo que chamavam de “dever de casa”. Despesa financeira não tem teto nem limite Porém, e sempre tem um porém, o foco da ação da tecnocracia deveria ser apenas e tão somente sobre o conceito de “equilíbrio primário”. Como por primário entende-se o conjunto de despesas não-financeiras, a dedução lógica é que todo o esforço de compressão de gastos orçamentários deveria se concentrar sobre previdência social, saúde, educação, assistência social, segurança pública, saneamento, salários de servidores, investimentos, etc.  Assim, no que se refere ao pagamento de juros da dívida pública não deveria existir nenhum controle, teto, contingenciamento ou qualquer outro tipo de limitação. Afinal, como gostam de reafirmar a cada instante os “çábios” a serviço do financismo, os contratos devem ser honrados (sic). Na verdade, entenda-se aqui apenas os contratos estabelecidos com a elite do capital, uma vez que os contratos socialmente estabelecidos na Constituição, ah esses não merecem nenhum tipo de rigor quanto ao seu cumprimento. Esta metodologia de conferir às despesas financeiras um verdadeiro e injustificável tratamento VIP foi sendo incorporada pela institucionalidade e pela legislação dos países. No caso brasileiro, por exemplo, o espírito da austeridade foi consolidado no texto da Lei de Responsabilidade Fiscal do FHC/Malan em 2000, se manteve no teto de gastos do Temer/Meirelles em 2016 e ainda persiste nos dispositivos do Novo Arcabouço Fiscal de Lula/Haddad aprovado em 2023. Mais do que isso, a obsessão de buscar superávit nas contas públicas a todo o custo se manteve intocável ao longo de todo esse período. E tal deformação só reforçou o viés em prol da financeirização, fenômeno que tão tristemente vem marcando nossa economia e nossa sociedade.  Em 2023 foram R$ 718 bi de juros da dívida Pois em 2023 o governo brasileiro gastou o equivalente a R$ 718 bilhões com pagamento de juros da dívida pública. Esse valor representa um recorde na série histórica desse tipo despesa apurada pelo BC. Em 2022, por exemplo, que já havia sido o maior valor anual até então registrado, o total foi de R$ 586 bi. Isso significa que, ao mesmo tempo em que o Ministro Haddad segue insistindo no discurso em favor da austeridade fiscal dura e crua, durante o ano passado as despesas governamentais não primárias sofreram uma elevação superior a 22%. Vale a pena ressaltar que nenhuma outra rubrica orçamentária recebeu tratamento semelhante na comparação entre os dois exercícios. O interessante é que as alternativas apresentadas pelos representantes do financismo nos grandes meios de comunicação sempre começam pelo substantivo “gastança”. Os chamados “especialistas” sugerem que o governo corte drasticamente em programas de natureza social, mas não citam em nenhum momento o tipo de despesa que mais prejuízo provoca ao Brasil. Aumentar os recursos para áreas como a saúde e a educação, por exemplo, apresentam um excelente retorno social e econômico. O chamado multiplicador dos gastos para esse tipo de programa é bastante positivo. Afinal, eles geram crescimento da atividade econômica real, proporcionam a elevação do nível de emprego e, principalmente, aumentam a qualidade de vida da maioria da população, localizada na base da nossa pirâmide da desigualdade. Ao contrário, as despesas com pagamento de juros se dirigem aos setores do topo da nossa estrutura da injustiça social e econômica. São estes grupos que se apropriam privadamente da verdadeira “gastança parasitária”, cuja existência não oferece praticamente nenhum retorno de aceleração do crescimento das atividades econômicas ou de elevação do nível de emprego. Esse impressionante volume de dinheiro público é encaminhado diretamente para as camadas que menos necessitam justamente de ajuda do Estado. Trata-se, na verdade, de uma completa inversão de valores e de prioridades quanto ao desenho e à implementação de políticas públicas. Superávit primário: privilégio para o financismo O que se pode depreender de tais informações é que a aliança dos representantes do sistema financeiro com a fina flor da tecnocracia estatal cooptada pelo paradigma conservador e neoliberal termina por perpetuar a lógica de se conceder privilégios ao capital privado por meio de sequestro sistemático dos fundos públicos. O discurso de promover a austeridade para assegurar a responsabilidade fiscal na condução da política econômica não resiste a uma análise mais detalhada.  