Xadrez da Caixa de Pandora, do STF e da Mídia

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Por LUIZ NASSIF*

A cegueira sobre relações causa-efeito não é prerrogativa da mídia. Como ficará o jogo político, com a abertura da caixa de Pandora?

Zeus entrega a Pandora uma caixa (na verdade, um jarro, mas a tradução pegou) com a recomendação clássica que todo mundo ignora: “não abra”. Pandora abre. Resultado? Escapam todos os males do mundo: dor, doença, guerra, inveja, caos.

Zeus entrega a Pandora uma caixa (na verdade, um jarro, mas a tradução pegou) com a recomendação clássica que todo mundo ignora: “não abra”. Pandora abre. Resultado? Escapam todos os males do mundo: dor, doença, guerra, inveja, caos.

A maneira como veículos de todas as linhas políticas aderiram à campanha de escandalização, promovida pela Globo contra o Supremo Tribunal Federal, é um tema interessante para a análise do uso do escândalo pela política e sua derivação pela mídia.

O primeiro passo é não minimizar as denúncias envolvendo o Ministro Dias Toffoli. São graves e consolidadas, assim como o contrato da esposa de Alexandre de Moraes com o Banco Master.

O desafio maior é outro: impedir que a campanha contra ambos seja a gazua para desestabilizar o Supremo Tribunal Federal que, com todos seus defeitos, é a última âncora contra o avanço do caos e da irracionalidade.

Ao longo dos últimos 15 anos, houve uma sucessão de episódios polêmicos envolvendo Ministro do STF, que foram varridos para baixo do tapete da opinião pública, por não haver interesse político da mídia. Os objetivos de ambos estavam alinhados. Relato alguns no meu livro “A Conspiração Lava Jato”.

Agora, Moraes e Toffoli são alvejados, ainda que por justa causa, mas porque a campanha atende a outros interesses midiáticos. Afinal, eles estão no centro de uma guerra contra o crime organizado, do Congresso à Faria Lima, e contra os herdeiros da Lava Jato. E a imprensa precisa de bandeiras para enfrentar a gradativa perda de relevância, frente ao crescimento das redes sociais.

Entenda melhor o fenômeno do escândalo

Peça 1 – o escândalo, como arma midiática

O escândalo é arma essencial, no modelo de negócios da mídia. Um caso clássico vem do próprio nascimento da imprensa, como empresa.

Havia duas grandes redes de jornais nos Estados Unidos: o New York Journal, de William Randolph Hearst, e New York World, de Joseph Pulitzer. Ambos entraram para a história, Hearst como pai da imprensa marrom, Pullitzer como pai da empresa ética. Ambos praticando o jornalismo marrom.

O episódio em questão foi a tomada de Cuba, então uma possessão espanhola, pelos Estados Unidos. Os empresários norte-americanos tinham interesse direto na ilha, no açúcar, comércio e como rota estratégica. A opinião pública norte-americana era, inicialmente, indiferente à guerra.

Aí começou o jogo. 

A Etapa 1 foi a moralização do conflito. A Espanha era apresentada, pelas duas redes, como bárbara, cruel, inimiga da liberdade. Inventavam-se relatos sobre campos de concentração espanhóis, estupros, massacres e torturas.

O caso clássico foi do ilustrador Frederic Remington, enviado por Hearst à Cuba, para produzir imagens de atrocidades espanholas.

Remington chega a Havana e encontra repressão espanhola, mas nenhuma cena espetacular. Foi-lhe sugerido, então, uma cena de espanhóis praticando o canibalismo. Ele disse que não havia isso por lá.

Reprodução

Resposta de Hearst, que se tornou um retrato do uso do escândalo pela mídia: “Você forneça os desenhos. Eu forneço a guerra.”

Depois disso, o uso do escândalo tornou-se uma constante:

  • Caso Dreyfus, na França (1894-1906), com campanha de jornais antissemitas que puxaram o cordão, e foram acompanhados por outros, querendo se firmar como “imprensa moral”.
  • Macartismo nos EUA (anos 1950). Mídia amplificou denúncias frágeis de comunismo. Jornais e TVs ganharam audiência e centralidade política.
  • Guerra do Iraque (2003): em cima de informações falsas sobre supostas “armas de destruição em massa”, destruiu-se um país.

Nos anos 90, depois que o australiano Rudolph Murdock passou pela Inglaterra, o temor com o uso indiscriminado das campanhas midiáticas tornou-se tão acentuado, que inspirou um episódio clássico na série “Sherlock Holmes”, da BBC.

