Por Solon Saldanha *
Em nova reviravolta diplomática após ameaças de extermínio total, o governo dos Estados Unidos aceitou uma proposta de cessar-fogo de 15 dias na guerra contra o Irã. O acordo, que conta com a adesão de Israel, prevê a reabertura monitorada do Estreito de Hormuz e o início de negociações em Islamabad a partir da próxima sexta-feira (10).
O Recuo e a Retórica de Washington
Após semanas de escalada bélica iniciada em 28 de fevereiro, o presidente Donald Trump anunciou a suspensão temporária das hostilidades na noite desta terça-feira (7). A decisão ocorre poucas horas após o mandatário americano utilizar uma retórica de extermínio, afirmando que “uma civilização inteira morreria” e ameaçando a destruição completa da infraestrutura civil iraniana em um prazo de quatro horas.
Apesar do tom agressivo, Trump capitulou diante da proposta mediada pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, sob forte influência da China. O governo americano tenta converter o recuo em narrativa de sucesso, alegando que os objetivos militares foram “excedidos”, embora analistas apontem para a manutenção da estratégia “TACO” (Trump Always Cops Out — Trump sempre amarela), caracterizada por ameaças extremas seguidas de concessões.
Crimes de Guerra: O Ataque à Infraestrutura Civil
Um dos pontos mais críticos e condenáveis do conflito, que ganha contornos de barbárie, é o sistemático ataque a alvos não militares. Nas últimas 48 horas, as forças de Israel e dos Estados Unidos voltaram a perpetrar graves crimes de guerra ao bombardearem deliberadamente instalações civis.
Relatos confirmam ataques israelenses contra ferrovias civis, resultando em mortes de trabalhadores, além da destruição de petroquímicas e ameaças diretas a pontes e usinas de energia. Segundo o Direito Internacional e as Convenções de Genebra, o bombardeio de infraestrutura essencial à sobrevivência e ao transporte da população civil, que não ofereça vantagem militar direta e imediata, constitui uma violação flagrante e passível de punição em tribunais internacionais. A destruição de universidades e centros logísticos civis reforça a tese de que a coalizão liderada por Washington e Tel Aviv tem ignorado as normas humanitárias básicas para exercer pressão psicológica sobre Teerã.
Condições de Teerã e o Estreito de Hormuz
O regime iraniano, agora sob a liderança do aiatolá Mojtaba Khamenei, confirmou a trégua, mas manteve uma postura de vigilância máxima. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã declarou que “os dedos continuam no gatilho” e que o fim definitivo da guerra só ocorrerá com a aceitação de seu plano de dez pontos.
As exigências iranianas para a paz duradoura incluem:
- A suspensão imediata de todas as sanções econômicas;
- O pagamento de indenização integral pelos danos causados à infraestrutura do país;
- A retirada de tropas americanas de bases regionais;
- A liberação de ativos congelados no exterior.
Quanto ao Estreito de Hormuz — por onde transita 20% do petróleo e gás mundial —, o Irã aceitou permitir a passagem de navios mediante coordenação com suas Forças Armadas e o pagamento de taxas de trânsito, cujo montante será destinado à reconstrução do país devastado pelos ataques.
Cenário Regional e Tensão no Mercado
A desescalada momentânea foi recebida com ceticismo pela comunidade internacional, especialmente após o veto de Rússia e China a uma resolução da ONU que buscava legalizar uma operação militar no Golfo. No campo de batalha, a rotina de bombardeios entre Israel, Hezbollah e forças houthis no Iêmen continuou até os momentos anteriores ao anúncio, mantendo a região em estado de alerta máximo. A mediação paquistanesa em Islamabad será o primeiro teste real para verificar se a diplomacia pode conter a ameaça de um conflito de aniquilação total no Oriente Médio.
* Solon Saldanha, jornalista e escritor
Foto: Abbas Araghchi, chanceler iraniano. Crédito: reprodução O Globo




