Um balneário em Gaza: Walt Whitman já respondera

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Por TARSO GENRO*

o grande poeta americano Walt Whitman, que a partir do ano de 1862 e “sem descanso” até 1865, visitou os enfermos e feridos nos campos de batalha da Guerra da Secessão, acompanhando de perto as barbáries, as covardias e sobretudo o heroísmo, dos homens e mulheres comuns que lutavam, morriam e sobreviviam, na construção da nação que mais tarde se tornaria um poderoso país colonial-imperial, marcante na cena política e  militar do mundo, até hoje, com a sua força impressionante derramada sobre o mundo durante os dois  últimos séculos.

Num episódio narrado numa crônica (“Dias Exemplares”, Corregidor, 2013. B.Aires) Whitman conta que em 27 de março de 1865, o Sargento Calvin Harlowe, do Regimento 29 de Massachusetts, foi protagonista de “um singular exemplo de heroísmo e morte” (…) “eu digo heroísmo” – escreve Whitman – “do grande e velho cunho!” Com apenas 22 anos Harlowe foi confrontado com a opção de dizer as palavras “me rendo”, para os seus captores Confederados, ou morrer, como exemplo para os demais prisioneiros, também soldados da União.

Harlowe “tinha o espírito demasiado grande” para pronunciar a expressão “me rendo” e então disse as últimas palavras heroicas perante o oficial Confederado, que lhe censurava, mais uma vez, por não se render e, portanto, estimular os seus soldados a resistirem: “Nunca enquanto estiver vivo”, disse Harlowe, disparando contra o seu inimigo que revidou. E os dois tombaram. Os dois morreram. Walt Whitman disse que este episódio marcou sua vida para sempre e gerou seus conceitos e emoções sobre qualquer Guerra e que, quando pensava nelas “via a figura do jovem Calvin Harlowe, no meio da noite, recusando a render-se.”

“Meu amor eles estão em marcha: cabeças à frente olhos esbugalhados, a cintilação vermelha das cidades em chamas (…) / colheitas pisoteadas, pegadas sem fim e pessoas abatidas (…). Meu amor, por vezes perdi minha liberdade, meu pão e você / mas nunca minha fé nos dias que virão / emergindo da escuridão, dos gritos e da fome / batendo em nossa porta com as mãos cheias de sol.” É um poema do cárcere, do grande poeta turco Nazim Hikmet, revolucionário que passou maior parte da sua vida nos cárceres da Turquia ditatorial.

Homens como Harlowe e Nazim Hikmet, mulheres como Rosa Luxemburgo, como Sophie Scholl -jovem estudante da resistência fuzilada pelo nazismo-, como Olga Benário, não voltarão jamais? É o que confia Trump, com sua arrogância visceral, característica dos seres humanos para quem “tudo que é humano lhe é profundamente estranho” e que prepara, com seu verbo e suas armas, um Holocausto geral da Humanidade, que ainda luta com bravura para sobreviver.

Gesta-se um novo período na mesma ordem mundial. Não se sabe ainda se esta é uma mudança que vem da essência ou é a aparência que ainda não teve definido o seu destino. A pouca importância da União Europeia, os movimentos cuidadosos da China, e aqui, as respostas do México, do Canadá e da Colômbia, bem como as cautelas inteligentes do Brasil, configuram nas Américas os polos de enfrentamento democrático no Continente, contra o totalitarismo “trumpista”. Estes países apalpam um terreno infectado para tentar proteger-se do neofascismo alaranjado que assedia o mundo.

Trump organiza um “golpe de estado” progressivo contra os protocolos do convívio imperial-colonial da segunda metade do Século XX, que chega ao seu ápice neste ano de 2025: é a conjugação do neoliberalismo, que declina das funções públicas do Estado, com a depreciação da crise climática, integrada com a defesa do negacionismo sanitário, que cria uma nova “situação revolucionária”. Desta feita, todavia, para dar curso a uma contrarrevolução fascista”, que vincula o pior das elites empresariais com as classes altas rentistas e estas com os excluídos de toda a ordem, atônitos perante a impotência da República para vencer suas crises.

Esta impotência está sendo parcialmente superada aqui no Brasil. Apenas parcialmente, é certo, não só porque temos um Governo legitimado por um complexo processo eleitoral que elegeu um quadro político que sabe lidar com situações-limite na política, mas também porque a maior parte da sociedade brasileira apoia a democracia e confia em Lula. E o faz por saber, especialmente, que ele é um homem do jogo democrático e que defende os direitos dos excluídos e oprimidos, sem esquecer os demais setores sociais que também fazem o Brasil funcionar e crescer. Nos estreitos corredores da História, no entanto, dezenas de ‘trumps” contemplam sorridentes a crise da democracia liberal.

A fala incrível de Trump, ao dizer que poderia entrar em Gaza e que o ideal para a região – depois de desenraizar dois milhões de palestinos levando-os para o Egito e à Jordânia – seria transformá-la numa Riviera, é o anúncio de uma fase que, se prosperar, nos levará às mais profundas trevas. A afirmativa do Presidente não é somente um escárnio e um improviso, mas sobretudo um processo de naturalização da barbárie para que possamos – em breve – desejar que tudo que seja um pouco menos do que é isso, já seja uma volta à civilização.

Trump já é o fim da distopia como conceito e o início de um novo tipo de barbárie, depois deste conjunto de séculos que inicia com o Renascimento e chega na Revolução Francesa e Americana, para devorá-las por inteiro. Só o espírito de heróis, como o do soldado Harlowe e a bravura de muitos poetas, como Nazim Hikmet, nos salvarão do destino que Trump está prometendo, com um Balneário em Gaza: um criminoso monumento tumular da democracia e da liberdade, que só poderia ser concebido por quem faz da necrofilia um esporte de alto rendimento e faz da Humanidade um espaço de descarte dos seus desejos mais perversos e assassinos.

*Tarso Genro é ex-governador do RS, ex-Prefeito de Porto Alegre, advogado, professor universitário, ensaísta, poeta. Foi Ministro da Educação, das Relações Institucionais e da Justiça.

Foto de capa: Forças armadas israelitas ferem 29 palestinos em protesto em praia de Gaza. Crédito da Foto: Divulgação MPMP – Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e Pela Paz no Oriente Médio

Os artigos expressam o pensamento de seus autores e não necessariamente a posição editorial da RED. Se você concorda ou tem um ponto de vista diferente, mande um texto para redacaoportalred@gmail.com. Ele poderá ser publicado se atender aos critérios de defesa da democracia.

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