Caso o establishment do financismo exigisse do governo o mesmo rigor no controle e no corte das despesas não primárias do que promove nas ameaças apocalípticas quando menciona a gastança irresponsável com os gastos sociais o cenário seria mais verdadeiro. Afinal, nunca se atingirá o efetivo equilíbrio fiscal enquanto os gastos com juros da dívida pública continuarem a correr livres de qualquer controle do governo e da sociedade. Tudo se passa como se houvesse um orçamento paralelo, semiclandestino, onde a execução das despesas públicas da órbita financeira ocorre de forma a privilegiar ainda mais aqueles que sempre se beneficiaram da política econômica conservadora e ortodoxa. *Doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal. Imagem em Pixabay. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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Lula balizou o debate mundial sobre o genocídio palestino

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Lula balizou o debate mundial sobre o genocídio palestino
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De JEFERSON MIOLA* Lula é um dos raros estadistas da atualidade e um dos maiores líderes populares do mundo contemporâneo. A voz do Lula tem enorme ressonância na geopolítica mundial. Além da respeitabilidade e autoridade política conquistadas na cena internacional, Lula é o chefe de Estado de um país com a relevância do Brasil que atualmente exerce a presidência rotativa do G20 e integra o grupo fundador dos BRICS. A posição expressa por Lula, dando o nome real à tragédia terrível que vive o povo palestino, similar à vivida por judeus sob o nazismo de Hitler, se tornou uma baliza mundial sobre o extermínio do povo palestino. Aliás, no veredito provisório de 26 de janeiro, a Corte Internacional de Justiça [CIJ] da ONU reconheceu as graves violações da Convenção sobre a prevenção e punição do crime de genocídio por parte de Israel – ou seja, confirmou o extermínio em curso. Apesar da decisão da CIJ, os EUA e outros países mantiveram-se inertes diante do agravamento da situação. É uma trágica ironia da história Israel desrespeitar a Convenção do direito internacional criada pelas Nações Unidas em 1948 justamente em resposta ao Holocausto de judeus pela Alemanha nazista. Lula colocou no centro da agenda da ONU a responsabilidade ética de o mundo interromper urgentemente a matança israelense nos territórios palestinos, onde pelo menos uma criança palestina é exterminada a cada 13 minutos e outra é aleijada a cada 2 horas e meia. Nenhum líder mundial, nem mesmo dos EUA e de Taiwan, caninos defensores de Israel, se solidarizaram com Bibi Netanyahu, o comandante-em-chefe da limpeza étnica, pela declaração do Lula. E, por outro lado, a caracterização do Lula sobre a natureza do regime nazi-sionista não foi contestada por nenhum líder mundial, porque sabem que Lula tem razão. Há um reconhecimento tácito da pertinência da denúncia do presidente brasileiro. É inevitável a analogia relativa entre a realidade das vítimas de Netanyahu no Gueto de Rafah com a realidade dos judeus na Alemanha nazista dos anos 1933/1945. É urgente a necessidade de intervenção para deter a fúria de Israel antes da “solução final”; ou seja, antes de se consumar o extermínio total dos palestinos. Este é o significado do apelo humanitário feito por Lula, e que o Conselho de Segurança da ONU finalmente poderá escutar. Pela primeira vez os EUA, depois de vetaram todas as resoluções anteriores de cessar-fogo na Faixa de Gaza, finalmente agora propuseram a medida. E também a proibição de Israel seguir a agressão terrestre em Rafah, que pode causar a carnificina de 1,5 milhão de palestinos. A aprovação, nesta terça-feira, 20/2, da resolução do Conselho de Segurança da ONU, se confirmada, consagra a política externa brasileira e confirma o acerto da posição perseverantemente defendida por Lula. Lula fincou uma baliza no debate mundial sobre a monstruosidade do governo israelense. O mundo inteiro, até mesmo o grupo de governos cúmplices de Israel, tem consciência sobre os horrores nazi-sionistas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada. É urgente deter essa infâmia. *Analista político. Artigo publicado originalmente no blog do autor. Imagem: Aroeira. Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande seu texto para redacaositered@gmail.com . Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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