Venezuela: o rei tombou no primeiro movimento

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Por GIOVANNI MESQUITA*

No xadrez o objetivo final, aquele que determina a derrota ou a vitória final é a queda do rei. Mas, até chegar a esse ponto há uma série de ações de lado a lado, movimentos de ataques, defesa, dissimulação etc. Mas, na Venezuela o que vimos foi a tomada do “rei” em um só gesto.

Mas, o que dizer do ataque e captura de Maduro na madrugada do dia 03? Segundo relatos do senhor Breno Altman, baseado em suas fontes governamentais venezuelanas, às duas da manhã ocorreu um ataque cibernético, em todo sistema de defesa da Venezuela, que incluiu comunicações, internet e energia elétrica. Logo após foram bombardeados os pontos em que se concentrava a defesa antiaérea. Segundo Altman, Maduro e esposa foram capturados ás 03 horas, uma hora depois de iniciado o ataque. Ele não parece estranhar a facilidade da tomada tão rápida do “rei”.

Desde o primeiro momento as ocorrências se demonstraram de difícil entendimento. Não pelo óbvio ataque dos criminosos do império, mas sim pela sua surpreendente eficiência e pela escandalosa fragilidade do sistema de segurança venezuelano. Trump apresentou a ação ao mundo como uma demonstração da genialidade e superioridade de suas tropas, como era de se esperar.

Temos poucas respostas, mas muitas perguntas. Por que no mesmo momento em que se identificou o hackeamento do sistema não foram todos aos postos de guerra? E por que não havia um sistema analógico de alarme e comunicação. Qual o sistema de defesa pode abrir mão de um segundo, terceiro ou quarto mecanismo de prevenção, comunicação e alerta? Onde estavam os 5000 mísseis antiaéreos fornecidos pela Rússia? São sistemas móveis, mísseis sobre caminhões, porque não estavam espalhados em pontos estratégicos de Caracas, por que estavam concentrados em bases facilitando a sua destruição? A simbologia de helicópteros estadunidenses passeando a baixa altura nos céus de Caracas, sem serem alvejados por um único tiro que lhes ameaçasse não cheira bem. Onde foi parar a retórica de ferrenha resistência no seu primeiro desafio?

E o que explica que mesmo passado uma hora entre o começo do ataque e o aprisionamento do plenipotenciário do país, ele já não estava a salvo no seu bunker? Consta que foi preso nas dependências do seu dormitório. Dos primeiros 40 mortos noticiados, 32 que pertenciam a segurança de Maduro, eram cubanos. Qual o significado do círculo mais fechado da defesa do “rei” estar sendo composta por militares estrangeiros

As evidências apontam para a traição. Como ela ocorreu, quem está envolvido, qual é a sua extensão, ainda não tem como se saber. Mas, no campo das hipóteses, que é a única ferramenta que se pode usar no momento, é possível compor vários cenários: Miríades de espiões da CIA, Agentes do Estado venezuelanos a soldo do império, acordo entre grandes potências e setores do governo venezuelano. Na última tese contaríamos com a participação do próprio Maduro ou não. No caso do não, o que estamos vendo é um golpe de Estado.

Maduro não é Chaves. Ele herdou do primeiro apenas o discurso alegoricamente revolucionário, o da tal revolução bolivariana que não se sabe exatamente o que tem de revolução. Talvez seja aquela revolução democrática, de que tanto falam os morenistas do PSTU. Nesse caso uma revolução levada a cabo por setores burgueses progressistas que, pressionados pelas massas, cumprem as tarefas democráticas. É claro sem que haja a expropriação do capital e o rompimento com a dependência das grandes empresas multinacionais. Mas, mesmo as tarefas democráticas não se viram cumpridas na Venezuela: o fim do latifúndio, o controle da mídia, a regulamentação do sistema financeiro, o controle sobre a exportação de capitais, etc.

No campo das relações internacionais, Maduro achou por bem se indispor com o Brasil. Lembramos o caso das eleições que, ao contrário do que propagandeou Altman, não houve ingerência do Brasil. A própria Venezuela de Maduro convocou o Brasil para acompanhar as eleições no seu país. O convite se deu no encontro em Barbado em 2023. A recusa do Brasil de apontar vencedores no pleito por ausência da divulgação das atas eleitorais gerou conflito. Essa era uma condição previamente apresentada pelo Brasil, para o reconhecimento, mesmo assim o governo Maduro abriu uma campanha de denúncia contra uma suposta ingerência do Brasil nas eleições venezuelanas. O governo bolivariano achou de bom tom chamar o assessor especial para assuntos internacionais de Lula, Paulo Amorin, de agente da CIA.

Muitos de nós ficamos perplexos ao ver o Brasil vetar a participação da Venezuela nos BRICs. Do ponto de vista estritamente tático podemos considerar isso um erro. Mas, é necessário lembrar que o Brasil indicou Cuba. Essa ação importante que foi solenemente desprezada por todo o campo dito progressista… Mas, é claro, não diminui o erro. Entretanto, esse fato não impediria o ataque à Venezuela, pois não há acordo militar entre os países dos BRICs.

Maduro já declarara que estava disposto a negociar, em termos bem flexíveis, o petróleo e os recursos minerais de seu país se isso levasse ao levantamento do cerco militar. Magicamente ele cai nas mãos dos piratas dos EUA, e agora o madurismo, sem Maduro, segue na mesma linha. Mesmo que peçam a devolução do casal sequestrado pelo terrorismo trumpista, já se dispõem a negociação sem que a suprema ofensa, o rapto de seu líder maior, seja consertada como condição prévia para acordos. E dos bravos heróis que tombaram defendendo seu líder, esse sangue cubano não exigirá reparação? Um regime que não consegue resistir a um arroto do imperialismo se justifica como a liderança de um povo? Ele tem alguma garantia a oferecer a soberania venezuelana? Ele tem alguma lição esperançosa para deixar aos povos da América Latina sobre os quais paira a mesma ameaça? Agora é que veremos de que fibra é feita a tal revolução bolivariana. O discurso libertador é testado no campo de batalha. Que a solidariedade com o povo venezuelano não nos cegue.

O que vemos agora é o começo da agonia de um império. Ele está sendo derrotado em todo o hemisfério oriental e mesmo nas fronteiras do ocidente. Assim a besta ferida se recolhe ao seu território, a sua toca. Mesmo que todos os ponteiros apontem para sua derrota, a fera homicida pretende levar para o abismo todo e todos que ela puder. Ela luta desesperada pela sua sobrevivência e nós teremos que lutar por sua eutanásia.


*Giovanni Mesquita é historiador, museólogo e escritor autor de Bento Gonçalves do nascimento a revolução: uma biografia histórica. Bento1835@gmail.com

Foto de capa: Shawn Thew/EFE/Rayner Pena R/ARQUIVO

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