Holmes enfrenta um czar da mídia, que tinha todas as chantagens armazenadas em seu cérebro. Só encontra uma maneira de enfrentá-lo: matando-o! Algo impensável em qualquer ficção envolvendo o detetive cerebral.

Peça 2 – o escândalo no marketing da mídia

O ponto central é entender o papel do escândalo para a mídia, que é afirmação de poder, especialmente nesses tempos em que pesquisas de Web e Inteligência Artificial ameaçam liquidar com o último vestígio de influência.

1. A centralidade.

Um bom escândalo, quando pega na opinião pública, devolve à imprensa a centralidade política. É a melhor ferramenta para fabricar consensos, aumentar a tiragem, o prestígio e infundir temor. Meu livro “O caso Veja” descreve bem o processo de deterioração editorial da revista, que se transformou na maior máquina de assassinato de reputações da história da mídia brasileira, como alavanca para negócios destrambelhados.

Quando o escândalo se espalha, contamina toda a imprensa, de direita, de esquerda, do mainstream.

Há várias formas de coerção do jornalismo. Fala-se muito no poder do patrocinador. Mas tão forte quanto é a pressão do leitor. A imprensa esquece seu compromisso com os fatos e passa a adaptá-los ao que o leitor quer. Especialmente se as campanha se fundam em pautas morais. 

2. O padrão.

Desde a guerra contra a Espanha, o padrão é o mesmo.

  1. Seleção do fato escandalizável (personagens reconhecíveis, leitura moral simples).
  2. Enquadramento inaugural (define o sentido e ancora a cobertura).
  3. Serialização (mantém a agenda viva, mesmo sem fatos novos).
  4. Amplificação seletiva (vazamentos sobem; desmentidos descem).
  5. Personalização (instituições somem; personagens dominam).

 

3. A serialização

Este é o ponto central que determina o impacto maior ou menor do escândalo.A repetição tem o poder de consolidar a imagem, independentemente da análise técnica dos fatos expostos.

 Vamos a dois exemplos clássicos do poder da repetição:

1. Nos ataques da mídia ao 1º e 2º governo Lula, no início era uma cobertura destrambelhada, padrão Roberto Civita-Veja. Depois, sofisticou-se. Após uma consultoria, todo texto do Estadão que mencionava o PT colocava automaticamente uma virgula e o texto padrão: “partido condenado por corrupção”. Se o nome PT fosse mencionado 30 vezes na mesma edição, haveria a repetição, por 30 vezes, da frase.

2. O cano de óleo jorrando dólares do Jornal Nacional.

Peça 3 – impeachment x rachadinha

A imprensa direciona a cobertura da maneira que lhe for mais vantajosa, através de ferramentas editoriais:

  • Especialmente nas coberturas complexas, a imprensa mira o tema que quiser. O tema que não é coberto, some gradativamente do noticiário.
  • Dando informações incompletas ou distorcidas.
  • Descontextualizando a denúncia.

Vamos comparar duas coberturas, para analisar como se dá esse direcionamento.

A imprensa direciona a cobertura da maneira que lhe for mais vantajosa, através de ferramentas editoriais:

  • Especialmente nas coberturas complexas, a imprensa mira o tema que quiser. O tema que não é coberto, some gradativamente do noticiário.
  • Dando informações incompletas ou distorcidas.
  • Descontextualizando a denúncia.

Vamos comparar duas coberturas, para analisar como se dá esse direcionamento.

EtapaImpeachment de DilmaRachadinha de Flávio Bolsonaro
OrigemFatos reais, mas juridicamente controversosDocumentos e investigações consistentes.
ContextoQuase nenhuma comparação com governos anteriores.Falta de síntese sistêmica (uso de recurso público para enriquecimento privado).
Prova x mancheteControvérsia tratada como certeza.Provas fortes, mas sem arco narrativo contínuo.
Enquadramento Moralização contábil (“crime” como fato dado).Crime óbvios contra a administração pública.
SerializaçãoCobertura contínua criando inevitabilidade.Fragmentação estratégica.
PersonalizaçãoCorrupção institucionalizada, em cima de fatos meramente contábeis.Casos isolados, não sistema.
Resultado editorialDerrubada do governo.Escândalo diluído

Casos brasileiros — aplicação do método

Vamos ampliar a análise:

1) Lava Jato (2014–2019)

Conteúdo-chave: corrupção como essência da política. Escolha editorial: moralização total; vazamentos serializados. O que saiu do foco: devido processo legal, impactos econômicos e institucionais. Efeito: exceções naturalizadas; reordenação do poder.

