Por Solon Saldanha *
Em uma decisão classificada como arbitrária e gravemente desproporcional por instituições católicas, o Patriarcado Latino de Jerusalém e a Custódia da Terra Santa foram impedidos de realizar a tradicional celebração que abre a Semana Santa, gerando uma crise diplomática de proporções globais.
O início da Semana Santa em Jerusalém foi marcado por um episódio sem precedentes na história moderna da cristandade. Neste domingo (29), a polícia de Israel impediu que o Patriarcado Latino de Jerusalém e a Custódia da Terra Santa celebrassem a missa do Domingo de Ramos na Basílica do Santo Sepulcro. O veto, que atingiu as mais altas autoridades eclesiásticas da região, foi denunciado em comunicado conjunto como uma medida “claramente irracional” e um rompimento drástico com o Status Quo que rege os lugares sagrados há séculos.
O Patriarca Pierbattista Pizzaballa e o Custódio padre Francesco Ielpo foram barrados quando se dirigiam ao templo de forma privada. Segundo as instituições, é a primeira vez em centenas de anos que líderes da Igreja Católica são impedidos de exercer seu ministério nesta data fundamental, que comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. O ato foi descrito como um “grave precedente” que ignora a fé de bilhões de pessoas que, neste período, voltam seus olhos para a Cidade Santa.
Reação Internacional e Recuo de Netanyahu
A gravidade do impedimento provocou uma onda imediata de condenações por parte da comunidade internacional. França, Itália, Brasil e a União Europeia manifestaram-se com rigor. Diante do isolamento diplomático e da repercussão negativa, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu recuou na madrugada desta segunda-feira, ordenando que o acesso do cardeal ao Santo Sepulcro fosse restabelecido imediatamente.
Em nota oficial, Netanyahu alegou que a medida não teve “má intenção” e que a motivação seria a segurança da comitiva, justificativa que não arrefeceu as críticas dos aliados ocidentais. A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, foi enfática ao classificar o episódio como uma “violação da liberdade religiosa”, destacando que o caráter multirreligioso de Jerusalém deve ser protegido sem exceções.
O Contexto do Conflito e as Restrições de Culto
O incidente ocorre em um cenário de extrema tensão regional, exacerbado pela expansão dos conflitos no Oriente Médio após os ataques de 28 de fevereiro. Sob o pretexto de segurança, o governo israelense tem limitado aglomerações a 50 pessoas, o que já havia forçado o cancelamento da tradicional procissão que parte do Monte das Oliveiras. Contudo, o impedimento da missa privada das lideranças foi visto como uma retaliação política, dado que o Cardeal Pizzaballa é um crítico contundente das ações militares de Israel em Gaza.
O governo brasileiro, em nota do Itamaraty, ampliou o escopo da crítica, vinculando o episódio às recentes restrições impostas a fiéis muçulmanos durante o Ramadã. O Brasil recordou o parecer da Corte Internacional de Justiça de 2024, que considera ilícita a presença de Israel no Território Palestino Ocupado, incluindo Jerusalém Oriental, onde se localiza o Santo Sepulcro.
Patrimônio da Humanidade sob Cerceamento
Líderes europeus, como Emmanuel Macron e Antonio Tajani, reforçaram que a liberdade de culto é inegociável. Para a diplomacia italiana, o fato de Roma ter que enviar um protesto formal a Tel Aviv sublinha a excepcionalidade do absurdo cometido.
Jerusalém, sagrada para cristãos, judeus e muçulmanos, vive hoje o paradoxo de ter seus caminhos interditados pela força policial justamente no período de maior sensibilidade espiritual. O impedimento da celebração no Santo Sepulcro não é apenas um entrave logístico, mas uma ferida aberta na diplomacia religiosa e no respeito aos direitos fundamentais em uma região já devastada pela guerra.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Patriarca Pierbattista Pizzaballa. Crédito: Vatican News