2) Impeachment de Dilma Rousseff (2015–2016)

Conteúdo-chave: tecnicismo moral (“pedaladas”). Escolha editorial: retirada de historicidade e comparação. O que saiu do foco: controvérsia constitucional e precedentes. Efeito: impeachment normalizado como instrumento político.

3) Vaza Jato (2019)

Conteúdo-chave: a forma (origem das mensagens) substitui o conteúdo. Escolha editorial: contenção; curto-circuito do debate. O que saiu do foco: conluio e imparcialidade. Efeito: revisão tardia e defensiva.

4) Clã Bolsonaro: rachadinhas e imóveis

Conteúdo-chave: episódios fragmentados. Escolha editorial: pulverização do enredo. O que saiu do foco: sistema de financiamento político. Efeito: normalização pelo cansaço.

5) Pandemia da Covid-19

Conteúdo-chave: personagens e falas grotescas. Escolha editorial: personalização extrema. O que saiu do foco: cadeias decisórias e compras públicas. Efeito: indignação alta; accountability difusa.

6) 8 de Janeiro de 2023

Conteúdo-chave: choque do vandalismo. Escolha editorial: foco no ato final. O que saiu do foco (inicialmente): cadeia de comando e financiadores. Efeito: executores punidos antes da radiografia completa do sistema.

7) Campanha editorial contra o STF (2019–2024)

Conteúdo-chave: decisões isoladas como padrão. Escolha editorial: serialização e personalização. O que saiu do foco: judicialização como consequência do vácuo político. Efeito: deslegitimação incremental da instituição.

Conclusão

O escândalo não é o fato: é a decisão de como contar

Peça 4 – efeitos para 2026

Este é o ponto central, que mostra que a cegueira sobre relações causa-efeito não é prerrogativa da mídia corporativa. Como ficará o jogo político, com a abertura da caixa de Pandora?

A lógica do escândalo, tal como praticada na última década, tende a produzir efeitos cumulativos em 2026 — ano eleitoral, de reorganização institucional e de redefinição do papel da mídia. Há um cansaço geral com a ampliação da corrupção. Por sua vez, o episódio Master tende a ser amplo e diversificado – permitindo à mídia direcionar a atenção do público para o ângulo que quiser.

A ida do caso para a 1ª Instância poderá produzir o mesmo fenômeno da Lava Jato: a Polícia Federal e o MPF controlando a narrativa, tendo como aríete a mídia; e o juiz autorizando toda sorte de investidas, validando delações e suspeitas a seu bel prazer. E, no podium do Coliseu, os novos heróis que a mídia criar, ela mesmo sendo conduzida pelos fatos, com jornalistas pretendendo pegar carona nas bigas.

1) Eleição sob narrativa moral permanente
A cobertura tende a privilegiar escândalos serializáveis em detrimento de programas, plataformas e viabilidade administrativa. O risco é uma eleição decidida por enredos morais concorrentes, não por escolhas de política pública.

2) Judicialização ainda mais intensa
Com o Legislativo fragilizado e o Executivo pressionado por crises narrativas, o STF continuará sendo empurrado para o centro da rinha mas, agora, desmoralizado e enfraquecido. Sem seu papel moderados, de última instância, corre-se o risco da ampliação da judicialização em 1a instância. A crítica midiática sem contextualização pode retroalimentar o conflito, ampliando a instabilidade institucional.

3) Normalização do excepcional
Práticas tratadas como exceção (vazamentos seletivos, medidas atípicas, julgamentos antecipados) tendem a se consolidar como rotina. Em 2026, o extraordinário corre o risco de parecer ordinário.

4) Desgaste da mediação jornalística
A repetição de escândalos sem fechamento produz fadiga do leitor e perda de credibilidade. Cresce o espaço para desintermediação, influenciadores e narrativas paralelas — com menor compromisso com verificação.

5) Ambiente fértil para campanhas coordenadas
O método do escândalo facilita operações de agenda setting por atores políticos e econômicos. Em 2026, a fronteira entre jornalismo, ativismo e pressão estratégica tende a ficar ainda mais porosa.

6) Reação institucional tardia
A correção de abusos (quando ocorre) tende a ser posterior ao dano político. O custo institucional acumulado pode limitar a capacidade de resposta do Estado em crises reais.


*Luis Nassif é Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Publicado originalmente em GGN.

Foto de capa: Reprodução

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